Castro destaca operação com mais de 120 mortos em discurso de despedida e a chama de 'a maior do mundo'

 

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Ao anunciar sua renúncia ao governo do Rio nesta segunda-feira, Cláudio Castro (PL-RJ) destacou, em discurso de despedida, a Operação Contenção, que deixou 122 mortos — 117 suspeitos e cinco policiais — e foi classificada por ele como “a maior do mundo”. A ação, realizada nos complexos do Alemão e da Penha, ficou marcada como um dos confrontos mais letais da história recente do país e acabou lhe servindo de incentivo para concorrer ao Senado, dada a aprovação popular à ofensiva. O ex-chefe do Palácio Guanabara também fez referência à Operação Barricada Zero, lançada pela gestão para a remoção dos obstáculos impostos por criminosos no estado.

— Fizemos a maior operação do mundo aqui no Rio de Janeiro. Depois de muitos anos, vencemos a pior guerra que se pode dizer na segurança pública, que é a guerra da narrativa. Fizemos o cidadão na ponta ser ouvido. E esse cidadão pode dizer que ele era favorável à polícia — declarou Castro.

Quando detalhou a política adotada na área, Castro afirmou que sua gestão priorizou o investimento nas forças de segurança e a ampliação da capacidade operacional das polícias. Segundo ele, a estratégia se afastou de modelos “teóricos” e buscou reforçar a presença do Estado em áreas dominadas por facções, com ações integradas e foco no enfrentamento direto ao crime organizado.

— Não acredito em segurança pública que seja um livro de prateleira. Acredito em investimento — pontuou.

Saída de Castro

A saída do cargo foi comunicada a aliados em uma cerimônia no Palácio da Guanabara, sede do governo, e aconteceu na véspera da retomada do julgamento do caso Ceperj pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Castro, que corre risco de ficar inelegível neste julgamento, deseja se candidatar ao Senado, e por isso precisaria deixar o governo até o início de abril. A renúncia antes do prazo derradeiro, segundo interlocutores, é uma tentativa de esvaziar o processo no TSE e escapar da cassação do mandato.

— Hoje eu encerro o meu tempo à frente do governo do estado. Vou em busca de novos projetos. Sou pré-candidato ao Senado. Saio de cabeça erguida e de forma grata — disse Castro.

Como o estado não tem vice, e o presidente da Alerj está afastado das funções, a linha sucessória passa a ser encabeçada pelo presidente do Tribunal de Justiça (TJ-RJ), desembargador Ricardo Couto, que assume interinamente o governo. Pela legislação, em seguida, ele deverá organizar uma eleição indireta para que deputados estaduais da Alerj escolham um indicado para comandar o governo durante um mandato-tampão, até a escolha do próximo governador.

Em pronunciamento que durou cerca de dez minutos na sede do governo do Rio, sem responder perguntas dos jornalistas, Castro fez um balanço de sua gestão, citou uma série de entregas e lembrou sua chegada ao Palácio Guanabara, em 2019, "de forma completamente improvável", conforme descreveu. Ele se elegeu vice-governador em 2018, na chapa do ex-juiz Wilson Witzel, e assumiu o mandato após o impeachment do titular; depois, Castro se reelegeu em 2022. Agora, ele se referiu ao antecessor como alguém que "não valorizou a cadeira de governador e que desde o primeiro dia pensava em ser presidente".

Alfinetada em Paes

Castro também disse que retorna “à vida como advogado”, e não fez referência direta ao julgamento no TSE. O governador alfinetou ainda o ex-prefeito do Rio, Eduardo Paes (PSD), que será candidato de oposição ao governo neste ano, e disse que sua relação com adversários foi pautada “pelo respeito". No fim de semana, Paes acusou o ex-governador de estar "fugindo da justiça" com a renúncia na véspera do julgamento no TSE.

— Temos desafios? Temos, é claro. Nós não resolvemos tudo. Mas consegui ser, em 2022, alguém que saiu de um desconhecimento quase de 90% para uma das maiores votações, senão a maior, com quase 5 milhões de votos e quase 60% dos votos válidos do Rio de Janeiro. Saio feliz — disse.

Previsto para as 16h30, o evento teve um atraso de duas horas e meia para o início. Entre os presentes no Palácio Guanabara estavam aliados de Castro que serão candidatos na mesma chapa neste ano, como o ex-secretário de Cidades, Douglas Ruas, que é pré-candidato do PL ao governo; e o prefeito de Belford Roxo, Márcio Canella (União), cotado para concorrer ao Senado junto de Castro.

Também figuraram na despedida do líder do Executivo deputados estaduais da base governista, como Fred Pacheco (PMN) e Alexandre Knoploch (PL). Durante a cerimônia reservada aos convidados, sem a presença da imprensa, o governador cantou músicas de teor religioso ao lado de uma cantora gospel.

Risco de cassação

Na ação que corre no TSE, e que será retomada nesta terça-feira, Castro é acusado de abuso de poder político, econômico e conduta proibida em relação a agentes públicos em função da campanha de 2024. O Ministério Público eleitoral acusou o governador e seu antigo vice, Thiago Pampolha (hoje conselheiro do Tribunal de Contas do Estado), pela contratação irregular de cabos eleitorais através do Ceperj.

Pampolha deixou o cargo de vice-governador no ano passado, após uma costura de Castro com o objetivo, à época, de projetar uma candidatura do então presidente da Assembleia Legislativa (Alerj), Rodrigo Bacellar, para sucedê-lo no governo estadual. Na ocasião, Castro indicou Pampolha a uma vaga no TCE para tirá-lo da linha sucessória e favorecer Bacellar, que assumiria o Executivo estadual após a renúncia do governador.

Posteriormente, no entanto, Castro e Bacellar romperam politicamente, e este último foi afastado da presidência da Alerj no fim de 2025, após uma investigação da Polícia Federal por suspeita de vazamento de inquérito sigiloso e conexões com uma facção criminosa.

Definição do comando do estado

Para o pleito indireto, PL tinha a expectativa de indicar Douglas Ruas para a disputa desse mandato-tampão, com o objetivo de que ele já estivesse na cadeira de governador durante a campanha eleitoral principal, em outubro. Na semana passada, no entanto, uma liminar do ministro Luiz Fux derrubou parte das regras aprovadas pela Alerj para a eleição indireta, exigindo que os pretendentes tenham se desincompatibilizado de cargos no Executivo seis meses antes da disputa.

Pelas regras criadas pela Assembleia, os candidatos poderiam deixar os cargos públicos apenas 24 horas antes da votação. O trecho foi anulado por Fux, que retomou ao prazo fixado por lei, de 180 dias. Com isso, Ruas — que deixou a secretaria de Cidades na semana passada — ficaria impedido de disputar o mandato-tampão. A decisão de Fux também afeta o ex-secretário de Assuntos Legislativos do governo Lula, André Ceciliano (PT), que buscava concorrer nesta eleição fora de época.