“Cinema é cachoeira.” A frase de Humberto Mauro (1897-1983), mineiro de Volta Grande consolidado em Cataguases e considerado um dos pais do cinema brasileiro, autor de obras clássicas como “Ganga bruta” (1933) e “A velha a fiar” (1964), ganhou múltiplas interpretações ao longo das décadas.
Muitos teóricos do cinema veem a cachoeira como metáfora perfeita, afinal o que seria a sétima arte se não um fluxo contínuo de ideias e imagens. Mas diz a lenda que a frase foi uma resposta quase automática do realizador para uma pergunta sobre o que o cinema significava para ele.
Ao viajar pelo interior, ele muitas vezes encontrava autoridades e proprietários rurais que falavam: “Você precisa ir filmar na minha fazenda, tem uma cachoeira linda”. Sem entender a insistência das pessoas para que filmasse cachoeiras, ele acabou associando esta imagem ao cinema como um todo.
Décadas depois, muitas histórias seguem fluindo pelas águas de Minas Gerais e escoando pelo Brasil e pelo mundo. 'Vicentina pede desculpas': novo filme de Gabriel Martins acompanha mãe que busca perdão após tragédia; leia a crítica
Aposta do Brasil para o Oscar, 'Feito pipa' chega aos cinemas: 'Histórias que precisamos contar', diz Lázaro Ramos O ano de 2026 tem sido de muito destaque para o cinema mineiro.
Produções realizadas no estado conquistaram o Kikito de melhor filme do Festival de Gramado (“Nosso segredo”, de Grace Passô) e o Candango de melhor filme do Festival de Brasília (“Se eu fosse vivo... vivia”, de André Novais Oliveira).
Outras duas produções deixaram o Festival do Rio com múltiplos prêmios, “Vicentina pede desculpas”, de Gabriel Martins (melhor filme pelo júri popular, melhor direção e melhor roteiro), e “A professora de francês”, de Ricardo Alves Jr. (melhor atriz, melhor ator coadjuvante e melhor trilha sonora).
No momento, dois deles — além do premiado “Vicentina pede desculpas”, a animação “Ana, en passant”, de Fernanda Salgado— estão em cartaz nos cinemas pelo país. Rejane Faria em "Vicentina pede desculpas", de Gabriel Martins
Divulgação / Denize dos Santos / Netflix — Nós, mineiros, somos contadores de histórias por natureza.
Vivemos em um estado com uma geografia muito rica e diversa, com matas, cachoeiras, sertões, cidades coloniais que são verdadeiras cenografias a céu aberto e grandes cidades, como Belo Horizonte e outras — diz Helvécio Ratton, mineiro de Divinópolis, de 77 anos. — Minas tem cenários para qualquer tipo de filme.
Além de ótimos atores e muitas, muitas histórias pra contar. É um conjunto de qualidades que gera em Minas uma forte vocação cinematográfica.
Arranjos regionais Conhecido pelo trabalho em longas como “O Menino Maluquinho, o filme” (1995), Ratton lembra que por muito tempo os cineastas mineiros precisavam se mudar para o Rio ou para São Paulo para conseguir trabalhar, o que se transformou nos últimos anos.
O cineasta lança seu mais novo filme, “Só não posso dizer o nome”, rodado em BH, nos cinemas na próxima quinta-feira. O produtor e diretor Ricardo Alves Jr., que construiu sua trajetória na capital mineira, onde nasceu, atribui a nova realidade a políticas públicas federais.
Lara Martinelli em cena de "Só não posso dizer o nome", Helvécio Ratton Divulgação / Gustavo Baxter
— Penso que este momento do cinema mineiro é resultado efetivamente de uma política pública pensada na descentralização e nos arranjos regionais, com a contemplação de produções que ultrapassam as fronteiras de Rio e São Paulo — acredita Alves Jr., de 44 anos. Apesar de valorizar o momento, o produtor Thiago Macêdo Correia, fundador da produtora Filmes de Plástico, lamenta que as políticas públicas nem sempre tenham continuidade e dependam de quem está no governo.
Ele aponta que isso faz com que alguns projetos demorem muitos anos para serem desenvolvidos, como foram os casos de “Vicentina pede desculpas” e “A professora de francês”, pensados há cerca de dez anos. — Costumo dizer que existe o cinema feito em Minas, mas tenho dificuldade em dizer que exista um cinema mineiro, porque ainda lidamos muito com a falta de apoio, especialmente na esfera estadual.
Diferentemente de Pernambuco, em Minas não temos uma continuidade de investimentos locais. Foram oito anos de governo Zema sem apoio ao audiovisual.
Esperamos que isso mude com o novo governador (Cleitinho Azevedo toma posse em janeiro) — diz Macêdo Correia, de 42 anos, natural de Teófilo Otoni. Efraim Santos em cena de "Nosso segredo", de Grace Passô
Divulgação Para o crítico de cinema Pablo Villaça, de 52 anos, as dificuldades de se produzir cinema no estado acabam resultando em uma das características que marcam este novo audiovisual local: a natureza colaborativa.
