Caso no Pico Paraná expõe falhas de estrutura e fiscalização para praticar montanhismo no país
O episódio envolvendo o jovem Roberto Farias Thomaz, de 19 anos, que passou cinco dias perdido no Pico Paraná, o ponto mais alto da Região Sul, pôs em evidência um conjunto de desafios antigos e ainda pouco enfrentados pelo Brasil quando o assunto é montanhismo: infraestrutura limitada em parques naturais, fiscalização irregular, carência de dados oficiais sobre acidentes e resgates e a banalização de práticas que exigem preparo técnico e físico, além de planejamento rigoroso.
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Especialistas ouvidos pelo GLOBO apontam que o sumiço do rapaz não pode ser tratado como evento isolado ou restrito à conduta individual dos envolvidos. Para eles, o caso revela falhas estruturais que se repetem em diferentes pontos do país, ao mesmo tempo em que expõe a falta de uma política nacional voltada ao turismo de natureza e de aventura.
— O Brasil tem muitos parques, mas poucos são realmente estruturados. Em vários não há portaria, controle de entrada ou fiscalização efetiva. Isso cria um ambiente propício para incidentes como esse — frisa o montanhista profissional Freddy Duclerc, líder de expedições com 25 anos de experiência no Brasil e no exterior.
Duclerc conhece bem o Pico Paraná, onde já esteve cerca de 15 vezes. Ele destaca que, embora o local seja emblemático pela altitude, não se trata de um dos grandes desafios técnicos do país. Mesmo assim, existe a necessidade de melhorar a fiscalização no parque:
— O cume é belíssimo, com uma vista impressionante do litoral. Mas nada do que aconteceu ali foi por acaso. Se a entrada estava proibida, alguém deveria estar controlando. Não dá para fechar um parque “no papel” e deixar o acesso totalmente aberto. Isso é uma discussão antiga entre guias profissionais.
O montanhista reconhece que Roberto teve sorte ao sobreviver — ele percorreu cerca de 30 quilômetros até conseguir chegar a uma fazenda —, mas reforça que o desfecho poderia ter sido trágico:
— Ele teve um bom senso de seguir o curso do rio, mas poderia ter sofrido hipotermia, se machucado gravemente ou sido atacado por animais. Foi muito inconsequente.
Para Maximo Kausch, fundador da empresa Gente de Montanha e um dos guias mais experientes do país, o caso expõe uma mentalidade comum entre iniciantes: a busca por atalhos.
— Acham que meia hora ou uma hora de academia resolve. Não resolve. É exposição ao vento, barro, raízes, trechos escarpados e variação brusca de altitude. Se você vai andar oito horas por dia numa montanha, precisa treinar para isso. E o melhor treino para subir uma montanha é subir outra menor antes. O ideal é fazer uma progressão: Caratuba, Itapiroca (montanhas no mesmo parque), depois o Pico Paraná. Não é um lugar para testar limites pela primeira vez.
‘Não há natureza sem risco’
Apesar das críticas, os montanhistas reconhecem que o Brasil tem exemplos positivos. Um dos mais citados é o Parque Nacional da Serra dos Órgãos, no Rio de Janeiro.
— Tem duas entradas, fiscalização, controle, manejo de trilhas muito bem feito. A orientação ao visitante é clara — elogia Duclerc. — Não existe natureza sem risco, mas quando é parque, o estado tem que amenizar isso.
Um dos pontos mais problemáticos levantados pelos especialistas é a ausência de estatísticas nacionais sobre acidentes, desaparecimentos e resgates em trilhas e parques.
— No Brasil, não há dados consolidados. Em países como Chile, Argentina e Peru, esses números existem e orientam políticas públicas. Há até multa por entrar em alguns locais. O Brasil ignora o turismo de aventura no cálculo do PIB e no planejamento estratégico — sustenta Duclerc.
Procurados, os Corpos de Bombeiros de vários estados com tradição montanhista, como Goiás, Minas Gerais, São Paulo e o próprio Paraná, não conseguiram fornecer levantamentos sistematizados. Só o Rio de Janeiro apresentou dados consolidados de 2025 com esse recorte específico.
