China sobe tom por bloqueio dos EUA ao Estreito de Ormuz e promete contramedidas a ameaça tarifária de Trump

 

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A China elevou o tom nesta terça-feira contra o bloqueio imposto pelos Estados Unidos aos portos iranianos e advertiu que poderá adotar “contramedidas” caso o presidente Donald Trump leve adiante ameaças de novas tarifas comerciais. Pequim, que é o principal comprador de petróleo do Irã e está entre os países autorizados por Teerã a atravessar o Estreito de Ormuz, é diretamente afetada pela escalada, que ocorre após o fracasso das negociações de paz entre Washington e Teerã no fim de semana.

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Com o bloqueio, iniciado às 11h (no horário de Brasília) de segunda-feira, Trump ameaçou afundar navios que entrem ou saiam de portos e áreas costeiras iranianas no Golfo, apesar de EUA e Irã terem concordado dias antes com um frágil cessar-fogo de duas semanas. Diante das iniciativas de Washington, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Guo Jiakun, afirmou que a medida americana “apenas agravará as tensões”, minará o cessar-fogo e colocará em risco a segurança da navegação pelo Estreito de Ormuz.

— Os EUA aumentaram seus desdobramentos militares e adotaram uma ação de bloqueio direcionada, o que apenas agravará as tensões, minará o já frágil acordo de cessar-fogo e colocará ainda mais em risco a segurança da passagem pelo estreito — disse Guo em entrevista coletiva. — Trata-se de um comportamento perigoso e irresponsável.

O Irã fechou, na prática, o estratégico Estreito de Ormuz, permitindo apenas a passagem de embarcações que atendam países considerados amigos, como a própria China, ou que paguem uma taxa na faixa de US$ 2 milhões. O bloqueio americano, segundo analistas, busca cortar essas fontes de financiamento do Irã e pressionar Pequim a convencer Teerã a reabrir a via marítima, por onde transita um quinto do petróleo global em tempos de paz. Segundo dados de navegação analisados pela BBC, no entanto, pelo menos quatro navios ligados ao Irã cruzaram o estreito nesta terça.

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O embaixador iraniano nas Nações Unidas classificou a medida de Trump como uma “grave violação” da soberania do país. Na segunda-feira, o Irã chamou a decisão de “ato de pirataria” e afirmou que atingirá todos os portos dentro e próximos ao Golfo Pérsico caso seus próprios centros de navegação sejam ameaçados. A segurança dos portos da região é “ou para todos ou para ninguém”, disseram as forças armadas iranianas em comunicado.

Falando publicamente sobre a guerra pela primeira vez, o presidente chinês, Xi Jinping, ecoou esses alertas e pediu que a soberania dos países do Oriente Médio e do Golfo seja “respeitada”. Ele fez as declarações durante encontro em Pequim com o príncipe de Abu Dhabi, Sheikh Khaled bin Mohamed bin Zayed al-Nahyan, e afirmou que a China continuará a desempenhar um “papel construtivo” na promoção de negociações de paz.

Na segunda-feira, o ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi, já havia afirmado que a prioridade atual deve ser manter o cessar-fogo entre o Irã e os Estados Unidos e evitar que o conflito volte a se intensificar no Oriente Médio. O principal diplomata chinês fez os comentários em uma conversa telefônica com seu homólogo paquistanês, Ishaq Dar, segundo a agência estatal chinesa Xinhua.

Ameaça tarifária

Trump, que deve visitar a capital chinesa no próximo mês para conversas com Xi, disse no domingo que aplicaria uma tarifa de 50% sobre produtos chineses caso o país ofereça assistência militar ao Irã. As declarações coincidiram com informações divulgadas pela rede CNN, segundo as quais a inteligência americana avalia que Pequim pretende entregar novos sistemas de defesa aérea a Teerã nas próximas semanas, citando três fontes.

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No fim de semana, o New York Times também afirmou que autoridades dos EUA indicaram que a China já teria enviado um carregamento de mísseis ao Irã, uma alegação que Pequim nega. Guo afirmou que essas informações são “completamente inventadas” e advertiu que a China reagirá caso Washington use as alegações como justificativa para novas tarifas.

— Se os Estados Unidos insistirem em usar isso como pretexto para impor mais tarifas à China, a China indubitavelmente tomará contramedidas firmes — disse o porta-voz.

Enquanto principal comprador de petróleo do Irã, a China é um parceiro econômico importante para o país. Apesar disso, Pequim e Teerã não possuem um pacto militar formal, e muitos analistas consideram a relação entre ambos como essencialmente transacional. A China também mantém fortes laços com países do Golfo, por exemplo, e criticou ataques iranianos contra eles no contexto da guerra atual.

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A escalada ocorre enquanto Pequim recebe uma série de líderes de países afetados pelo conflito no Oriente Médio. O líder vietnamita To Lam e o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, chegaram à capital chinesa nesta terça-feira, com o objetivo de reforçar a cooperação sobre o conflito e tratar de questões bilaterais.

Segundo a chancelaria russa, Lavrov e o principal diplomata chinês, Wang Yi, discutiriam a situação no Oriente Médio, após uma ligação neste mês na qual os dois concordaram em trabalhar juntos para reduzir as tensões.

O primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez, também visita Pequim nesta semana em uma viagem amplamente focada nas relações comerciais. Ele afirmou a jornalistas que a China pode desempenhar um “papel importante” no Oriente Médio, enquanto Xi alertou contra um retorno à “lei da selva” nas relações internacionais.

— Tanto a China quanto a Espanha são países com princípios que defendem a justiça. Devem fortalecer a comunicação, consolidar a confiança mútua e cooperar estreitamente para se opor à regressão do mundo à lei da selva — disse Xi durante encontro no Grande Salão do Povo, em Pequim. (Com AFP)