Há vitórias eleitorais cujo significado ultrapassa a conquista de um mandato e se projeta sobre o próprio destino de um país. A reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva constitui um desses momentos: a vontade popular, manifestada pelo voto, renova a esperança e reafirma o compromisso do Brasil com a democracia.
O resultado das urnas assume, nessa perspectiva, o sentido de uma afirmação cívica contra as tentações autocráticas. O espírito democrático revela sua força quando a cidadania recusa o medo como instrumento de submissão, repele a intolerância como método de ação política e proclama que o poder somente se legitima pelo respeito à liberdade, à dignidade humana e ao pluralismo.
As mentes sombrias que idealizam uma sociedade governada pelo silêncio e pela obediência encontram, na consciência democrática, um limite que não podem legitimamente transpor. A República pertence a cidadãos livres, titulares de direitos que precedem e limitam a atuação dos governantes.
Nenhum projeto de poder pode reivindicar autoridade para transformar a divergência em delito, a crítica em deslealdade ou o adversário em inimigo. É sob essa compreensão que a vitória de Lula adquire especial relevo histórico.
Sua celebração exprime a esperança de que o Brasil preserve a convivência entre os diferentes, proteja os mais vulneráveis e faça da justiça social uma dimensão concreta da liberdade. Uma democracia se fortalece quando cada pessoa pode reconhecer-se, com igual dignidade, como parte da comunidade nacional.
Essa vitória impõe, também, responsabilidades à altura de seu significado. A confiança renovada pelo eleitorado reclama grandeza de espírito, abertura ao diálogo, respeito à oposição e fidelidade às instituições.
Os brasileiros que fizeram outra escolha continuam a integrar, em plenitude, o povo em cujo nome o poder será exercido. Governar a República exige reconhecer essa cidadania comum e assegurar a todos o direito de participar, fiscalizar e dissentir.
A derrota eleitoral das aspirações autoritárias tampouco dispensa a vigilância democrática. A liberdade precisa ser defendida no cotidiano, pela integridade das instituições, pela independência da imprensa, pela educação para a cidadania e pela recusa permanente à mentira e à violência.
O compromisso assumido nas urnas deve prolongar-se na conduta dos governantes e na consciência da sociedade. Que a força do voto se converta em proteção efetiva dos direitos e em respeito incondicional à Constituição.
Que esta reeleição histórica represente o reconhecimento do compromisso de Lula, ao longo de sua trajetória, com a responsabilidade no exercício do poder, com o fortalecimento dos laços de confiança entre os cidadãos e com a construção de um destino comum, inspirado pela esperança, que aprofunde as conquistas democráticas e renove, na consciência de todos, o respeito à dignidade da pessoa humana.
O Globo