Cena de crime da Idade do Ferro: arqueólogos encontram 77 mulheres e crianças mortas em possível massacre de 2.800 anos na Sérvia
O que teria levado à morte brutal de dezenas de pessoas há quase três mil anos? Novas análises arqueológicas estão ajudando a reconstruir um episódio de violência extrema ocorrido na atual Sérvia. Pesquisadores identificaram evidências de que um grupo formado majoritariamente por mulheres e crianças foi reunido e assassinado em um massacre coletivo durante a Idade do Ferro.
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As conclusões surgiram após escavações em uma vala comum no sítio arqueológico de Gomolava, datado do século IX a.C. No local, especialistas encontraram os restos mortais de ao menos 77 indivíduos. Segundo o estudo publicado na revista científica Nature Human Behaviour, nesta segunda-feira (23), muitos deles apresentavam sinais claros de agressões fatais.
A análise dos esqueletos revelou “amplas evidências de trauma intencional, violento e frequentemente letal, principalmente na cabeça”. Os ferimentos indicam o uso de força contundente, possivelmente com armas como porretes, maças ou martelos de guerra, além de projéteis como estilingues. Em vários casos, a posição das lesões sugere que as vítimas não estavam em confronto direto com os agressores, que podem ter atacado inclusive a cavalo. Alguns esqueletos, porém, mostram marcas compatíveis com tentativas de defesa.
Ao examinar o perfil das vítimas, os pesquisadores identificaram que 40 tinham entre um e 12 anos e outros 12 eram adolescentes. Entre os 24 adultos encontrados, cerca de 87% eram mulheres. O único bebê localizado era do sexo masculino.
Indícios de conflito amplo
Estudos genéticos e análises da dieta indicaram que poucas das vítimas eram parentes próximas e que muitas cresceram em regiões diferentes. Para os cientistas, isso reforça a hipótese de que o episódio ocorreu em um contexto de instabilidade regional, quando comunidades começavam a se fixar em assentamentos mais fechados.
A equipe, formada por pesquisadores da Universidade de Edimburgo, do University College Dublin e da Universidade de Copenhague, afirma que o massacre pode ter feito parte de um conflito mais amplo entre grupos. Segundo a arqueóloga Linda Fibiger, que co-liderou o trabalho, os assassinatos podem ter sido uma forma de afirmar domínio sobre território e recursos. O estudo também destaca que a escolha das vítimas sugere episódios de violência direcionados por gênero e idade.
Apesar da brutalidade, o local apresenta sinais de que houve cuidado na preparação do sepultamento. Os corpos foram enterrados com objetos pessoais, como joias, além de ornamentos de bronze e recipientes de cerâmica. Também foram encontrados ossos de até 100 animais, além de vestígios de alimentos e ferramentas de moagem.
As evidências indicam que as vítimas foram enterradas pouco depois da morte, provavelmente nas proximidades do local do massacre. Para o arqueólogo Barry Molloy, responsável pela investigação principal, a análise detalhada permite reconstruir não apenas o momento da violência, mas também o significado que o evento teve para aquela comunidade.
Segundo os autores, o perfil das vítimas e a forma como o enterro foi realizado apontam para um ato deliberado e calculado, com forte impacto social. O monumento funerário construído em Gomolava teria servido como lembrança permanente do episódio, refletindo disputas de poder e transformações nas relações entre grupos da Europa pré-histórica.
