Coletivo de corrida de Niterói incentiva mães a correrem com os filhos e recebe integrantes da Baixada Fluminense

 

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Sob o olhar e proteção da estátua do cacique Araribóia, na região central de Niterói, o coletivo de corrida Nikiti Run Club se reuniu mais uma vez para uma "quarta love"— noite de corrida quinzenal que reúne os membros do grupo, sejam estreantes ou experientes.

Qualquer um que passasse pela Avenida Visconde do Rio Branco por volta das oito da noite, em direção à orla da Praia Vermelha, poderia se perguntar "o que é isso?" ao se deparar com um grupo interminável de pessoas correndo juntas animadas já no fim de uma quarta-feira qualquer.

Também poderia haver aqueles que fossem inspirados pelo espírito coletivo e disposição do grupo que, na ponta do pelotão, deixava em posição de destaque algumas mamães que levavam seus filhos e filhas para a rua.

Observadores passageiros notariam, também, que para essas mães, acompanhadas de parceiros e parceiras de caminhada e corrida ou de carrinhos de bebê, o importante mesmo era movimentar o corpo, deixando um passado de dores e frustrações para trás.

Felipe Duarte em sua tradicional fala antes do treino de 29 de abril

Patrick Chaia

Andrea Evaristo, de 40 anos, levou as filhas de dois anos, Maria Alice e Maria Luiza, em carrinhos de bebê para acompanhá-la na corrida. Se não levasse as meninas, a manicure não conseguiria participar da "quarta love".

— Voltei a fazer funcional porque preciso ter físico para acompanhar o ritmo das meninas. O Nikiti Run Club (NRC) também me ajuda nisso — disse Andrea.

Ela conta que conheceu o coletivo através do marido, que corre há dois anos no centro de Niterói.

— Meu marido começou a correr depois que perdeu a mãe dele, há dois anos. Na corrida, ele conseguiu aliviar um pouco a dor e encontrou no NRC uma família que abraçou ele, que ajudou nesse momento difícil. Foi por causa dele que conheci o grupo e, quando consigo ir, levo sempre as meninas — concluiu.

Além do NRC, Andrea ainda tenta adicionar à rotina cansativa pelo menos três dias de academia: "É difícil, mas mãe dá um jeito pra tudo", disse.

Alessandra Elias (esq.) e Andrea Evaristo (dir.) voltaram a praticar atividades físicas por causa do NRC

Patrick Chaia

Acompanhando Andrea, a cunhada Alessandra Elias, de 49 anos, também é mãe e adora correr com a filha Clarisse Duarte, 23, na "quarta love". Na última edição, a filha não esteve presente, mas a mãe conta que se não fosse o incentivo dela não teria começado a se exercitar.

— Corri com o NRC pela segunda vez e só conheci o coletivo por causa da minha filha. Me sinto muito acolhida pelo grupo e tenho tentado conciliar a corrida de rua com minha rotina de trabalho — disse Alessandra, que atua como auxiliar de serviços gerais.

Segundo ela, o grupo de corrida incentiva todas as mães a levarem seus filhos para os encontros, porque muitas não teriam com quem deixar os filhos, impedindo a prática de exercícios recorrente.

— A iniciativa da NRC em incentivar as mães a levarem seus filhos para correr é excelente; muitas não têm rede de apoio e deixam de praticar atividades físicas por esse motivo. Acredito que o exercício traz inúmeros benefícios físicos e mentais, principalmente para mães que, muitas vezes, acumulam uma tripla jornada: trabalho doméstico, trabalho formal e maternidade. Às vezes tudo isso junto é exaustivo, e ter um grupo que te incentiva e te acolhe é importantíssimo — completou.

Lucas Freitas, de 39 anos, é fotógrafo e também atua como voluntário no NRC

Patrick Chaia

Identidade na corrida de rua

— É uma retribuição do Felipe ao mundo pelo que a corrida de rua fez comigo — disse Felipe Duarte, de 39 anos, criador do NRC. Segundo ele o mote principal do grupo é a identificação.

Um pouco antes da pandemia, quando o embrião da corrida de rua surgiu na mente de Felipe após um quadro de depressão e de uma piora considerável na saúde — o ex-produtor de eventos chegou a pesar 50 quilos —, ele começou a frequentar vários grupos, mas não se sentia completamente incluído naquele ambiente.

— Quando você vai correr com um grupo, quer ser abraçado, quer conhecer pessoas com os mesmos anseios que você e tudo mais. Naquela época, todas as assessorias de corrida de rua de Niterói eram muito elitistas. Todo mundo era igual, todo se vestia igual, falava igual e não eram muito receptivos; tudo era muito seco — afirmou.

