Campeã olímpica de vôlei em 2008, Mari diz que foi cortada da seleção em 2012 por rixa entre os técnicos José Roberto Guimarães e Bernardinho

 

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Um dos grandes nomes da seleção que ganhou a primeira medalha de ouro do vôlei feminino brasileiro em Olimpíadas, em Pequim-2008, Mari Steinbrecher viveu o céu e o inferno no esporte. Aposentada das quadras desde sua saída do Fluminense, em 2021, ela volta no tempo e revela o que considera o real motivo para ter sido cortada da equipe que disputaria os Jogos de Londres-2012 cinco dias antes do embarque. “Até hoje todo mundo acha que eu fui cortada por um problema técnico e não foi", disse ela em entrevista ao podcast Basticast, do app 365Scores.

Aos 42 anos, a ex-ponteira garante que não tem mais mágoa do técnico da seleção, José Roberto Guimarães, com quem chegou a cortar relações durante um período. No episódio, conta, ele foi "curto, grosso, rápido" ao dispensá-la do grupo.

—No dia do corte, eu estava voltando da lavanderia, ele me chamou e falou: "então, temos um problema, vamos ter que nos separar porque eu não confio em você". Aí eu falei: "tá bom, vou pegar minhas coisas. Posso ir embora?" Ele respondeu que sim e foi assim — lembra. — Eu entrei no quarto e falei que tinha sido cortada, ia arrumar minhas coisas para ir embora. Todo mundo veio chorando me abraçar, pegou todo mundo de surpresa.

Mari durante entrevista ao podcast Basticast

Divulgação

Segundo Mari, tudo aconteceu porque Zé Roberto não gostou de ela ter preferido continuar jogando no Rexona Unilever com Bernardinho ao invés de se transferir para o Fenerbahçe, da Turquia, para treinar com ele. Na ocasião, lembra, estava voltando de uma lesão e achou justo seguir no time carioca para disputar uma temporada inteira:

— Naquele ano (2010), eu tinha machucado o joelho, e estava jogando no Rexona Unilever. Joguei praticamente só a semifinal e a final. O Bernardo falou assim: "eu acho justo você ficar mais um ano aqui, e jogar o ano inteiro". Até porque eu recebi o ano inteiro. Eu falei que achava justo também. Nessa mesma época, o Zé estava indo para o Fenerbahçe, aí ele falou: "eu quero que você vá para o Fenerbahçe porque eu quero te treinar, ano que vem já é Olimpíada". Fiquei nesse impasse. Mas decidi ficar mais um ano no Rio, achei que ia ser bom para mim, e também estaria treinando com o Bernardo, elas por elas de treino, tudo certo, e o Zé não gostou disso.

A ex-jogadora conta que a relação dos dois azedou ali. E que uma conversa por telefone deu o tom do que aconteceria.

— Eu lembro que estava na Croácia de moto, parei para atender o telefone e era o Zé. Quando acabou a conversa, ele falou assim: "se você vai ter as suas preferências, na seleção eu vou ter as minhas também". Eu senti com um tom muito de ameaça. Foi muito ruim ouvir aquilo. Quando chegou na seleção, ele não falava comigo. Era aquele bom dia seco. Ele falava assim: "você tá fazendo o que aí na ponta? Vai lá atacar na saída, vai lá fazer o aquecimento na saída". Ele já me trocou de posição, já foi uma “sacanagem” ali. Ele poderia ter feito isso, mas não dessa forma — critica. — Ele também não tem o melhor relacionamento do mundo com o Bernardo, então, realmente não gostou que eu escolhi ficar com o Bernardo. Mas foi uma questão pessoal que ele não entendeu, e levou para o lado pessoal também. 

Para Mari, além da questão emocional, a justificativa que foi dada para o corte da seleção acarretou prejuízo financeiro. Ela reitera que "isso já está perdoado", mas que, naquele momento, o treinador "errou muito feio":

— Porque não foi um corte justo como ele falou: "ah, a Mari vai ser cortada porque ela está com problema técnico". Que problema técnico, gente? Eu era uma das jogadoras mais técnicas que ele tinha. Como ele vai dar uma desculpa dessa? O que acarretou na minha carreira depois disso foi muito ruim. Eu tive prejuízo financeiro, os times começaram a usar isso contra o meu contrato. Como é que você vai fazer 100% do seu contrato se o técnico da seleção falou que você está com problema técnico? Obviamente que o time vai querer pagar menos. Não conseguia mais fechar os contratos que eu fechava antes, me prejudicou em várias áreas.

