Cidades bem avaliadas em saneamento têm relatos de falta de água em SP

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Fonte da notícia: O Dia O Dia

Em um ranking que mede o avanço dos municípios brasileiros em direção à universalização do saneamento, Jaú e Votorantim, no interior de São Paulo, aparecem nas posições 53ª e 60ª, respectivamente, entre 298 cidades de grande porte. Já Araçoiaba da Serra ocupa a 524ª colocação entre 1.694 municípios de pequeno porte.Desde a primeira edição, o Ranking ABES da Universalização do Saneamento classifica os municípios em quatro categorias, de acordo com a pontuação final obtida: “Rumo à Universalização”, para notas acima de 489; “Compromisso com a Universalização”, entre 450 e 489; “Empenho para a Universalização”, de 200 a 449,99; e “Primeiros Passos para a Universalização”, abaixo de 200 pontos.

As faixas indicam diferentes estágios de avanço em direção à universalização dos serviços.Jaú e Votorantim foram classificados na categoria “Compromisso com a Universalização”, com notas de 475,75 e 470,47, respectivamente. Araçoiaba da Serra ficou na faixa de “Empenho para a Universalização”, com 365,26 pontos.Na edição de 2026, o ranking reúne 2.558 municípios, o equivalente a 45,92% das cidades brasileiras e a aproximadamente 80% da população do país.A avaliação considera os principais componentes do saneamento básico: abastecimento de água, coleta e tratamento de esgoto, além da coleta e da disposição final adequada de resíduos sólidos.Apesar da pontuação e da classificação no ranking, as três cidades apresentam relatos de problemas relacionados ao abastecimento de água.

Moradores de Jaú, Votorantim e Araçoiaba da Serra relatam interrupções no fornecimento e, em alguns casos, água com barro ou alteração na aparência ao chegar nas torneiras.Saneamento também é saúde públicaO acesso ao saneamento também tem impacto direto sobre a saúde da população.

Por isso, o ranking analisa as internações provocadas por Doenças Relacionadas ao Saneamento Ambiental Inadequado (DRSAI).O indicador considera doenças de transmissão feco-oral, como diarreias, hepatite A, cólera e febre tifoide, que podem estar associadas a condições inadequadas de abastecimento de água, esgotamento sanitário e manejo de resíduos sólidos.Segundo o levantamento, a tendência observada é de que, quanto mais distante da universalização, maior seja a taxa de internações por essas doenças.

A média entre os municípios classificados na categoria “Primeiros Passos para a Universalização” foi de 65,6 internações.Apesar disso, Jaú registrou uma taxa de 68,45 internações, mesmo estando na categoria “Compromisso com a Universalização”. Em Votorantim, foram registradas 3,76 internações.

Para Araçoiaba da Serra, a tabela do levantamento não apresenta valor para esse indicador.A pesquisa ressalta a relação entre os investimentos em saneamento e a saúde pública. “Esses dados evidenciam que o investimento em saneamento não é apenas uma obrigação legal ou regulatória, mas uma das intervenções de saúde pública com maior retorno social para a população.”ConcessionáriasOs serviços de abastecimento de água nas três cidades são prestados pelas concessionárias Águas de Jahu, Águas de Votorantim e Águas de Araçoiaba da Serra.As empresas responsáveis pelo abastecimento de Jaú e Votorantim pertencem ao Grupo Águas do Brasil, fundado em 1998.

O grupo atua no setor de saneamento e está presente em 32 municípios dos estados do Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo.Já a Águas de Araçoiaba da Serra foi controlada pelo Grupo Águas do Brasil desde o início da concessão, em 2009, até 2024, quando foi vendida à Terracom. Atualmente, a concessionária integra o Grupo Diniz.Águas de JahuA Águas de Jahu assumiu os serviços de abastecimento de água e esgotamento sanitário de Jaú, no interior de São Paulo, em 13 de abril de 2015.A cidade conta com duas Estações de Tratamento de Água (ETAs).

