O Cais do Valongo, no Rio de Janeiro, a Sociedade Protetora dos Desvalidos, em Salvador, e a Serra da Barriga, em União dos Palmares (AL), foram reconhecidos pela Unesco como lugares de memória relacionados à escravidão. Os três espaços passaram a integrar a Rede de Lugares de História e Memória Relacionados à Escravidão e ao Tráfico de Pessoas Escravizadas, iniciativa que busca promover a preservação desses locais, além de incentivar educação, pesquisa e cooperação internacional.
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"O governo brasileiro saúda a inclusão dos três lugares, que contribui para a preservação e a transmissão da memória da escravidão, o reconhecimento da resistência histórica da população negra e a educação das novas gerações", afirmou o Ministério das Relações Exteriores (MRE), em nota.
A candidatura dos três locais foi apresentada pelo MRE. Criada em 2024, no âmbito do programa Rotas dos Escravizados: Resistência, Liberdade e Patrimônio, da Unesco, a rede conecta espaços de diferentes países relacionados à história da escravidão e do tráfico de pessoas escravizadas.
Cais do Valongo Localizado na região portuária do Rio, o Cais do Valongo preserva vestígios de um dos principais pontos de desembarque de africanos escravizados nas Américas.
O local também integra, desde 2017, a Lista do Patrimônio Mundial da Unesco. O cais representa a dimensão do tráfico transatlântico e da violência da escravidão.
A inclusão na nova rede amplia o reconhecimento internacional do espaço como local de preservação da memória das vítimas e da história da população negra no Brasil. Sociedade Protetora dos Desvalidos
Em Salvador, a Sociedade Protetora dos Desvalidos é uma referência histórica de organização e solidariedade da população negra desde o século 19. Fundada em 1832 por Manoel Victor Serra e outros homens negros livres, é considerada a primeira instituição civil negra do Brasil em funcionamento contínuo.
A entidade surgiu em um contexto de resistência e organização coletiva da população negra e, segundo a própria instituição, sua trajetória dialoga com movimentos como as Revoltas dos Búzios, de 1798, e dos Malês, de 1835. Serra da Barriga
A Serra da Barriga, em União dos Palmares, abriga o Parque Memorial Quilombo dos Palmares e guarda a memória do Quilombo dos Palmares, um dos principais símbolos da resistência à escravidão no Brasil. A região faz parte do patrimônio da União desde 1988.
Para o historiador Ivanir dos Santos, a inclusão dos três locais representa uma oportunidade de questionar narrativas tradicionais sobre a formação da sociedade brasileira e reconhecer o protagonismo da população negra na construção da história do país. — Esses patrimônios também estão diretamente relacionados à trajetória histórica do movimento negro brasileiro, cuja atuação tem sido fundamental para denunciar o racismo, reivindicar direitos, combater o apagamento da memória afro-brasileira e exigir o reconhecimento da contribuição da população negra para a sociedade — afirmou.
Educação e memória Segundo Marlova Jovchelovitch Noleto, diretora e representante da Unesco no Brasil, a rede pretende conectar lugares de diferentes países e estimular o intercâmbio de experiências, a cooperação internacional e o desenvolvimento de iniciativas de educação, pesquisa e valorização da memória.
A organização também pretende envolver as comunidades locais na preservação e nas atividades relacionadas aos espaços. Para Noleto, o reconhecimento internacional contribui para transmitir essa memória às novas gerações e compreender os efeitos duradouros da escravidão, incluindo o racismo estrutural e as desigualdades que permanecem nas sociedades contemporâneas.
— É uma maneira de transformar lugares de memória em espaços vivos de conhecimento, diálogo intercultural e promoção dos direitos humanos — afirmou. No Brasil, a apresentação das candidaturas à rede é coordenada pelo Ministério das Relações Exteriores.
Além dos três novos locais, já fazem parte da iniciativa o Museu da Inconfidência, em Minas Gerais, e os Museus Casa da Hera e da República, no Rio de Janeiro. Para Ivanir dos Santos, o reconhecimento não deve se limitar à dimensão simbólica ou institucional.
Segundo o historiador, é necessário associá-lo a políticas de preservação, educação antirracista e participação das comunidades negras na gestão e na interpretação desses lugares. — A proteção desses patrimônios contribui para democratizar a memória coletiva, confrontar o racismo estrutural e reafirmar o papel histórico do movimento negro na construção de uma sociedade mais justa, plural e comprometida com a reparação das desigualdades produzidas pela escravidão e por seus desdobramentos históricos — afirmou.
(Com Agência Brasil)
O Globo