Os dois voltaram a se falar por telefone em 2015, um pouco antes da Olimpíada do Rio. Ela confessa que até achou que ele fosse convocá-la novamente, mas além do desgaste da relação, seu momento não era realmente bom: tinha deixado o Neruda Volley, na Itália, que estava com cinco meses de salário atrasado, e ido para o Jakarta Pertamina Energi, da Indonésia, onde o campeonato é muito fraco. Hoje, passados quase 14 anos daquele traumático dia 10 de julho de 2012, quando foi cortada da seleção que, em Londres, ganharia o bicampeonato olímpico, ela fala com carinho do treinador.

— Eu acho que ele se arrepende. Da forma como veio falar comigo pessoalmente, da forma que me abraçou e falou: "você sabe que eu te amo". Foi em 2024, no hotel antes de um evento no Maracanãzinho. Eu estava sentada, ele cutucou meu ombro, aí eu falei: "oi, José, porque eu chamo ele de José brincando". O Zé foi fundamental na minha carreira, o cara que acreditou em mim, me colocou em tudo, que me fez acreditar que eu poderia ser uma ponteira. Ele falava todo dia para mim que eu tinha condição de ser a melhor do mundo todo ano.   

Atualmente morando em Santa Catarina, Mari mantém o mesmo peso de quando disputou os Jogos de Atenas-2004 (67kg e 1,90m). Trabalhando com educação, mas eternamente apaixonada pelo esportei, ela criou um projeto de vôlei para crianças de 7 a 13 anos e afirma que jogaria mais cinco anos se tivesse condições físicas.

—Tenho mais de 20 lesões na lombar. Vivo à base de remédio — lamenta.

Derrota traumática

Considerada uma das maiores revelações de sua geração, Mari chegou à seleção aos 21 anos, quando foi convocada pela primeira vez pelo técnico José Roberto Guimarães e disputou os Jogos de Atenas, em 2004. Apelidada de "mulher de gelo", por sua postura inabalável em quadra, especialmente em momentos decisivos, acabou virando a cara de uma equipe que chegou muito perto do primeiro pódio olímpico, mas deixou a medalha escorrer pelos dedos.

A partida que marcou para sempre a ponteira e também as experientes Fernanda Venturini e Virna, entre outras, aconteceu nas semifinais, quando o Brasil enfrentou a Rússia. Ganhando por 2 a 1, com 24 a 19 no terceiro set, a seleção teve cinco chances de fechar o jogo, mas não conseguiu. Mais acionada em quadra, Mari errou dois match points, e as russas levaram a disputa para o tie-break. No quinto set, foi dela o ataque para fora que deu a vitória e a vaga na decisão para as adversárias— que, na final, perderam o ouro para a China. Na disputa do bronze, a seleção foi derrotada por Cuba e terminou fora do pódio:

Mari chora entre Fernanda Venturini (à esquerda) e Fofão, após derrota para Rússia na sefiminal olímpica de 2004

Morry Gash/AP/26-08-2004

— Quando acabou e eu estava chorando, eu lembro do Zé colocar a mão no meu ombro e dizer: "você fez o que dava para fazer, não adianta ficar triste. A levantadora só vai colocar a bola para quem decide, e hoje quem estava decidindo era você. Tudo bem errar a última bola, tá tudo bem"’ Eu pensei: ‘tudo bem?!” É porque não foi você quem errou a última bola". Eu estava com vergonha, me sentindo um lixo, péssima, pior do mundo. Ele foi um cara que me deu um apoio que faltou naquele momento dentro da quadra.

Muito criticada e sob forte pressão, a seleção se redimiu oito anos depois. Em Pequim, a conquista do ouro olímpico tirou um peso dos ombros de Mari.

Mari e Paula Pequeno com a medalha de ouro conquista nos Jogos de Pequim

Ivo Gonzalez/23-08-2008

— Quando terminou, a sensação não era nem de felicidade, mas de alívio. Para mim era muito diferente ganhar uma Olimpíada do que para o resto do time. Eu tinha o peso de ter tacado a última bola para fora. As meninas não, ali era tudo alegria, vamos ganhar. Eu tinha isso, mas ainda tinha esse piano que eu tinha que soltar. Eu não respirava, eu era tensa, eu tinha muita carga energética. Tanto que sou a única que não chorou quando a gente ganhou a medalha — conta ela, que conquistou o título no dia do aniversário. —Lembro que uma semana antes da final, olhei o calendário e vi que a final caía no dia 23 de agosto. Aí pensei: "Meu Deus, no dia do meu aniversário. Isso é um presentinho de Deus para mim. Deus não vai sacanear". Aí eu tive mais certeza que a gente ia ganhar a Olimpíada. Imagina, no meu aniversário eu perder?