Chacina no DF: ao júri, testemunhas policiais relatam plano, briga e execuções em série
O Tribunal do Júri começou a analisar, nesta segunda-feira, um dos casos de violência mais graves da História do Distrito Federal. Gideon Batista de Menezes, Horácio Carlos Ferreira Barbosa, Carlomam dos Santos Nogueira, Fabrício Silva Canhedo e Carlos Henrique Alves da Silva sentaram no banco dos réus do Fórum de Planaltina sob acusação do homicídio, além de crimes relacionados, de dez pessoas da mesma família entre dezembro de 2022 e janeiro de 2023. O caso ficou conhecido como a maior chacina do DF. O julgamento será retomado nesta terça.
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No primeiro dia do júri, foram sorteados os jurados para compor o Conselho de Sentença, foi lida a denúncia e foram ouvidas as primeiras testemunhas entre os 23 policiais e outros indivíduos que tiveram contato com as vítimas. A expectativa é que o julgamento se estenda até sexta-feira.
As vítimas são:
Elizamar Silva, de 39 anos - cabeleireira;
Thiago Gabriel Belchior, de 30 anos - marido de Elizamar Silva;
Rafael da Silva, de 6 anos - filho de Elizamar e Thiago;
Rafaela da Silva, de 6 anos - filha de Elizamar e Thiago;
Gabriel da Silva, de 7 anos - filho de Elizamar e Thiago;
Renata Juliene Belchior, de 52 anos - mãe de Thiago e sogra de Elizamar;
Marcos Antônio Lopes de Oliveira, de 54 anos - pai de Thiago e sogro de Elizamar;
Gabriela Belchior, de 25 anos - irmã de Thiago e cunhada de Elizamar;
Cláudia Regina Marques de Oliveira, de 54 anos - ex-mulher de Marcos Antônio;
Ana Beatriz Marques de Oliveira, de 19 anos - filha de Cláudia e Marcos Antônio.
Contaram suas versões Manoel da Rocha, pai de Cláudia e avô de Ana Beatriz, e Edimilson Barbosa. Já o agente da Polícia Civil do DF Tassio Corrêa; os policiais Ygor Silva e Raulison Lopes, da Polícia Civil de Goiás; e o delegado Achilles Benedito prestaram depoimento como testemunhas, sobre o processo de apuração da chacina. Segundo a acusação, as autoridades relataram "os procedimentos adotados durante a investigação, as provas coletadas e os laudos produzidos, bem como aspectos relacionados às vítimas e aos impactos do crime, contribuindo para a reconstrução dos fatos".
O Ministério Público do Distrito Federal e Territórios considera que os elementos apresentados evidenciaram a participação dos réus nos crimes pelos quais foram denunciados.
"Esses profissionais estiveram à frente da coleta de provas, da oitiva de testemunhas e do registro das versões apresentadas pelos próprios réus. São, portanto, testemunhas que oferecem ao Conselho de Sentença uma visão estruturada e confiável da linha do tempo dos acontecimentos, tanto no que diz respeito à execução dos crimes quanto aos desdobramentos investigativos que permitiram reconstruir, com precisão, a dinâmica dos fatos", destacaram os promotores de justiça, em nota.
Ao júri, os policiais descreveram a dinâmica do crime, do planejamento à ordem de execução e à desova dos corpos. Segundo o Correio Braziliense, o investigador da PCDF atribuiu a Gideon a mentoria do plano. O primeiro a ser morto foi Marcos Antônio, ainda em dezembro de 2022, embora seu corpo só tenha sido encontrado em janeiro de 2023, com marca de tiro na cabeça, esquartejado e enterrado no quintal da casa que serviu como cativeiro para o sequestro das vítimas. Horácio teria sido o responsável pelo esquartejamento, segundo o investigador.
Antes do corpo de Marcos, investigadores localizaram os corpos de Elizamar e dos filhos carbonizados dentro de um carro em Cristalina (GO). Laudos apontaram que Elizamar foi morta por asfixia e carbonizada em seguida. Já Rafael, Rafaela e Thiago estavam vivos quando foram queimados.
O delegado Achilles Benedito, por sua vez, disse ao júri que Gideon ordenou as execuções. As vítimas foram atraídas sob falso pretexto e, em seguida, sequestradas. Carlomam, por sua vez, teria sido o responsável por roubar as pessoas retidas. Foi Carlomam quem relatou, após a morte de Elizamar e os filhos, que os acusados discutiram: Fabrício Silva, outro acusado, não concordava com as execuções. Na ocasião, ao citar os nomes de Gideon e Horácio, as vítimas teriam descoberto quem estava por trás dos crimes. Depois disso, Gideon teria determinado a morte dos outros parentes de Marcos Antônio.
— O Horácio foi braço-direito, o Carlomam teria sido o executor direto, Fabrício na vigilância do cativeiro e Carlos Henrique de forma eventual — disse o delegado, após citar a ascendência de Gideon sobre os alegados cúmplices.
O assistente de acusação João Darcs afirmou que a expectativa é que os denunciados sejam condenados a mais de 300 anos de cadeia, à exceção de Carlos Henrique, cuja participação teria sido mais restrita e cuja defesa afirmou que irá buscar a responsabilização dele "unicamente pelos atos que cometeu".
Entenda o caso
A acusação sustenta que os homens devem ser considerados culpados pelos crimes de homicídios qualificados, extorsão, roubo, sequestro, constrangimento ilegal, fraude processual, corrupção de menores, ocultação e destruição de cadáver, entre outros.
