Após troca de alfinetadas e disputas pelo apoio da direita bolsonarista durante a campanha, o governador eleito em Minas Gerais, Cleitinho Azevedo (Republicanos), e o atual ocupante do Executivo estadual, Mateus Simões (PSD), travam um embate na transição de poder. A crise entre os dois escalou depois de o senador pedir que o sucessor de Romeu Zema (Novo) não faça qualquer "sacanagem" contra sua futura administração e voltou a questionar, do Senado, as contas públicas do estado, cuja previsão de déficit para 2026 chegava a R$ 5 bilhões em setembro. O atual governante defendeu sua gestão e acusou o eleito de "jogar para a plateia" com as declarações críticas. 'Fora da Bolha': Lula foi bem ou mal na Globo? 6x1 e esquerda nas ruas ameaçam o favoritismo de Flávio? ‘Flaviômetro’: aliados compartilham site que monitora lealdade digital de parlamentares bolsonaristas Em pronunciamento na Casa legislativa, nesta quinta-feira, Cleitinho cobrou transparência do antecessor, que ficou em quarto lugar nas eleições deste ano, com apenas 4,65% dos votos válidos. — Qualquer coisa que você for fazer achando que vai me prejudicar, você não vai me prejudicar, vai prejudicar a população mineira — afirmou o senador. O governador eleito chegou a passar mal depois de discursar aos colegas. "Ao passar por avaliação, o parlamentar foi diagnosticado com pico de pressão arterial e frequência cardíaca um pouco elevada", disse a equipe médica. Ele precisou cancelar sua participação em um comício realizado à noite no município de Capelinha (MG), onde acompanharia o presidenciável Flávio Bolsonaro (PL). No discurso, Cleitinho disse que pode faltar recurso já no começo de 2027, anunciou auditorias e revisão de contratos em órgãos e empresas estaduais e citou suspeitas de corrupção no departamento de estradas. O primeiro ponto de atrito entre eles, contudo, foi o pagamento de servidores. Cleitinho cobrou de Simões garantias das quitações, e o governante anunciou os depósitos dos salários de dezembro até 6 de janeiro, data da posse dos eleitos, e a remessa do décimo terceiro toda em 2026. O político do PSD criticou o ex-concorrente por "jogar para a plateia" ao questionar as contas públicas e chegou a propor reuniões públicas e televisionadas. Em resposta a manifestações do governador eleito, a gestão Simões disse que as obras e as empresas estaduais passam por auditorias dos órgãos competentes, cujos dados estão à disposição das autoridades. Além disso, afirmou que a transição tem sido conduzida conforme as exigências legais e anunciou a transmissão de reuniões sobre ela pela internet e pela Rede Minas. O governo mineiro ainda defendeu medidas adotadas para conter despesas e ampliar as receitas, citando a queda no custo de pessoal de de 66,65% da Receita Corrente Líquida, em 2018, para 48,80% no relatório fiscal mais recente. Frisou, ainda, que o déficit do orçamento previsto é uma estimativa. Desde que foi eleito em primeiro turno, com 55,4% dos votos válidos, Cleitinho passou a vincular às gestões passadas a responsabilidade por eventuais restrições futuras de caixa em meio a temores de que não conseguiria arcar com alguns compromissos de campanha, como a redução do IPVA e a ampliação de repasses a municípios. Simões reagiu, defendeu o trabalho de gestão realizado desde 2019 e entregou a responsabilidade por ajustes futuros ao governador eleito. O tema central a pautar a eleição para o governo de Minas Gerais foi a dívida do estado com a União, que gerou divergências de opiniões entre os candidatos ao Palácio da Liberdade. Os postulantes se dividiram entre críticas aos termos acordados pelo ex-governador Zema para a adesão ao Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados (Propag) e propostas de novos acordos a serem discutidos com o governo federal. Não entraram, contudo, em detalhes sobre possíveis soluções. Um relatório enviado pela Secretaria de Estado da Fazenda em fevereiro para o Tesouro Nacional apontou que Minas começou 2026 em débito de R$ 187 bilhões com a União. O diagnóstico veio dois meses após a adesão do estado ao Propag, em dezembro, em um acordo que previu o abatimento de 20% do saldo devedor e o parcelamento do restante em até 30 anos, com correção pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), índice oficial de inflação do país, e juros zerados. Antes da adesão ao Propag, o estado também foi favorecido por sucessivas decisões liminares do Supremo Tribunal Federal (STF) que o autorizaram a suspender o pagamento de R$ 34,3 bilhões por 21 meses, período que se estendeu entre dezembro de 2022 e o início de 2026. Em março deste ano, o ministro Kássio Nunes Marques autorizou a interrupção dos pagamentos por 180 dias para facilitar a recente adesão ao programa de renegociação. Apesar disso, Minas começou o ano com a disponibilidade de caixa líquida — parâmetro que mede o dinheiro disponível após os descontos obrigatórios — negativa em mais de R$ 11 bilhões, tornando o estado o de pior situação fiscal do país.
Cleitinho pede que governador de MG não faça 'sacanagem' e questiona contas públicas em transição; Simões rebate
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