Com o aumento dos eleitores indecisos, que passaram de 7% para 14% segundo a Quaest divulgada nesta quarta-feira, as campanhas de Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) intensificam as estratégias para conquistar os votos ainda em disputa neste segundo turno. Nos eventos políticos, o senador e seus aliados endurecem as críticas ao presidente e procuram associá-lo a um governo que já teve oportunidades de promover mudanças no país, mas não teria apresentado os resultados esperados. No horário eleitoral, a orientação é seguir por outro caminho, com uma abordagem mais leve e centrada nas propostas do candidato do PL. A campanha tende a adotar um tom de “good vibes”, ou boas energias, na propaganda de rádio e televisão, segundo uma integrante da equipe. A avaliação é que o eleitor não quer passar os últimos momentos antes da votação ouvindo candidatos trocarem acusações, mas conhecer os planos de quem pretende governar o país. A estratégia prevê manter em evidência as principais bandeiras apresentadas por Flávio ao longo da campanha, com ênfase em segurança pública, medidas para melhorar a economia e o chamado tesouraço, nome dado à proposta de corte de gastos. A equipe também pretende insistir na mensagem de que programas sociais, como o Bolsa Família, serão mantidos em um eventual governo do senador, em resposta às acusações de Lula de que o adversário poderia acabar com o benefício. Nos eventos políticos, por outro lado, o tom tem sido mais duro. A campanha recupera declarações de Lula sobre governadores de oposição para sustentar que o presidente condicionaria a relação com os estados ao alinhamento político. Um dos exemplos explorados é a fala do petista sobre o governador eleito de Minas Gerais, Cleitinho Azevedo, aliado de Flávio. Durante agenda no estado, Lula afirmou que Minas poderia se tornar um “cemitério de obras paralisadas” caso ele não fosse reeleito. Flávio também tem repetido que não pretende governar movido por vingança e que, se eleito, vai “traçar uma linha” em relação ao passado. A mensagem procura apresentar o senador como alguém disposto a encerrar disputas políticas e governar para a população, ao mesmo tempo que a campanha mantém a ofensiva contra o atual presidente. Do outro lado, a campanha de Lula mira as mulheres indecisas na reta final do segundo turno. Para estrategistas do petista, o público feminino que ainda não escolheu entre os dois candidatos é o mais fácil de ser convencido a optar por Lula. A linha usada é direcionar a construção de peças publicitárias e vídeos para as redes a mensagens que sensibilizem as mulheres. A possibilidade de perda de benefícios sociais, políticas públicas e até de leis trabalhistas deve ser explorada junto a esse público. Um dos focos é o argumento de que Flávio poderá mudar o fim da escala 6x1, recém-aprovada pelo Congresso. Falas e posições do senador consideradas machistas também serão exploradas com mais contundência. Uma delas é uma votação de 2006 em que Flávio Bolsonaro foi o único deputado estadual do Rio a votar contra uma proposta que previa multas para estabelecimentos que comercializassem cartões-postais com imagens de mulheres seminuas, em uma iniciativa de combate ao turismo sexual no Rio de Janeiro. Para integrantes da coordenação da campanha petista, o dado mais importante da pesquisa Quaest desta quarta-feira está na pergunta espontânea, na qual o número de indecisos dobrou em uma semana, passando de 7% para 14%. Petistas avaliam que parte desse eleitorado é formada por mulheres que têm receio de perder conquistas, enquanto os homens seriam menos sensíveis a esse tipo de risco eleitoral. Além disso, apontam que a maioria de Flávio no Congresso Nacional e a declaração de que pretende mudar a Constituição — sem especificar o que buscará alterar — podem despertar receio entre os eleitores. A mesma preocupação com a apresentação de propostas deve orientar a participação de Flávio no debate da TV Globo, marcado para sexta-feira. Embora tenha cancelado a sabatina que faria no SBT nesta quarta-feira, o senador decidiu comparecer ao último confronto direto com Lula na campanha. Segundo aliados, a presença tem peso simbólico, por demonstrar disposição para enfrentar o adversário em um dos principais eventos televisivos da reta final, mas também representa uma oportunidade de falar diretamente a milhões de eleitores que buscam respostas sobre o que cada candidato pretende fazer caso eleito. Interlocutores do senador avaliam que ele não conseguiu aproveitar plenamente essa oportunidade no debate da Band, no último domingo. Na avaliação desse grupo, o confronto ficou excessivamente concentrado em ataques mútuos, sem que Flávio respondesse a todas as questões que poderiam ajudar o eleitor a compreender suas propostas. A expectativa é que, na Globo, o candidato consiga dar mais espaço à apresentação de seu programa, sobretudo nas áreas de segurança pública e economia, além de reforçar a promessa de manutenção de benefícios sociais como o Bolsa Família.
Com indecisos em alta, Lula explora temor sobre direitos, enquanto Flávio tenta reduzir resistências com propostas
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O Globo
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