No estado, foram realizados 265 resgates em florestas, matas e trilhas ao longo do ano. Em encostas e montanhas, incluindo áreas próximas a cachoeiras, foram 142 operações de salvamento. Na soma, portanto, a média é de mais de um caso diário do gênero em paisagens fluminenses.
O Ministério do Turismo foi procurado, mas não apresentou dados sobre investimentos no setor até o fechamento desta edição. Em nota, o Instituto Água e Terra (IAT), órgão gestor do Parque Estadual Pico Paraná, destacou que Roberto não cumpriu exigências como cadastro obrigatório, acesso por vias legais e respeito aos horários estabelecidos. O órgão informou ainda que o parque conta com trilhas sinalizadas, que serão reforçadas, e mencionou parcerias com entidades como a Federação Paranaense de Montanhismo (Fepam) e o Corpo de Socorro em Montanha (Cosmo).
A própria Fepam, contudo, divulgou nota pública criticando o que chamou de “descaso” na gestão dos parques de montanha do Paraná e alertou para o aumento de pessoas perdidas, vandalismo e degradação das trilhas, reflexo, segundo a entidade, de decisões tomadas sem diálogo com especialistas da área.
‘Manter a calma’
O caso mais recente no Pico Paraná se soma a uma lista de ocorrências emblemáticas em trilhas brasileiras nos últimos anos. Em 2018, o corpo do francês Eric Welterlin, de 54 anos, foi encontrado no Pico dos Marins, em Piquete (SP), com sinais de hipotermia. Na véspera do Natal de 2024, um homem de 24 anos ficou com a coluna travada após subir o próprio Pico Paraná. Bombeiros foram acionados e passaram a madrugada no topo da montanha junto ao rapaz. No mesmo local, em 2022, um homem de 31 anos precisou ser resgatado de helicóptero após lesionar o ombro e não conseguir descer a encosta.
Para os montanhistas, saber como agir ao notar que saiu da trilha é tão importante quanto o planejamento prévio.
— A primeira coisa é manter a calma. Se você se perdeu, volte ao último ponto em que tinha certeza do caminho. Se não conseguir, pare. Não siga andando sem rumo. É crucial agir com responsabilidade, saber seus limites. Toda vez que um helicóptero é acionado para esse tipo de resgate, são R$ 10 mil de dinheiro público gastos para salvar uma única pessoa — pontua Duclerc.
Kausch concorda:
— Às vezes, ao tentar “achar o caminho”, você se perde ainda mais. Esperar ajuda é, quase sempre, a decisão mais segura.
Eles ressaltam que equipamentos simples, como apito e lanterna, também podem ser decisivos para um resgate ágil.
— Segurança básica, treinamento básico e equipamento básico não são opcionais. Esse caso mostra o que ocorre se isso é ignorado — conclui Kausch.
Como manter a segurança
Equipamentos - Botas impermeáveis de cano médio, roupas sintéticas (nunca algodão), mochila adequada ao tempo de trilha, bastões de caminhada, proteção contra frio e chuva e itens básicos de navegação formam o kit mínimo para qualquer atividade de montanha.
Preparação - O melhor treinamento para subir uma montanha é subir outras menores, em progressão gradual. A recomendação é começar por trilhas curtas, aumentar aos poucos a carga e a duração, conhecer seu limite físico e fazer cursos de primeiros socorros.
Início - Ninguém “vira montanhista” da noite para o dia. O caminho natural começa como trekker, com caminhadas simples, acompanhamento de pessoas experientes ou guias profissionais e aprendizado sobre ambiente, riscos e tomada de decisão.
E se estiver perdido? - Manter a calma é a regra número um. Ao perceber que saiu da trilha, o recomendado é parar, se localizar com mapas ou GPS e retornar ao último ponto conhecido. Não sendo viável, especialistas indicam permanecer no local, usar apito e aguardar o resgate.
(Colaborou Lucas Altino)
