Se os usuários do Facebook e do Instagram na América Latina deixarem de contar com conteúdo checado profissionalmente, como busca a Meta, especialistas afirmam que a qualidade do debate público sofrerá, em uma região que sofre uma guinada para a extrema direita. 'Brincando com nossas vidas': Ex-pesquisador da OpenAI e da Anthropic acusa empresas de irresponsabilidade Com bandeiras e slogans: Robôs fazem 'protesto' contra uso descontrolado da IA na Polônia As Notas da Comunidade da Meta, um sistema de moderação coletiva inspirado no que o X, do bilionário Elon Musk, implantou, foram criadas para substituir a checagem realizada por jornalistas independentes. O Brasil está fora da lista, por causa das regras estabelecidas pelo governo. "Uma vez que a Meta continua dominando o consumo de redes sociais na América Latina, sem um programa de checagem, as consequências podem ser consideráveis para que a desinformação se propague mais rapidamente", advertiu Alejandro Martín del Campo, do Observatório de Mídia do Tecnológico de Monterrey. Segundo dados do conglomerado LatamChequea, 14 agências da região participam do programa de verificação da Meta lançado em nível mundial em 2016, entre elas a AFP, em mais de 26 idiomas. A empresa de Mark Zuckerberg busca deixar a checagem de fatos nas mãos dos usuários mais ativos nas redes sociais, que não aplicarão, necessariamente, "os padrões metodológicos e jornalísticos" seguidos pelos profissionais, advertiu o professor Carlos Rodríguez, da Universidade de la Sabana, na Colômbia. Na berlinda: X é investigado na Irlanda por falha em verificação de idade de menores Outros especialistas consultados pela AFP destacaram que a decisão da Meta pode enfraquecer a qualidade da informação e a saúde da democracia. Diante de níveis crescentes de polarização e campanhas coordenadas de desinformação, "substituir mecanismos profissionais de verificação por sistemas dependentes de um consenso entre os usuários das redes pode levar a situações preocupantes", apontou o professor de jornalismo Ramón Salaverría, pesquisador principal do Observatório Iberifier. No Brasil, medidas firmes para regulamentar redes sociais O Brasil foi excluído da lista de nações latinas onde as Notas serão testadas. O país tomou medidas firmes para regulamentar as redes sociais, o que leva o professor de jornalismo da Universidade de São Paulo (USP) e pesquisador Ivan Paganotti a acreditar que a Meta não vai tomar, necessariamente, a mesma decisão no país. "O Brasil tem uma regulamentação que cresceu e obrigou as plataformas a desenvolver mecanismos de controle e verificação", ressaltou, em contraste com o restante da região. O uso crescente da inteligência artificial (IA) generativa permitiu que qualquer tipo de conteúdo se espalhasse nas redes em questão de minutos. Por isso, poder contar agora com "toda uma comunidade que ajude a fornecer contexto" é inicialmente positivo para Marco Benalcázar, diretor do Laboratório de Pesquisa em Inteligência e Visão Artificial Alan Turing, da Escola Politécnica Nacional do Equador. Proteção: Reino Unido obrigará Apple e Google a bloquear imagens de nudez em celulares e tablets de crianças Benalcázar citou, no entanto, estudos que destacam que cerca de 50% dos usuários não estão capacitados para detectar à primeira vista se um conteúdo é verdadeiro, uma média que vai "diminuir à medida que as ferramentas de IA generativa progredirem". Martín del Campo concorda: "Será um desafio para os cidadãos discernir entre informação gerada por IA e fatos reais. Mais do que nunca, as habilidades em alfabetização digital básica são indispensáveis." Os especialistas preveem que outras redes sociais sigam os passos da Meta em direção a um modelo mais econômico e que lhes permita se apresentar como neutras diante de críticas sobre a liberdade de expressão formuladas pela extrema direita. O fato de Meta e X se distanciarem da checagem "sem enfrentar a oposição dos governos, usuários ou da opinião pública deve incentivar outras plataformas a fazer o mesmo", indicou Rafael Rubio, codiretor do Observatório de Desinformação da Universidade Complutense de Madri.
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Checagem profissional de conteúdo nas redes vive crise na América Latina
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O Globo
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