A ETA I é operada pela Águas de Jahu, responsável por tratar e distribuir água para a população. Já a ETA II pertence à empresa Águas de Mandaguahy, que produz a água comprada pela concessionária e distribuída aos moradores, conforme previsto no contrato com a Prefeitura de Jaú.De acordo com a Águas de Jahu, a estação operada pela empresa trata cerca de 19 milhões de litros de água por dia.No entanto, um levantamento realizado pela reportagem identificou reclamações de consumidores sobre a qualidade da água fornecida.

Em um vídeo publicado em uma rede social, um morador mostra a água saindo da torneira de casa com coloração marrom.Em outro registro, outro consumidor mostra a água saindo do chuveiro com a mesma coloração.Em entrevista ao DIA, a consumidora Aguida Elizeu, de 45 anos, técnica de enfermagem, relatou que, em um fim de semana, a água ficou turva durante quase todo o dia.

Em outro, o abastecimento foi interrompido sem aviso prévio.“Uma semana após a água vir dessa cor, ficamos o dia inteiro sem água. Só chegou no domingo, com a vazão bem fraca.

Quando o abastecimento foi retomado, a máquina de lavar estava ligada, mas, como não havia pressão suficiente, ela não encheu e acabou queimando. Tive que trocar a placa.”Nos últimos 12 meses, a empresa recebeu 43 reclamações em um site de queixas de consumidores.

Desse total, 55% estão relacionadas a cobranças indevidas, 16% à qualidade do serviço e 9% a divergências nos valores cobrados.Carol Souza também reclama da coloração marrom da água e dos valores cobrados pela concessionária. Segundo ela, as contas podem chegar a R$ 700 por mês.“Vem em casa R$ 300 de água e R$ 300 de esgoto.

Tem mês que vem até R$ 700. E a água vem praticamente o mês inteiro cheia de terra.”De acordo com Carol, o problema é antigo, e as tentativas de buscar uma solução junto à concessionária não tiveram resultado.“Isso acontece desde que me entendo por gente pagando.

Minha mãe já foi um monte de vezes lá. Cansou de ir, e eles não resolvem nada.

Não adianta, só perde a viagem.”A consumidora conta que a água também prejudica as roupas durante a lavagem, deixando peças brancas com manchas amarronzadas.“Faz anos que está assim. Tenho um edredom que encardiu todo.

Era branco e ficou marrom por causa da água que vai para a máquina, água suja de terra.”Além da qualidade da água e dos valores cobrados, Carol também reclama das interrupções no abastecimento. Segundo ela, a falta de água ocorre, em média, uma vez por semana.“Fora que direto falta água.

Uma vez por semana sempre falta.”Entre os relatos publicados na plataforma, diversos consumidores afirmam ter recebido faturas com valores muito acima dos que costumam pagar. Em outra reclamação, um morador do Rio de Janeiro disse receber e-mails com cobranças de contas de água, apesar de nunca ter residido no estado de São Paulo.

Reclamações sobre Águas de JahuReprodução/Redes sociais A empresa também é avaliada como “ruim” no site de reclamações, com nota média de 5,7 em uma escala de 0 a 10 nos últimos seis meses. A reputação é calculada com base nas avaliações dos consumidores após o encerramento das reclamações.

Reclamações sobre Águas de JahuReprodução/Redes sociais Já no Google, a companhia tem nota média de 1,9 em uma escala de 0 a 5. Na plataforma, há dezenas de reclamações de consumidores sobre os serviços prestados pela empresa.A consumidora Maria Lúcia Figueiredo, que trabalha na Segurança Patrimonial da Prefeitura de Jaú, afirmou que sua principal reclamação é em relação ao valor mínimo da conta de água e à taxa de esgoto.“Acho absurdo pagar R$ 83 de água, morando somente duas pessoas em casa.

