Cessar-fogo foi anunciado como vitória por EUA e Irã, mas é possível apontar um vencedor? Entenda
Trinta e nove dias depois de EUA e Israel lançarem a “Operação Fúria Épica” contra o Irã, o presidente americano, Donald Trump, anunciou um cessar-fogo temporário, de duas semanas, enquanto os envolvidos discutem os termos para o fim do conflito. Teerã e Washington se apontaram vencedores e deram sinais de que não pretendem abrir mão de suas demandas. Mas além de sucessos, os dois lados veem a pausa como um momento de encarar as próprias derrotas.
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Pelo lado americano, a declaração de vitória marcou o fim de um dia que arrastou atenções e angústias de todo o planeta.
No começo da terça-feira, Trump disse que se o Irã não aceitasse o ultimato para reabrir o Estreito de Ormuz, “uma civilização inteira iria morrer”, declaração considerada por analistas como um crime de guerra. A menos de duas horas do fim do prazo, o presidente deu uma guinada similar à de certo romance do escritor escocês Robert Louis Stevenson, anunciando o cessar-fogo por duas semanas e o início de conversas. Segundo o secretário de Defesa, Pete Hegseth, suas forças já estavam preparadas para atacar instalações de energia e outras infraestruturas do Irã, causando estragos “que não seriam reparados por décadas” (mais um crime de guerra), se fosse necessário.
“Em nome dos Estados Unidos da América, como Presidente, e também representando os países do Oriente Médio, é uma honra ver este problema de longa data perto de ser resolvido”, escreveu o presidente em sua rede social, o Truth Social.
A Casa Branca anunciou em comunicado uma “vitória total e completa”. Hegseth disse que os iranianos “imploraram pela trégua”. JD Vance, vice-presidente, destacou que os EUA têm uma “clara vantagem militar, diplomática e, talvez o mais importante, econômica”.
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Para Trump, o maior sucesso foi abrir caminho para encerrar uma guerra da qual não ele sabia sair.
Desde o início da “Operação Fúria Épica”, o presidente e seus assessores enumeram uma série de objetivos, incluindo a eliminação do programa de mísseis, o fim do enriquecimento de urânio e a mudança de regime. A novilíngua trumpista garante que as metas foram cumpridas, mas o país ainda é capaz de lançar mísseis e drones, está no controle de 440kg de urânio enriquecido e o poder segue nas mãos de políticos e militares leais aos conceitos da República Islâmica. Os 13 mil ataques realizados ao longo de 39 dias não levaram o Irã à submissão total, como Trump acreditava ser possível. Seus apelos para que aliados da Otan e as monarquias do Golfo Pérsico se juntassem à guerra foram ignorados. Dentro de casa, 60% dos americanos queriem o fim imediato do conflito. Os impactos da alta do petróleo ajudaram a corroer sua aprovação, hoje abaixo de 40%.
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Ao aceitar o pedido do Paquistão para a pausa de duas semanas, ele busca a aura de “presidente da paz” e se mostra disposto a negociar com os iranianos, algo que já estava fazendo, com relativo sucesso, dias antes de bombardear o país. A primeira rodada está prevista para sexta-feira, em Islamabad, e as delegações podem ser lideradas por Vance e pelo presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf. Sucessos podem lhe dar argumentos para impulsionar sua popularidade, e a retomada do tráfego por Ormuz seria um alívio para a alta dos combustíveis (embora a normalização deva levar mais algumas semanas).
— Se os iranianos estiverem dispostos de boa fé a trabalhar conosco, acho que podemos chegar a um acordo — disse Vance a repórteres na Hungria, onde participa de eventos de apoio a seu aliado, o premier Viktor Orbán, antes das eleições do fim de semana.
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Analistas acreditam, ao menos agora, que os iranianos chegam às negociações em ligeira vantagem, mesmo diante da destruição das últimas semanas. O país segue no controle do Estreito de Ormuz — nesta quarta-feira, já sob cessar-fogo, ameaçou atacar qualquer navio que passar sem autorização. Trump já disse que a proposta apresentada por Teerã iria nortear as conversas, um plano de 10 pontos que exige o fim das sanções, direitos sobre Ormuz e a manutenção do enriquecimento de urânio (que deve ser crucial no diálogo). Através da imprensa dos EUA, integrantes da Casa Branca alegam que a proposta tornada pública é diferente da apresentada em privado, e o presidente garante que apenas pontos "aceitáveis" serão debatidos a portas fechadas, sem explicar quais.
