Com deficiência visual, pai de bebês gêmeos fala sobre desafios: 'Diferenciar as roupas é a parte mais difícil'
Souleyman Bah tem 27 anos, é nascido na Guiné, atualmente mora no Reino Unido e, há alguns meses, começou a compartilhar em redes sociaisos próprios desafios acerca da paternidade. Seus vídeos se tornaram virais no Instagram e no TikTok. Além de lidar com a criação dos próprios gêmeos, o papai de três crianças lida com uma deficiência visual severa, que o força a se adaptar em diversas situações.
Na infância, Souleyman foi diagnosticado com retinose pigmentar. A condição é hereditária e causa a perda progressiva da visão. Hoje, ele consegue ver apenas 10% do que podia até receber o diagnóstico, aos 5 anos.
Apesar disso, Souleyman já foi atleta paralímpico, especializado nos cem metros rasos do atletismo e participou do reality show britânico "The undatables" (Os inamoráveis, em português). Depois da participação no programa, ele conheceu a esposa britânica Saskia Symington e, a partir disso, começou a formar a própria família.
Souleyman Bah e a Saskia Symington, que conheceu depois da participação no reality "Os inamoráveis" do Reino Unido
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Perguntado sobre um possível medo nessa nova fase da vida, o ex-atleta afirmou que tudo o que ele queria era realmente ter filhos para ver o rosto deles antes de perder toda a visão.
No nascimento da primeira filha, Tallulah, hoje com 2 anos, ele relembra a falta de experiência e a falta de referências na paternidade:
"Lembro de quando Tallulah veio ao mundo, eu não tinha experiência alguma, nem modelos para me inspirar em como me tornar um pai com deficiência visual. Eu não sabia como ia ajudar minha parceira a trocar fraldas ou até levar os bebês para o passeio, considerando minha baixa visão, enquanto a Saskia descansava um pouco em casa. Mas eu estava determinado a encontrar respostas e soluções e, ao mesmo tempo, mostrar ao mundo o meu progresso nas redes sociais."
Essa relação com as redes nasceu junto dos gêmeos Angelo e Nemaya. A intenção de Souleyman era retirar o estigma de pais deficientes visuais e mostrar o quanto ele aprendeu; ele também mirava em pessoas em condições parecidas que, assim como, ele não tinham um modelo nem referências a seguir para aprender.
"Abri essas contas para compartilhar minha jornada individual, mostrando como consigo me virar todos os dias e para, eventualmente, ajudar e inspirar outras pessoas que pensam em embarcar nesse caminho; gostaria que eleas soubessem que não só é possível, mas também podemos executar tudo com muito orgulho e sucesso."
Souleyman conversando com a filha Tallulah, de apenas 2 anos, e explicando sobre seu problema de visão
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Em um dos vídeos postados nas redes Souleyman afirma que descobrir qual é a roupa de cada gêmeo "é a parte mais difícil" até o momento, afinal os dois são bebês e todas as peças são parecidas, tirando a diferença nas cores.
"Tem sido muito divertido, mas essa parte das roupas realmente é a mais difícil. Normalmente pergunto para alguém 'essa roupa é de menino?' ou 'essa roupa é de menina?' e assim vou seguindo. Mas como disse, são desafios que eu tenho gostado bastante de encontrar soluções."
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Para diferenciar quem é quem entre os gêmeos, o ex-atleta aposta nas sensações e sentidos. Souleyman já aprendeu a diferenciar os tons de choro de cada bebê, as testuras dos cabelos e consegue dizer se está com Angelo ou Nemaya no colo pelo peso.
"Angelo é bem mais leve e, infelizmente vou ter que dizer isso, Nemaya é um pouco mais pesada", disse o pai num dos vídeos, com bom humor.
"Acho que a coisa mais importante que aprendi nessa jornada é aceitar quando eu não consigo fazer alguma coisa. E está tudo bem. Pedir por ajuda não é a mesma coisa que ser incapaz. Minha filosofia mais importante é colocar 100% de esforço para realizar as tarefas que consigo para não sobrecarregar o resto da família", disse.
O ex-atleta também reforça que os dias ruins existem, mas não duram pra sempre e a gratidão é sempre maior do que tudo: "A parte mais gratificante da minha jornada como pai é poder ver os sorrisos no rosto da minha jovem família todas as manhãs durante o café da manhã, e sentir gratidão e bênção por perceber que o desejo que fiz há 8 anos finalmente se realizou, bem na hora certa. Gosto sempre de lembrar a todos: o seu potencial é maior do que as barreiras que você vê à sua frente", concluiu.
(*) Estagiário sob supervisão de Fernando Moreira
