Laura tem 126 anos, um corpo jovem e nenhuma lembrança da vida antes de chegar àquele lugar. Trabalha em um cartório onde recebe pessoas que decidiram abrir mão da longevidade.
Precisa ouvir e registrar os motivos de cada uma. Seu próprio contrato, porém, a impede de fazer a mesma escolha.
É nesse mundo que se passa Cartório das Almas, ficção científica brasileira que estreia nos cinemas nesta quinta-feira, 29 de outubro. Escrito e dirigido por Leo Bello, com Gabriela Correa como protagonista, o longa foi filmado inteiramente em Brasília e chega ao circuito comercial com distribuição da Pandora Filmes.
Em 2023, a produção conquistou o prêmio de melhor longa-metragem pelo júri popular do Festival de Brasília, além dos Candangos de direção de arte e edição de som. Para Gabriela, interpretar Laura exigiu imaginar uma mulher cujo corpo deixou de acompanhar a passagem do tempo.
“Era como se ela tivesse parado de envelhecer aos 26, quase como se imagina um vampiro”, explica. A juventude preservada vem acompanhada de uma rotina de banhos que, segundo a atriz, neutraliza as sensações da personagem.
“Ela não sente nada, nem o tempo passar, e não tem lembranças da vida antes de chegar ali naquele lugar”. A origem dessa história está em uma experiência familiar do diretor.
Ainda adolescente, Bello acompanhou o fim da vida do avô, que enfrentava um câncer em estágio terminal, e as decisões sobre até onde prolongá-la. Fazer o filme foi uma maneira de revisitar aquele período.
“Essa experiência familiar me deu esse gatilho para desenvolver essa história e olhar para a morte”, relata. Durante a pesquisa, o cineasta também se interessou por notícias sobre investimentos de bilionários em biotecnologia para interromper o envelhecimento.
A possibilidade de uma existência indefinida o levou a questionar o sentido dessa busca. “O filme também vai contra esse movimento de viver a qualquer custo”, afirma.
Para Bello, a finitude participa do sentido da existência: “O que dá o sentido da vida é a morte”. A narrativa leva essa reflexão para dentro de uma instituição familiar aos brasileiros.
No cartório, decisões íntimas precisam ser explicadas e formalizadas. Laura cumpre as regras enquanto convive com uma restrição que não se aplica às pessoas que atende.
Inicialmente, a personagem está concentrada em obedecer e fazer tudo corretamente. A mudança começa nos encontros, quando as histórias que escuta passam a afetá-la.
“Ela começa a se questionar sobre si mesma, sobre o que poderia acontecer se ela voltasse a sentir tudo”, observa Gabriela. Para construir essa transformação, a atriz precisou controlar as reações, sobretudo no início.
A preparação com Larissa Mauro incluiu situações imaginadas pelo elenco para dar um passado às relações entre as personagens. “Isso não aparece no filme, mas ajuda muito os atores a imaginar e preencher a cena”, conta.
A Brasília do longa também reúne tempos diferentes. A arquitetura modernista aparece ao lado de objetos de várias décadas.
Bello encontrou na capital uma “ideia de futuro que ficou no passado”, incorporada à direção de arte. Entre a premiação e a estreia comercial, passaram-se três anos.
Segundo o diretor, a falta de recursos para o lançamento contribuiu para a espera. A parceria com a Pandora permitiu levar a produção independente às salas de cinema.
Onde assistir Em Brasília, Cartório das Almas está em cartaz no Cine Brasília e no Cinesystem Caixa Brasília.
Nesta quinta-feira (29), as sessões estão previstas para as 13h no Cinesystem e as 20h10 no Cine Brasília. O circuito de estreia inclui também Ananindeua (PA), Arapiraca (AL), Balneário Camboriú (SC), Florianópolis (SC), Maceió (AL), Paulista (PE), Porto Alegre (RS), Rio de Janeiro (RJ) e São Paulo (SP).
O filme tem 77 minutos e classificação indicativa de 14 anos. A programação atualizada e os ingressos podem ser consultados no Ingresso.com e nas bilheterias dos cinemas.
Brasil 247