Capital baiana ganha novas unidades da Caixa Cultural, no Pelourinho, e do CCBB, em prédio que já recebeu a Rainha Elizabeth

 

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"Espero que gente simples e de grana curta como eu possa frequentar”. A frase de Tiago Nascimento, jovem de 16 anos que, ao lado do pai, guarda carros na região do Pelourinho, resume bem o propósito de dois espaços culturais que estão prestes a abrir as portas em Salvador.

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Democratizar o acesso à arte é o conceito que norteia a chegada de novas unidades do Centro Cultural Banco do Brasil e da Caixa Cultural numa das capitais mais efervescentes do país — que anda cara pra xuxu, diga-se de passagem.

Uma coisa é certa: os equipamentos vão mexer com a já intensa programação artística da capital baiana e devolver a seus moradores duas joias arquitetônicas da cidade, que O GLOBO visitou.

Banquetes e velórios

De um lado, mais precisamente no bairro do Campo Grande, o CCBB restaura o suntuoso Palácio da Aclamação. Tombado pelo Instituto de Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (IPAC), em 2010, o imóvel funcionou como residência oficial dos governadores daquele estado de 1917 a 1967.

Foi sede de grandes decisões, banquetes e visitas — como a da Rainha Elizabeth, em 1968, que ganhou uma placa ainda hoje pendurada na parede. Também recebeu velórios de personalidades como os escritores Jorge Amado e Zélia Gattai e o político Antônio Carlos Magalhães.

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Vizinho ao icônico Teatro Vila Velha — berço da Tropicália e palco onde também surgiram Wagner Moura, Lázaro Ramos e o Bando de Teatro Olodum —, e do Passeio Público, o casarão de quatro mil e quinhentos metros quadrados tem árvores centenárias espalhadas pelo pátio e uma vista acachapante para a Baía de Todos os Santos.

Aliás, o muro que dá de frente para o mar será derrubado. Em seu lugar, haverá uma estrutura móvel que ligará o teatro que está sendo construído, com capacidade para 300 lugares, ao Passeio Público, integrando, assim, o palacete e a rua.

O novo CCBB também terá cinema para 100 pessoas, espaço para shows, área educativa, dois andares dedicados a exposições e um terraço com restaurante. Além da relevância histórica, o acesso fácil, com ponto de ônibus na frente e metrô próximo, foi um aspecto crucial na escolha do imóvel pelo CCBB, que ganhou a cessão do prédio do Governo do Estado por 30 anos.

No Pelô

Antigo Liceu de Artes e Ofícios abrigará nova unidade da Caixa Cultural

Divulgação

Cravada numa área de extrema vulnerabilidade no Pelourinho, o edifício onde funcionou o Liceu de Artes e Ofícios de 1874 a 2007 abrigará outra sede da Caixa Cultural. Ela ampliará as atividades do equipamento artístico do banco que já funciona na Av. Carlos Gomes.

Sob o teto do edifício de número 14 da Rua Guedes Brito, vizinho ao Museu da Misericórdia e ao Monumento da Cruz Caída, formaram-se centenas de marceneiros, carpinteiros e serralheiros no período da escravização. Agora, a Caixa pretende continuar essa história oferecendo cursos de formação artística e programação gratuita de cinema, teatro e exposições. Tudo isso num espaço de sete mil metros quadrados, que ocupa um quarteirão inteiro numa região um tanto abandonada.

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— Não tivemos medo nem pensamos duas vezes ao decidir aportar no Pelourinho. Estamos chegando para fazer a diferença e transformar a vida das pessoas ali. A gente acredita que a cultura é vetor de transformação social, que o ambiente cultural é um forte catalisador de economia criativa e isso vai fazer bem para a cidade e a população de Salvador — acredita Celmar Batista, gerente nacional de cultura e promoções da Caixa.

O estudos para as obras no local estão a todo vapor. A previsão é começar a primeira fase ainda nesse primeiro semestre e entregar galerias e salas para as oficinas até o final de 2026. Junto com isso, diz Batista, acontece o diálogo com a comunidade do entorno.

Detalhe da fachada do antigo Liceu de Artes e Ofícios, no Pelourinho

Divulgação

— Queremos que entendam que isso aqui pertence a ela. O ambiente cultural que a Caixa está disponibilizando é menos do banco e muito mais para a gente do nosso país usufruir. Queremos pensar junto porque ninguém faz arte sozinho.

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A cara do povo

A direção do CCBB Salvador, que deve ser inaugurado no segundo semestre deste ano, também quer que todas as tribos e classes sociais sintam-se donas do pedaço.

Área externa do Palácio da Aclamação

Divulgação

— O lugar é da cidade, as pessoas precisam ser convidadas a vir. A partir do momento em que entram, precisam se reconhecer, se enxergar. Para isso, a programação tem que refleti-las. Não adianta só estar aberto e ser gratuito. Muita gente olha tanto mármore e lustre de cristal e pensa: “É muito imponente, não é para mim” — observa Julio Paranaguá, gerente geral do CCBB.

A conversa com o público já começou. Em janeiro, o projeto Giro Conecta ocupou a área externa do palacete com shows de Mayra Andrade, Chico César, Jota Pê, entre outros. O banco também ocupou espaços parceiros com programação. Caso da exposição “Ancestral”, no Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira (Muncab); da mostra sobre o Teatro Vila Velha, no Museu de Arte Moderna (MAM); dos espetáculos “Fausto”, do Teatro Oficina, no Teatro Salesiano, e “Um Julgamento — depois do Inimigo do Povo”, com Wagner Moura, no Trapiche Barnabé.

— Elaboramos uma estratégia de ocupação para entender o território, dialogar com artistas e produtores. A Bahia tem uma cultura forte, vibrante em todas as áreas, com grandes nomes muito relevantes em vários períodos históricos. Queríamos chegar com calma, pisar nesse chão devagarinho — brinca Paranaguá.

Mês que vem, chega ao Museu de Arte da Bahia uma exposição com a obra de Ziraldo. Um edital de programação do CCBB, lançado no final do ano passado e que pela primeira vez incluiu a cidade de Salvador, teve recorde histórico de produções baianas, segundo Paranaguá: cinco projetos de artes cênicas; quatro de exposições; três de música; e três de cinema.

— Não seremos só mais um palco na cidade. A ideia é que projetos da Bahia também circulem por outros CCBBs. Isso é valoroso para os artistas e produtores daqui, uma forma de expandir os horizontes de apresentação de suas culturas — afirma Paranaguá. — A gente acredita também que o CCBB Salvador vai ser um grande polo não só para Bahia, mas para o Nordeste.

O desafio de ampliar o olhar sudestino e jogar luz sobre produções nordestinas é proposto por um baiano de Santo Amaro da Purificação.

— Para mim, é quase missão espiritual conduzir esse trabalho na minha terra. Daqui 20 anos, vou passar na porta e falar: “Caramba, eu contribuí”. Um centro cultural, quando chega, promove transformações profundas. Imagina a quantidade de gente que assiste a um espetáculo ou a um show e, a partir daí, decide seguir na cultura?