Pago mais de água do que de energia elétrica. Foi aumentando, todo ano sobem mais de 7%.

Em fevereiro deste ano, aumentou 7,76%”.Nas redes sociais da empresa, também há relatos de consumidores insatisfeitos com os serviços prestados. Reclamações sobre Águas de JahuReprodução/Redes sociais A reportagem também procurou o Procon-SP para levantar as reclamações registradas contra a empresa.

Em 2025, os meses com maior número de queixas foram março, com nove registros, seguido de fevereiro, julho e agosto, com cinco reclamações cada.O principal motivo das queixas no ano passado foi a cobrança indevida ou em desacordo com o consumo, com 25 registros. Também foram relatados problemas para entrar em contato com a empresa ou demora no atendimento, com quatro reclamações, além de dificuldades para cancelar contratos e serviços e casos de negativação indevida do consumidor, com três registros cada.

A má qualidade do serviço foi mencionada em duas queixas.Em 2026, até o momento do levantamento, junho e agosto concentraram o maior número de reclamações, com seis registros cada. Fevereiro e abril tiveram cinco queixas cada.Assim como no ano anterior, a cobrança indevida ou em desacordo com o consumo liderou as reclamações neste ano, com 24 registros.

A dificuldade de contato ou a demora no atendimento somou quatro queixas, enquanto a negativação indevida do consumidor teve um registro. Reclamações sobre Águas de JahuReprodução/Redes sociais Águas de Araçoiaba da SerraA Águas de Araçoiaba é alvo de reclamações de moradores por problemas no abastecimento de água.

Atualmente, uma petição pública em formato de abaixo-assinado online pede a retirada da Águas de Araçoiaba da Serra do município. O documento, que reúne 307 assinaturas, atribui o pedido à recorrente falta de água na cidade.“[…] praticamente todos os bairros abertos da cidade (sem ser condomínios) sofrem constante falta de água, não só no verão, como em qualquer estação do ano e curiosamente, quando há feriados prolongados.

A situação se estende por anos, e o poder público não atua como se deve”, diz o texto do abaixo-assinado.As reclamações também chegaram à Câmara Municipal. Vereadores de Araçoiaba da Serra já protocolaram pedidos para que a Prefeitura rescinda o contrato com a concessionária.

Uma das solicitações, apresentada em 2023, apontava justamente problemas relacionados à falta de água.Apesar de os requerimentos terem sido apresentados há três anos, moradores continuam relatando episódios de desabastecimento nas redes sociais. Há relatos de pessoas que teriam ficado até seis dias sem água.  Reclamações dos usuários sobre a concessionária Águas de AraçoiabaReprodução/Facebook Os registros divulgados pela própria concessionária também mostram interrupções no abastecimento.

Entre novembro de 2025 e outubro de 2026, a Águas de Araçoiaba informou pelo menos nove vezes a interrupção do fornecimento na cidade. O aviso mais recente foi publicado na última quarta-feira (21) e apontava que ao menos seis bairros seriam afetados.

Concessionária Águas de Araçoiaba informa nas redes sociais sobre a interrupção no abastecimento de águaReprodução/Facebook Na ocasião, o fornecimento já havia sido interrompido às 10h31. A previsão era de retomada às 14h30, mas a normalização completa estava prevista apenas para as 20h15, quase dez horas após a interrupção.O número de interrupções registradas pela agência reguladora também chama atenção.

Entre junho e dezembro de 2024, a Agência Reguladora dos Serviços de Saneamento das Bacias dos Rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí (ARES-PCJ) informou pelo menos 31 ocorrências de interrupção do abastecimento no município. Os avisos eram classificados entre interrupções programadas e emergenciais.Uma pesquisa de satisfação realizada pela Agência Reguladora de Serviços Públicos de Casa Branca (Arespcab), divulgada em março de 2026, reforça as reclamações.

