Marília Mendonça está sentada numa cadeira de plástico, no meio de um posto de gasolina, em Goiânia. A moça de rosto comum — cabelo alisado com chapinha, chinelo nos pés, copo de cerveja apoiado no chão— abastece desconhecidos com sucessos sertanejos ao violão. Quem estava de passagem desiste de seguir adiante. A cantoria se estende pela noite, e a lataria dos carros serve de encosto para mais e mais gente. A cena é um flash no primeiro episódio da série documental “Marília Mendonça: sentimento louco”. A aparente banalidade, porém, guarda algo do segredo por trás daquela voz. Ou não. Há meio século: 'Escrava Isaura', 'Anjo mau', 'Saramandaia' e mais — por que 1976 mudou as telenovelas no Brasil? Relações abertas, ciúme e regras: Séries, livros e filmes exploram complexa matemática da não monogamia Afinal, que matemática é capaz de dar conta do eco permanente projetado da garganta de Marília Mendonça? A produção inédita que chega nesta sexta-feira (16) ao Prime Video busca (e encontra) algumas respostas. Mas há mistérios que resistem a qualquer narrativa ou lógica. E, aí, não tem jeito: por mais que escarafunchem a biografia e a obra da goiana — que morreu aos 26 anos, em novembro de 2021, num acidente com um avião bimotor — , não haverá termo mais adequado para defini-la do que “fenômeno”. Nesse caso, até o clichê recupera sua força. Nos bastidores Tanto é que, cinco anos após a partida da cantora, lançamentos de músicas inéditas continuam a movimentar o mercado fonográfico. A obra, a rigor, segue vivíssima. “Tudo vai ficar bem”, que chegou às plataformas de áudio em julho, é o exemplo mais recente: a composição foi pinçada de um arquivo de áudio no celular de Marília e retrabalhada num novo arranjo. Hoje, a canção já acumula quase 900 mil visualizações no YouTube. E há mais novidades à vista, já que a cantora deixou um sem-número de letras, anotações e gravações caseiras, tanto em documentos digitais quanto em caderninhos que ela sempre levava na bolsa.
Galerias Relacionadas Susanna Lira, a cineasta responsável pela direção da série, meteu as mãos nesse manancial. A produção de quatro capítulos, todos disponibilizados nesta sexta-feira (16), traz entrevistas com quem conviveu de perto com Marília. Estão lá depoimentos de amigos, familiares, produtores e colegas famosos, como Zezé Di Camargo, Paula Fernandes, o ex-namorado Murilo Huff e as irmãs Maiara e Maraisa. O que mais chama a atenção, porém, é o tal conteúdo que residia no telefone da artista. A diretora teve acesso a 530 mil arquivos, entre os quais 50 mil vídeos e centenas de notas, mensagens e áudios. Os fragmentos compõem uma constelação de miudezas que iluminam a mulher por trás da figura pública. — Tinha certeza de que estava diante de um tesouro enorme — ressalta Susanna. — Minha vontade era mostrar o outro lado de Marília, sabe? O lado que não estava nos palcos. E, quando vi esse material, falei: “Cara, isso fala muito mais do que qualquer entrevista.” Daria para fazer 20 episódios. Cinebiografia a caminho Ruth Moreira, a mãe de Marília, é a pessoa que melhor conhece os retalhos íntimos deixados pela artista. Com certa frequência, ela toma um dos caderninhos da filha e, entre rasuras e rasgos, surpreende-se com alguma frase (ou com poemas inteiros).
Dona Ruth, mãe de Marília Mendonça Reprodução/Instagram Ao GLOBO, Dona Ruth, como gosta de ser chamada, define a obsessão da artista pela escrita como uma “necessidade do coração dela”. Havia uma espécie de urgência no hábito, como sugere: — Desde novinha, ela via uma situação da vida de alguém, um sofrimento ou uma alegria de um amigo, e aquilo virava música em questão de minutos — repassa. — Deus deu para ela um dom muito raro, uma sensibilidade de enxergar a alma das pessoas e transformar em verso o que o povo nem sabia como dizer. Isso nunca vai deixar de me impressionar. Até hoje abro um caderno antigo ou escuto um áudio no celular e me pego chorando de emoção.
