No dia 15 de março de 1963, fazia um calor intenso em Bangu. Nesta data, o bairro da Zona Oeste ganhava o então moderno Cine Matilde, instalado na galeria de mesmo nome na Avenida Ministro Ary Franco. O espaço tinha 1.360 poltronas estofadas, tela oval, pensada para garantir boa visibilidade de diferentes pontos da plateia e um potente sistema de refrigeração central. O idealizador do cinema, o comerciante Antônio Gama da Silva, que batizou o espaço com o nome de sua mulher, só não esperava que a rede elétrica da via não estivesse preparada para tal modernidade.
Invasão no Centro do Rio: Prefeitura faz operação para desocupar Palacete Imperial, prédio histórico no Centro interditado há 18 anos Tesoureira do tráfico: Mulher ligada a Fernandinho Beira-Mar é presa por suspeita de ser contadora do traficante — Como não dava vazão, o jeito foi usar ventiladores e entupir os tubos de ventilação com gelo para ajudar a refrigerar a sala. Depois foi necessário pedir aumento da carga elétrica da rua — conta Leonardo Gama, relembrando a história repassada pelo avô, fundador do cinema.
O Matilde, que marcou época na Zona Oeste e está desativado desde os anos 1990, será revitalizado e transformado em um novo equipamento cultural, de acordo com decreto de desapropriação do prefeito Eduardo Cavaliere, publicado na terça-feira. A intenção do município é transformar o espaço em um equipamento cultural multifuncional, com sala de teatro para 250 pessoas, duas salas de cinema, área para exposições e espaço de convivência com bar e restaurante no rooftop. Salto de carro em movimento: Suspeito de tentar sequestrar adolescente do Engenho Novo é preso pela Polícia Civil A desapropriação do cinema integra um pacote de medidas, que declara como utilidade pública sete lotes na Rua Silva Cardoso, na Praça da Fé e na Avenida Cônego de Vasconcelos para a implantação do Centro Cultural e Parque Urbano Casa do Silveirinha. Durante o período de seu funcionamento, o Matilde foi um importante ponto de encontro de famílias, jovens e trabalhadores de Bangu e chegou a ser considerado, um dos cinemas mais modernos do Rio. Leonardo lembra que o avô era um sonhador e pensou numa obra de grande porte. Em vez de construir o cinema no primeiro pavimento, preferiu reservar esse espaços para futuras lojas e instalar a sala no pavimento superior. O custo do empreendimento acabou ficando mais alto do que ele imaginava e, com isso, pouco tempo depois teve de repassar o Cine Matilde para a rede Bruni, que depois o vendeu a outros compradores. Caso Refit: Contaminação de terreno na Av. Brasil cercado de favelas pode dificultar uso do espaço, no centro de um escândalo político Ainda menino, Leonardo, que está com 48 anos, era levado por uma tia, em companhia de primos, para assistir as sessões de filmes dos "Trabalhões" Didi, Dedé, Mussum e Zacarias. Na memória do advogado e comerciante Rafael Esteves, também está guardada as exibições do mesmo quarteto em suas idas ao cinema do bairro. Ele chegou a criar um movimento, com outras pessoas ligadas à cultura na região, para reivindicar a revitalização do espaço. —Bangu, na década de 60, tinha muitas famílias tradicionais. Na época, os grande encontros no bairro se davam no cinema, na igreja ou no clube. É preciso reviver isso — diz Rafael, que sonha com um centro de memórias, para ajudar a preservar a história local.
O Globo