Partidos do Centrão que se dispõem a integrar a base do presidente reeleito Luiz Inácio Lula da Silva tentam reduzir o espaço do PT na articulação política e emplacar aliados na pasta responsável e em postos no Legislativo. O PT ocupa hoje os ministérios de Relações Institucionais e da Casa Civil, além das lideranças do governo na Câmara, no Senado e no Congresso.
A federação União Brasil-PP e o Republicanos, que apoiaram Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno, estão entre os partidos que aceitam uma aliança com Lula em troca de governabilidade no Congresso. MDB e PSD, que ficaram neutros, também se articulam para ter espaço no novo governo.
As cinco legendas fizeram parte da Esplanada do terceiro mandato, mas ainda não anunciaram formalmente se serão base, oposição ou independentes. — O governo tem que ser amplo.
O presidente vai precisar de apoio e não pode fechar só com o PT no comando político. Isso foi um erro nesse governo Lula 3 — disse o líder do Republicanos na Câmara, Augusto Coutinho (PE), ponderando que as conversas ainda não começaram.
Já o presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, afirmou que o partido foi procurado pelo governo. — O governo já nos procurou desta vez, sim.
Lula precisa ter uma postura para unir o país e aumentar o apoio, algo que não conseguiu no terceiro mandato — disse em entrevista à newsletter Jogo Político, do GLOBO. Integrantes do PT, como ministro José Guimarães (Relações Institucionais), defendem que a abertura de espaços aos partidos ocorra em troca de garantia de votos no Congresso, o que nem sempre ocorreu no terceiro mandato.
Governistas e representantes do Centrão avaliam que Lula terá dificuldades maiores no quarto mandato com o crescimento das bancadas do PL. A legenda de Flávio terá no ano que vem 121 deputados federais, 24 a mais do que agora, e 29 senadores, mais de um terço da Casa.
O PT tem 70 deputados e precisará se aliar a partidos como União Brasil, PP, Republicanos, PSD e MDB para ter maioria nas votações. Lula trabalha pela reeleição dos presidentes da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP).
Aliados entendem que o presidente ficará mais dependente deles para aprovar iniciativas de seu interesse. Governistas avaliam que Lula precisa ampliar a base na Câmara para compensar as dificuldades no Senado, onde a oposição cresceu mais e deve pressionar pelo confronto com o governo e o Supremo Tribunal Federal.
Mesmo que Republicanos, PP e União Brasil tenham apoiado Flávio no segundo turno, integrantes dessas legendas dizem que Lula não pode prescindir delas para ter governabilidade. Eles lembram que as siglas ficaram neutras no primeiro turno, sem contribuir com o aumento do tempo de televisão do senador do PL, e liberaram suas alas lulistas de seguir a orientação no segundo, como no caso de Aguinaldo Ribeiro (PP-PB) e Silvio Costa Filho (Republicanos-PE).
Há a leitura, porém, de que cargos na articulação política trazem desgaste natural, por causa dos atritos entre o Congresso e o Executivo. Boa parte das legendas do Centrão também prefere ministérios com capacidade de entrega de obras, como Cidades e Desenvolvimento Regional.
Na articulação política, uma das ideias avaliadas no Centrão é indicar Silvio Costa Filho (Republicanos-PE) ao Ministério das Relações Institucionais, responsável direto pela negociação do governo com o Congresso. O deputado é próximo do presidente da Câmara, foi ministro de Portos e Aeroportos de Lula e hoje é líder da maioria na Casa.
A bancada do PP na Câmara também se articula para ocupar cargos no Executivo. A legenda indicou o deputado André Fufuca para o Ministério do Esporte no terceiro mandato.
Fufuca foi eleito senador, e não há previsão sobre se voltará ao governo ou exercerá o mandato. Em paralelo, deputados da sigla tentam levar Aguinaldo Ribeiro à Esplanada.
Os deputados Moses Rodrigues (União-CE) e Pedro Lucas Fernandes (União-MA), por sua vez, buscam o aval do partido para serem indicados como ministros. Diante do cenário adverso no Senado, o Planalto também se preocupa em evitar o que ocorreu na terceira gestão de Lula, quando senadores eleitos assumiram cargos na Esplanada e deixaram na Casa suplentes que, nessa avaliação, não têm expressão política.
Nessa linha, aliados de Lula levantam a possibilidade de o senador Renan Filho (MDB-AL), ex-ministro dos Transportes, permanecer no mandato. O emedebista é apontado como possível líder do governo na Casa.
Tanto Renan quanto Silvio Costa Filho disseram a aliados que não há definição sobre esses cargos e que isso ainda será tratado entre Lula e os partidos. Governistas dizem que a negociação dos ministérios do quarto governo ainda não começou.
Segundo eles, o foco de Lula hoje é definir o que fará com o Ministério da Fazenda, pela importância dos rumos econômicos da nova gestão e pela sinalização que ele quer dar ao mercado. A expectativa é que as demais escolhas comecem a ser destravadas depois disso.
Lula tem mantido o atual ministro da Fazenda, Dario Durigan, como interlocutor da política econômica e ainda não definiu quem será o sucessor dele. Um dos nomes avaliados é o do governador do Piauí, Rafael Fonteles (PT)
O Globo