O raro acervo pessoal embasa, além da série documental, uma cinebiografia inédita com previsão de estreia em 2027 (e também com produção do Prime Video). Ambas as narrativas traçam um retrato cronológico da menina de origem pobre — que viu a mãe vender até o guarda-roupa para alimentar a família — alçada de repente ao posto de Rainha da Sofrência, como passou a ser batizada pelos fãs. Não custa resgatar alguns números batidos: Marília é a artista mais ouvida da última década no país, segundo o Spotify; no YouTube, consagra-se como a primeira pessoa a ultrapassar a marca de dez bilhões de visualizações. E os números, pasmem, não estacionam. — Ela deixou um acervo realmente enorme de músicas. Há coisa nova para os próximos dez ou 20 anos... — adianta Susanna. — A morte marcou o fim da presença física. Mas a arte continuará sempre. E esta era uma preocupação na série: mostrar o quanto Marília ainda ficará com a gente.
'Não existe fórmula' Num dos tantos vídeos instantâneos garimpados de aparelhos telefônicos, Marília Mendonça aparece fazendo troça com livros de autoajuda. A cantora cita títulos como “Enriqueça feliz” e “Como se tornar uma boa esposa”antes de disparar o seguinte: “Não existe fórmula na vida da gente, não. Todo mundo tem que se foder para aprender as coisas”. A tirada traz à tona a grande matéria-prima nas obras da artista.
Cena da série documental "Marília Mendonça: sentimento louco", que esmiúça a vida e a carreira da cantora. Nesta imagem, a artista aparece ao lado do filho, o pequeno Léo Divulgação Num universo musical predominantemente masculino, Marília se notabilizou ao vocalizar as contradições vividas por mulheres traídas, abandonadas, arrependidas. Ela entendia, muito bem, obrigado, do riscado. Perdeu o pai na infância, conheceu de perto as dificuldades financeiras da família e testemunhou os conflitos conjugais da mãe, traída pelo padrasto. Nas composições, porém, as histórias particulares ganhavam contornos coletivos. Era como se a artista autorizasse o público, sobretudo as plateias femininas, de que, sim, o sofrimento amoroso — tantas vezes tratado como fraqueza ou motivo de vergonha — poderia ser entoado em voz alta, sem pudores. — Acho que Marília tinha uma relação com a própria verdade que era inegociável. Ela cantava e escrevia com uma visceralidade muito grande — opina Susanna Lira. — Marília dizia as coisas sem filtro, jogava na cara... E as pessoas tinham empatia com isso. A própria verdade dela foi levando-a para o sucesso. Altos e baixos da profissão Embora meteórica à primeira vista, a carreira foi traçada com obstinação, como expõe a série, em detalhes. Além de escrever sem parar — parte dos rascunhos de composições, entre outras preciosidades pessoais, pode ser vista numa exposição no Museu da Imagem e do Som de São Paulo, em cartaz até 29 de novembro —, Marília cantava onde houvesse oportunidade. No principio, o único desejo era ouvir outras pessoas cantando suas músicas.
Galerias Relacionadas Ironicamente, foi naquela apresentação improvisada num posto de gasolina que a cantora conheceu a amiga Núbia. A personagem é importante — e, não à toa, terá um papel de destaque na cinebiografia dirigida por Dainara Toffoli prevista para 2027 e já inteiramente rodada (com Marina Versos no papel principal e nomes como Klara Castanho, Hermila Guedes e Marcelo Serrado no elenco). Maior incentivadora da carreira de Marília, Núbia não só deu um jeito de pôr a amiga para cantar em bares e restaurantes (às vezes, em troca de um prato de almoço), mas também a incentivou a publicar vídeos na internet. E eis que, num lance aparentemente repentino, a mulher se transformou em célebre substantivo próprio no país.
Mas nem tudo foram flores. A série, que estreia hoje no streaming, não foge dos dissabores de uma fama que, a certa altura, adquiriu gosto amargo. “É aquela coisa de imaginar um caminho, trilhá-lo, e, depois de passá-lo, não saber mais aonde se está, o que se quer fazer, onde quer chegar”, diz Marília, numa das passagens. A rotina profissional era implacável: uma média de 22 shows por mês, entre viagens, noites maldormidas, refeições fora de hora e excesso de fast-food e bebidas alcoólicas.
Mesmo no período cinzento, a relação com os fãs era estreita. Marília mantinha grupos de WhatsApp com admiradores e dividia confidências — não raro, eles sabiam de suas desventuras amorosas antes mesmo dos namorados. O vínculo permanece vivo. Dona Ruth diz recebe mensagens diárias: — Os fãs de Marília não são apenas fãs, viraram parte da nossa família — comove-se. — O que mais me toca é quando chegam mães me abraçando na rua ou mandam cartas dizendo que uma música dela deu coragem para recomeçar a vida.
O Globo