“Os Estados Unidos, obviamente, não aderiram a todos os dez pontos. Mas o simples fato de a proposta iraniana servir de base para as negociações já representa uma importante vitória diplomática para Teerã”, escreveu, em artigo, Trita Parsi, vice-presidente executivo do Instituto Quincy. “Os Estados Unidos não estão mais em posição de ditar as regras; qualquer acordo terá que se basear em um compromisso genuíno.”
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Ao aceitar os termos iniciais do plano, os EUA também reconheceram a autoridade do novo líder supremo, Mojtaba Khamenei, e parecem satisfeitos com a nova configuração à frente do governo: a “mudança de regime”, propagandeada pelo presidente americano, não passou da substituição de autoridades mortas nos bombardeios por nomes mais jovens e por vezes mais radicais que seus antecessores. Em Teerã, o acordo foi recebido como capitulação de Washington, e um jornal estampou em sua capa que “o jogador perdeu”.
“Os Estados Unidos foram obrigados a aceitar o cessar-fogo; uma realidade que indica uma clara derrota estratégica”, escreveu na rede social X o conselheiro diplomático de Mojtaba Khamenei, Ali Akbar Velayati.
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Isso não significa que há motivos para festejar. As semanas de bombardeios devastaram instalações militares (incluindo bases, fábricas de mísseis e drones e unidades de defesa aérea), infraestruturas civis e afetaram duramente a capacidade de produção industrial. Mais de duas mil pessoas morreram, e dezenas de milhares ficaram feridas. Os mecanismos para garantir a soberania aérea estão dizimados, e os estoques balísticos foram empregados à exaustão, sem capacidade imediata de reposição. O modelo descentralizado foi essencial para garantir a continuidade da guerra mesmo sem ordens centrais, mas pode se tornar um desafio em termos de coordenação nacional a médio prazo. Os ataques às monarquias árabes devem fortalecer o discurso anti-Teerã na outra margem do Golfo Pérsico, interrompendo um processo de aproximação. A pressão por mudanças, que motivou os protestos de janeiro, pode ressurgir nas ruas, mas o regime não está mais nas cordas como no começo do ano.
“Esta guerra eletiva não foi apenas um erro estratégico. Em vez de precipitar uma mudança de regime, provavelmente concedeu à teocracia iraniana uma nova sobrevida — tal como aconteceu com Saddam Hussein (ditador iraquiano, 1979-2003) em 1980, quando a sua invasão permitiu ao aiatolá [Ruhollah] Khomeini consolidar o poder no país”, opinou Parsi.
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O caminho temporário de Trump para sair da guerra, apesar de celebrado, também veio a um custo elevado. Em termos financeiros, o site Iran War Cost Tracker estima que o conflito custou US$ 44 bilhões até as 12h (horário de Brasília) desta quarta-feira. Em termos políticos, o ultimato com tons de crimes de guerra rendeu críticas até de aliados, e cresce entre os democratas o discurso pelo do afastamento do presidente. Muitos republicanos temem que o conflito e o vocabulário virulento de Trump lhes custe os empregos na Câmara e no Senado, que serão renovados em novembro. Como disse à rede BBC o deputado Austin Scott, “os comentários do presidente são contraproducentes”.
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No exterior, o cessar-fogo foi elogiado por aliados, mas nos bastidores poucos brindam à Casa Branca. Ouvido pelo portal Politico, um diplomata disse que “o interesse dos europeus em apoiar os EUA está em níveis abaixo de zero”. Também ao Politico, um integrante de um governo da região afirmou que “este não é um bom momento para as relações transatlânticas", e que “Trump está claramente insatisfeito com o rumo da campanha contra o Irã e quer culpar os aliados”. Anthony Albanese, premier australiano, louvou a trégua, mas disse que “não é apropriado usar uma linguagem como a do presidente dos Estados Unidos”, se referindo ao ultimato existencial. Se o mal estar externo com os EUA já estava à mesa antes da guerra, agora o elefante se senta em lugar de destaque na sala.
