A campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) vê como uma das principais preocupações para a nova etapa da disputa presidencial o desempenho que o petista teve nos dois maiores colégios eleitorais do país, São Paulo e Minas Gerais. A equipe já trabalhava com uma derrota no primeiro turno em São Paulo, mas não esperava uma diferença tão ampla. Em Minas, a expectativa era, ao menos, levar a disputa para o segundo turno. Para integrantes da campanha, o resultado nos dois Estados representa um revés maior do que o previsto e reforça a necessidade de reorganizar a estratégia.
Diante desse cenário, uma das principais tarefas da campanha nos próximos 20 dias será ampliar a capilaridade de Lula nesses dois Estados. A estratégia é escalar figuras políticas com força local para manter a candidatura do presidente ativa e buscar ampliar a rede de apoios na reta final da eleição.
Em São Paulo, a aposta é aumentar a participação do vice-presidente Geraldo Alckmin e explorar sua interlocução com diferentes grupos políticos no Estado para ampliar os apoios à chapa. A estratégia remete ao movimento adotado em 2022, quando nomes como os economistas Edmar Bacha e Pedro Malan, ex-ministros da Fazenda de Fernando Henrique Cardoso; Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central; e Persio Arida, que também participou da formulação do Plano Real, declararam apoio a Lula.
Agora, porém, a intenção é que Alckmin, além de ampliar sua presença no Estado, algo que já ocorreu no primeiro turno, adote um discurso mais incisivo na disputa e faça críticas mais diretas ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), adversário de Lula no segundo turno.
Parte do PT vinha fazendo críticas à atuação mais discreta de Alckmin nesta eleição em comparação ao protagonismo que teve na chapa em 2022. Auxiliares do vice-presidente, porém, rebatem que sua principal missão desde o início da campanha era justamente atuar em São Paulo.
Ainda assim, Lula terminou o primeiro turno com quase 1 milhão de votos a menos no Estado em relação à eleição presidencial de 2022. O candidato do PT ao governo paulista, Fernando Haddad, também foi derrotado pelo atual governador, Tarcísio de Freitas (Republicanos).
Minas Gerais foi o segundo Estado onde o presidente mais perdeu votos, com cerca de 600 mil a menos do que no pleito anterior. O candidato Patrus Ananias (PT) foi derrotado por Cleitinho Azevedo (Republicanos) ontem.
Diante do resultado, Lula convocou candidatos que disputaram a eleição para uma reunião de alinhamento nesta tarde, em Brasília. A ex-prefeita de Contagem Marília Campos (PT), eleita para o Senado por Minas Gerais, participa do encontro.
Apesar da avaliação interna sobre os erros da campanha e a condução da corrida eleitoral, auxiliares defendem cautela na leitura do resultado. A orientação é analisar o cenário de forma fria e realista antes de promover mudanças mais amplas na estratégia, para evitar conclusões precipitadas a partir do desempenho do primeiro turno.
Parte da autocrítica feita pelo PT no “day after” também recai sobre a estrutura de campanha e, especificamente, sobre a distribuição de material físico. Diretórios estaduais e municipais relataram, ao longo da campanha, dificuldades para receber adesivos, bandeiras, santinhos e outros materiais de divulgação de Lula. Minas Gerais esteve entre os Estados onde houve queixas.
Como mostrou o Valor, petistas que atuaram nas ruas e dirigente estaduais e municipais reclamaram que a campanha concentrou esforços em peças para televisão e redes sociais e deixou em segundo plano os materiais físicos. Em Estados como Rio de Janeiro, Mato Grosso, Alagoas e Distrito Federal, apoiadores de Lula chegaram a lançar internamente a campanha “Quero um adesivo do Lula”, em uma cobrança à organização nacional pela distribuição de material.
Valor