Cientista brasileira desenvolve nova terapia celular para tratamento de linfoma

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Linfoma da célula B, que tem maior incidência em idosos Oscar Gutierrez via Getty Images Um novo tratamento capaz de trazer alívio para pacientes que sofrem de linfoma de células B (responsáveis pela produção de anticorpos), mas não conseguem se beneficiar das terapias já existentes. Essa é a proposta da cientista Virginia Picanço de Castro, que coordena estudo dentro do Laboratório de Biotecnologia do Hemocentro de Ribeirão Preto, ligado à Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. “Hoje já existe uma terapia celular voltada para esse tipo de câncer: a CAR-T, que modifica geneticamente os glóbulos brancos do próprio paciente para reconhecer e destruir células tumorais. E ela vem trazendo resultados muito bons, mas não para todos”, diz Virginia. Há alguns problemas com esse tratamento, afirma a cientista. O primeiro é que muitos pacientes estão com o organismo bastante comprometido. “Eles já passaram por várias rodadas de quimio, além de outros tratamentos, e não contam com células saudáveis para serem modificadas”, afirma Virginia. Além disso, todo o processo é extremamente caro. “Somente a infusão com as células modificadas custa cerca de R$ 3 milhões.” A solução proposta pela especialista é usar células que não são do paciente, e sim de um doador saudável. Ao serem modificadas, elas se transformam em células CAR-NK, linfócitos alterados geneticamente em laboratório para reconhecer e destruir células cancerígenas com alta precisão, ignorando os tecidos saudáveis. A cientista Virginia Picanço, que pesquisa nova terapia celular contra o linfoma Divulgação Outra dificuldade do tratamento CAR-T é que, para alguns pacientes, ele tem resultados apenas parciais. “Eles melhoram por um tempo e depois a doença volta, porque as células CAR-T deixam de ser ativas.” Segundo a cientista, elas são bloqueadas pelo próprio organismo do paciente. Na nova proposta, as células CAR-NK recebem uma outra molécula, uma proteína chamada GITRL, que reduz a intensidade das respostas do sistema imunológico. “Por causa dessa inovação, o tratamento se torna mais eficiente e duradouro”, diz. Até agora, os resultados dos testes em animais têm sido bastante promissores: houve um aumento da sobrevida dos que foram tratados com as células CAR-NK e um maior controle da progressão do crescimento do tumor. Os detalhes foram publicados na revista Frontiers in Immunology. O trabalho recebeu apoio da Fapesp por meio de seis projetos. “No estudo, percebemos que a modificação das células NK com CAR e GITRL produziu células que se multiplicavam mais rapidamente e que também apresentavam um perfil de metabolismo mais ativo. Esse tipo de comportamento é algo que pode ser positivo para a nova terapia”, afirmou a pesquisadora Dayane Schmidt, uma das autoras do estudo, em depoimento gravado para a TV Hemocentro RP. Resultados de longo prazo Ainda vai levar um bom tempo para que sejam realizados testes com seres humanos, diz Virgínia. “O projeto publicado hoje começou como uma tese de doutorado de uma aluna minha, de 2015. Foram quatro anos de estudos financiados pela Fapesp”, conta.

Mais de dez anos depois, a equipe entra agora no que a cientista chama de “segundo ano da fase de transição” para seres humanos. Até que os testes clínicos sejam aprovados pela Anvisa, há várias adaptações a fazer e diversas etapas a cumprir – o que inclui a compra de novos equipamentos. “Sempre soubemos que seria uma longa jornada, mas durante esse tempo nós fomos acumulando conhecimento. Hoje temos uma equipe muito mais treinada e experiente. Com isso, o desenvolvimento tem sido mais rápido.” Desde 2020, o Hemocentro tem uma parceria com o Instituto Butantan, o que também agilizou os processos, segundo ela. Virginia acredita que os estudos atuais vão produzir novos tratamentos, capazes de melhorar a vida de quem sofre com as opções disponíveis. Ela lembra ainda que as células CAR-NK são como uma plataforma, na qual novos tratamentos poderão ser testados e acrescentados com o tempo. “A ideia é sempre ir evoluindo, mesmo porque o câncer também evolui. Nunca vamos ter algo único para curar todo mundo. Mas podemos ganhar velocidade no processo de adaptar as tecnologias.” Na América Latina, diz a cientista, o Brasil é o mais adiantado nesse tipo de tratamento contra o câncer. "É um país que tem regulação sólida, e onde existem vários grupos trabalhando com terapias celulares. Temos todas as condições de participar dessa nova fase. Não vamos ficar para trás.”

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