O organizador do coletivo disse, entusiasmado, que o Nikiti Run Club cumpre esse papel de acolhimento, principalmente para mulheres, pessoas pretas e para população periférica no geral. Ele conta que as ruas de Niterói recebem, a cada 15 dias, moradores de diversos municípios que vêm correr com o NRC.

— A gente recebe gente de Maricá, de Ponta Negra, de Rio Bonito, Macaé, Belford Roxo... No último treino [15 de abril] a gente colocou mais de 600 pessoas na rua pra você ter ideia — comentou.

Lipe Duarte, como Felipe é conhecido no NRC, fundou o coletivo em 2020 depois de um quadro grave de depressão, que fez com que ele pesasse cerca de 50 kg

Reprodução/Instagram

— E boa parte do coletivo é composto por pessoas pretas. Eu costumo dizer que o nosso espaço é um espaço de liberdade, sobretudo para as mulheres, que também representam boa parte do grupo. Isso é uma coisa que gente preza muito aqui. A gente quer fazer um ambiente harmônico para todo mundo. E o mais valioso, eu acho, do Nikiti Run Club é justamente o fato não só de querer correr; as pessoas chegam nos encontros do NRC e falam assim 'cara, eu quero ficar' — completou.

O NRC existe desde 2020 e antes do início de toda "quarta love", Felipe se preocupa em abordar um tema social importante.

— Depois de todo encontro sempre tem alguém que vem me dizer 'Po Felipe, sabe aquele papo lá, nunca tinha pensado naquilo cara'. Por isso acho importante falar sobre todos os temas. É uma coisa para você voltar para casa refletindo e trocar uma ideia com o pessoal do seu trabalho, na sua janta quando voltar para casa — explicou o criador do coletivo.

Antes do dia das mães, Felipe fez o mesmo. Ele reforçou que muitas vezes as mulheres são submetidas a jornadas duplas de trabalho e, por isso, refez o convite para que todas as mães interessadas em fazer exercícios físicos levassem seus filhos para a rua.

— Meninas, tragam seus filhos. Quero ver isso aqui cheio de criança, mas também porque eu sei que sem elas aqui, vocês não estariam aqui. Esse é um espaço de liberdade especialmente pra vocês — reiterou no megafone antes do treino.

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Quem faz acontecer

Felipe deixou claro ao GLOBO que o NRC só é o que é pelas pessoas que fazem o coletivo; isso inclui os voluntários, que ajudam na organização da "quarta love". Vanessa Honório, de 41 anos, resume o coletivo com a palavra "pertencimento".

— Me tornar voluntária do coletivo aconteceu de forma muito natural, porque fui extremamente acolhida desde que cheguei. Não apenas como corredora, mas como pessoa, com minha história, minhas vulnerabilidades e minha trajetória. Dentro do NRC eu conheci pessoas completamente diferentes entre si: mulheres, homens, adolescentes, pessoas com deficiência, mães, pessoas de diferentes realidades sociais. E muitas delas chegaram ali buscando exatamente aquilo que eu também buscava sem saber: pertencimento.

Vanessa Honório (de colete), 41, é voluntária do NRC; ela corre desde 2015 e conheceu o grupo em 2022

Divulgação/ClickCarmo

Pra ela, atuar como voluntária é uma espécie de retribuição ao que o coletivo fez por ela — hoje eu sinto vontade de multiplicar tudo aquilo que recebi quando entrei. O Felipe [Duarte] sempre fala muito sobre ser multiplicador, e isso conversa profundamente comigo. Não no sentido de obrigação, mas de desejo mesmo. Desejo de fazer outras pessoas se sentirem acolhidas da maneira como eu fui — comenta.

— E é isso que o NRC representa pra mim no fim das contas: acolhimento, pertencimento, representatividade e afeto. É um coletivo que transforma vidas às vezes de forma silenciosa e outras de forma barulhenta, mas sempre de forma muito profunda. Tenho muito orgulho de fazer parte desse movimento e muita gratidão por tudo o que vivi e construí dentro desse espaço — finalizou.

Próximo encontro

O coletivo se reúne novamente nesta quarta-feira (13), às 19h30, com direito a baile charme no fim do treino. A "quarta love" é o encontro quinzenal do grupo, que também realiza um treino especial uma vez a cada dois meses, sempre aos domingos, explorando diferentes distâncias e outras partes da cidade sorriso.