Segundo o MPDFT, as investigações mostraram que, entre outubro de 2022 e janeiro de 2023, os quatro réus "se associaram para tomar a Chácara Quilombo, no Itapoã, que estava sob a posse de Marcos Antônio Lopes de Oliveira". O grupo também planejava pegar dinheiro da família da vítima. O combinado inicial, por sua vez, era matar Marcos e sequestrar seus parentes.
Em 27 de dezembro de 2022, Gideon, Horácio e Carlomam, acompanhados de um adolescente, foram à casa de Marcos, onde também estavam a mulher dele, Renata Juliene Belchior, e a filha dele Gabriela Belchior de Oliveira. O três foram rendidos, enquanto os criminosos se apoderaram de quase R$ 50 mil que pertenceriam a Marcos.
Ainda de acordo com a denúncia, os três rendidos foram levados para um cativeiro na região do Vale do Sol, em Planaltina. Marcos foi assassinado no local por Gideon e Horácio e, com a ajuda de Carlomam e do adolescente, teve o corpo enterrado no terreno. Na manhã seguinte, Fabrício teria assumido a vigilância do cativeiro, e o adolescente, por motivo desconhecido, fugiu.
O MP afirma que Renata e Gabriela foram ameaçadas "para que fornecessem as senhas dos celulares e das contas bancárias delas". O grupo se passou pelas mulheres e monitoraram os passos de Cláudia da Rocha Marques e Ana Beatriz Marques de Oliveira, respectivamente, ex-mulher e outra filha de Marcos. "O objetivo era atraí-las para uma emboscada e subtrair R$ 200 mil referentes à venda de um lote", destaca a acusação.
Entre 2 e 4 de janeiro, Gideon, Horácio e Carloman teriam ido à casa dessas outras duas vítimas. Elas foram então rendidas, amarradas, levadas para mesmo o cativeiro de Renata e Gabriela e ameaçadas para que fornecessem as senhas dos celulares e de contas bancárias. Com acesso aos telefones, os criminosos passaram a considerar que o filho de Marcos e Renata, identificado como Thiago Gabriel Belchior de Oliveira, "poderia atrapalhar os planos". Decidiram matá-lo. Por meio dos celulares das vítimas sequestradas, ele foi atraído à Chácara Quilombo, rendido por Carlomam e Carlos Henrique e levado ao cativeiro onde estavam as quatro mulheres.
Thiago também foi ameaçado para fornecer a senha do celular. Por meio do aparelho, os criminosos fizeram contato com a mulher dele, Elizamar, também com a intenção de matá-la. Segundo a acusação, o grupo atraiu a mulher e os três filhos pequenos do casal à Chácara Quilombo. A mãe e as crianças foram rendidas, amarradas e levadas a Cristalina, em Goiás, onde foram estranguladas e mortes. O MP afirma que os corpos foram incinerados no carro de Elizamar.
Ainda segundo a acusação, Gideon, Horácio e Carlomam decidiram matar as demais vítimas "para garantir que os outros crimes não fossem descobertos". Em 14 de janeiro, Renata e Gabriela foram levadas até Unaí (MG), onde foram estranguladas e tiveram os corpos queimados. Fabrício, então, "aparentemente se desentendeu" com os três e abandonou o caso.
No dia seguinte, Gideon teria determinado que Claudia, Ana Beatriz e Thiago fossem mortos. O trio foi levado a uma cisterna próxima ao cativeiro e executado a facadas. Os corpos foram escondidos na cisterna. Com o objetivo de atrapalhar as investigações, Fabrício e Horácio teriam ateado fogo a objetos das vítimas.
O que dizem as defesas
Defesa de Fabrício Silva Canhedo
"Em relação ao julgamento, a defesa do Fabrício espera que os fatos sejam analisados com serenidade, responsabilidade e compromisso com a verdade real.
Em relação a acusação que foi imputada ao Sr. Fabrício, a defesa entende que houve uma ampliação de crimes, que não têm respaldo probatório. Sendo assim, os fatos serão apresentados aos jurados para que decidam de acordo com a prova."
Defesa de Carlomam dos Santos Nogueira
"Este julgamento se apresenta como um dos mais complexos da região Centro Oeste dos últimos tempos, tanto pela extensão probatória quanto pela repercussão pública que o caso naturalmente assumiu.
Trata-se de processo com elevado volume de provas, múltiplas teses jurídicas e questões técnicas relevantes que demandarão análise cuidadosa pelo Conselho de Sentença, o que indica, inclusive, a possibilidade de um julgamento prolongado, como é comum em casos de maior complexidade.
A defesa confia que os trabalhos serão conduzidos com absoluta observância das garantias constitucionais que regem o Tribunal do Júri, especialmente a preservação do contraditório, da ampla defesa e da soberania dos veredictos, pilares essenciais do Estado Democrático de Direito.
Nesse contexto, a defesa reafirma sua confiança na Justiça e no papel dos jurados, que terão a responsabilidade de analisar o caso com serenidade, imparcialidade e com base exclusivamente nas provas produzidas nos autos.
Por fim, a defesa ressalta que, em razão da natureza do julgamento e do respeito ao devido processo legal, eventuais manifestações mais aprofundadas ocorrerão no momento oportuno, dentro do plenário do Tribunal do Júri."