Além de dirigir “A professora de francês”, Alves Jr. é produtor de “Nosso segredo”, que é dirigido e roteirizado por Grace Passô.
Ela, por sinal, é protagonista de “A professora de francês” e está no elenco de “Vicentina pede desculpas”. Já Gabriel Martins dirige “Vicentina”, produz “Se eu fosse vivo...
vivia”, monta “Nosso segredo” e integra o elenco de vozes da animação mineira “O filho da puta”, de Erica Maradona, Tania Anaya, Otto Guerra e Sávio Leite. — Ainda que hoje não tenhamos uma produção tão centralizada em Rio e São Paulo, ainda é difícil para o cinema mineiro se estabelecer.
Então, vimos se desenvolver esse espírito colaborativo entre os realizadores que considero uma coisa muito mineira. Existe um senso de comunidade, que acaba sendo um mecanismo de sobrevivência — aponta o crítico belohorizontino.
— Penso que isso enriquece muito as obras, que acabam conversando umas com as outras, mesmo que sejam filmes completamente diferentes do ponto de vista de linguagem e essência. Conceição Evaristo e Norberto Novais Oliveira em "Se eu fosse vivo...
vivia", de André Novais Oliveira Divulgação / Janine Moraes
Sem ‘estética da fome’ Produtor de “Se eu fosse vivo...
vivia”, “Vicentina pede desculpas” e “A professora de francês”, Macêdo Correia também reforça o “espírito de comunidade” da cena de cinema local, em que todos frequentam as casas uns dos outros. Ele valoriza ainda o caráter cada vez mais diverso no cinema feito no estado.
— Essa nossa geração começou a fazer narrativas em resposta ao fato de que não nos sentíamos representados, principalmente nessa dinâmica das populações marginalizadas. A concepção da “estética da fome” não nos interessava.
Olhávamos para aquele cinema de favela dos anos 2000, somado a alguns filmes nordestinos, e sentíamos que não falávamos a mesma língua — explica o produtor. — Queremos fazer filmes sobre as pessoas que vemos quando abrimos as portas de nossas casas.
Ao lado de colegas atrizes como Rejane Faria, Bárbara Colen e Débora Falabella, Grace Passô é um dos principais expoentes da atuação no estado. Ela também destaca o sentimento de união na cena local.
— Acho que unimos forças para realizar nossas criações. Aprendemos uns com os outros e já sabemos que nossas identidades mais genuínas são o que nos levam longe — diz a atriz de 46 anos.
Retorno à interioridade A força do cinema de Minas Gerais se viu refletida em votação do GLOBO que reuniu mais de 100 profissionais do audiovisual nacional para a escolha dos 50 melhores filmes brasileiros do século XXI.
O ranking, publicado em 2025, contou com quatro longas do estado: “Marte um” (2022), de Gabriel Martins, “Arábia” (2017), de João Dumans e Affonso Uchoa, “Temporada” (2018) e “Ela volta na quinta” (2014), ambos de André Novais Oliveira. Nos próximos meses, vários filmes “made in Minas” chegarão às salas de cinema, com destaque para obras como o documentário “Retratos da várzea”, de Lucas Campolina, “Disciplina”, de Uchôa, e “A noite e os dias de Miguel Burnier”, de Dumans, além dos já citados “Se eu fosse vivo...
vivia”, “A professora de francês” e “O filho da puta”, todos com passagens de destaque por festivais de cinema. — É um momento em que culminam filmes inovadores em linguagem, com narrativas que reescrevem, repensam e recriam significados para o que pode ser uma família mineira, os nossos quintais ou a poética em que se vive nesse estado.
Chamo atenção também para atuantes, atrizes e atores que estamos vendo nesses filmes, corpos mais humanos, eu diria, em meio à eterna padronização do corpo de quem atua — diz a atriz e diretora Grace Passô. Grace Passô em cena de "A professora de francês"
Divulgação / Vasco Viana Se no passado o cinema mineiro esteve muito ligado ao cenário rural, especialmente no “Ciclo de Cataguases”, quando a cidadezinha de Humberto Mauro se tornou a Hollywood brasileira na segunda metade dos anos 1920, hoje o audiovisual do estado reflete com frequência sobre o cenário urbano e periférico.
O crítico Pablo Villaça, no entanto, ressalta que o cinema de Minas não perdeu sua essência ao migrar para o universo urbano. — O cinema mineiro não pode ser visto como uma coisa uniforme, mas acho que existem certas características, até geográficas, que levam a cena local a encontrar um caminho muito próprio.
Mesmo quando se pensa em Belo Horizonte, você tem sempre as montanhas ao fundo. Penso que isso, de certa maneira, acaba ressaltando esteticamente nos filmes um retorno à interioridade — defende Villaça.
— Não por acaso, vemos muitos desses filmes com um tom suave, intimista e familiar, sem tratar as histórias de maneira espetacularizada. É uma forma bem mineira.
O Globo