O levantamento ouviu cerca de 200 clientes atendidos pela concessionária e apontou que 77,1% dos entrevistados tiveram o abastecimento interrompido nos 12 meses anteriores à pesquisa. Do total, 29,4% disseram que as interrupções ocorreram muitas vezes, enquanto 4% afirmaram que ficaram sem água durante quase todo o dia.

Levantamento ouviu cerca de 200 clientes atendidos pela concessionária ReproduçãoArespcab Considerando apenas os 30 dias anteriores à pesquisa, 36,3% dos entrevistados disseram ter sido afetados pela falta de água.

Os registros do Procon-SP também mostram reclamações contra a concessionária. Em 2025, foram contabilizadas 34 queixas e, até setembro de 2026, outras 19.

Nos dois anos, as principais reclamações estavam relacionadas a cobrança indevida ou em desacordo com o uso e a cobrança de tarifas ou taxas não previstas. Também aparecem queixas sobre interrupção ou instabilidade no fornecimento de água e dificuldade para rescindir contratos ou cancelar o serviço.Águas de VotorantimFormada pelos grupos Águas do Brasil e Sistema de Gestão Ambiental (SGA), a concessionária Águas de Votorantim assumiu, em 2012, os serviços de saneamento básico do município de Votorantim, no interior de São Paulo.

O contrato de concessão tem prazo de 30 anos, com vigência até 2042. Uma pesquisa realizada pela ARES-PCJ ouviu 380 moradores do município em fevereiro de 2024.

Segundo o levantamento, cerca de 23,4% dos entrevistados enfrentavam falta de água em casa. Entre as pessoas afetadas, 28%afirmaram que a interrupção no abastecimento ocorria uma vez por mês.Em alguns casos, a falta de água é ainda mais frequente.

Como mostra o gráfico abaixo, quase 21% dos entrevistados afirmaram enfrentar interrupções no abastecimento cerca de três vezes por mês. A pesquisa contou com a participação de 380 pessoas da cidade de VotorantimReprodução/ ARES-PCJ Nas redes sociais e nas avaliações do Google, dezenas de moradores relatam problemas com os serviços prestados pela empresa.

Entre as reclamações, há queixas sobre o atendimento e o relato de um consumidor que afirma estar há cerca de três dias com um vazamento em sua residência. Reclamações sobre Águas de VotorantimReprodução/Redes sociais Em outras publicações, moradores também relatam problemas com a falta de água e com hidrômetros quebrados.

Em um dos comentários, um consumidor afirma que funcionários da empresa foram ao local para realizar um serviço, mas deixaram o equipamento danificado. Reclamações sobre Águas de VotorantimReprodução/Redes sociais De acordo com os dados obtidos pela reportagem junto ao Procon-SP, setembro foi o mês com o maior número de reclamações contra a empresa em 2025, com quatro registros.

Março, julho e dezembro aparecem na sequência, com três queixas cada.Entre os principais motivos das reclamações estavam cobrança indevida ou em desacordo com o uso, com nove registros; cobrança de tarifas, taxas ou valores não previstos, com quatro; cobrança mediante constrangimento ou ameaça, com duas; e oferta não cumprida, também com duas.

As demais reclamações envolveram outros motivos.Em 2026, foram registradas 33 reclamações contra a empresa. Fevereiro e julho concentraram o maior número de queixas, com seis registros cada, seguidos de junho, agosto e setembro, com quatro reclamações cada.Entre os principais motivos das queixas estavam cobrança indevida ou em desacordo com o uso, com 13 registros; cobrança de tarifas, taxas ou valores não previstos, com nove; dificuldade de contato ou demora no atendimento, com três; recusa injustificada, com duas; e dificuldade no reembolso, com uma reclamação.

Os demais registros foram relacionados a outros motivos.O DIA entrou em contato com as concessionárias responsáveis pelo abastecimento de água nas três cidades, mas não obteve resposta até a publicação desta reportagem.

Publicação Original O Dia odia.ig.com.br
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