Cães farejadores de lítio: como a polícia encontrou ninho de celulares roubados em prédio no centro de SP

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

Há tempos não é novidade que celulares roubados em São Paulo acabavam em um endereço na Rua Guaianases, no centro da capital paulista. O local era conhecido como um “ninho” desses aparelhos, e geralmente constava como a última localização deles informada às vítimas. O problema era descobrir onde, exatamente, eles estavam. O rastreamento costumava indicar o edifício, mas não o apartamento, e as autoridades não podiam fazer buscas indiscriminadas. Foi nesse ponto que cães treinados para farejar o lítio da bateria entraram em cena e ajudaram a autorizar as buscas. A técnica foi usada nesta quinta-feira, durante a Operação Frankmobile, que mobilizou mais de 1.700 agentes da Polícia Civil, Polícia Militar, Polícia Penal, Ministério Público de São Paulo (MPSP), Secretaria da Segurança Pública e Secretaria da Fazenda. A investigação, que durou cerca de dois anos, mira a cadeia de receptação e transformação de celulares furtados e roubados. — A gente sabe qual é o prédio, mas não sabe qual é o apartamento. O que nós conseguimos foi uma medida inovadora, que não é uma busca coletiva, mas uma busca permitindo a identificação no local — afirmou o segundo o procurador de Justiça Luiz Fernando Bugiga, responsável pela investigação no Ministério Público. Os cães foram usados justamente para individualizar as buscas. Além de informações obtidas durante a investigação e do trabalho de campo, os animais indicavam a possível presença de celulares em determinadas unidades dos prédios. A partir desses elementos, os policiais podiam justificar a entrada em cada apartamento. Segundo o Ministério Público, a autorização obtida não permitia simplesmente entrar em todos os apartamentos de um prédio sem uma justificativa específica. Em um edifício com 13 unidades, por exemplo, os agentes poderiam entrar em todas elas somente se encontrassem elementos objetivos que justificassem cada busca. A estratégia ajudou a localizar aparelhos que, segundo os investigadores, haviam sido roubados ou furtados poucos dias antes e já estavam nas mãos de receptadores. A investigação identificou uma cadeia dividida em diferentes etapas. Na primeira, estão os criminosos que furtam ou roubam os aparelhos. Em seguida aparecem os receptadores que recebem os celulares, principalmente em pontos concentrados no centro da capital paulista. Depois, entram em cena grupos especializados em modificar tecnicamente os aparelhos. Por fim, os celulares e suas peças voltam ao mercado. Uma das descobertas consideradas mais relevantes pelos investigadores foi a velocidade com que os aparelhos podiam ser modificados. Segundo as autoridades, criminosos conseguiam remover vínculos entre o celular e o antigo proprietário, alterar o IMEI associado ao aparelho e modificar componentes para dificultar a identificação da origem. O IMEI é a sigla para International Mobile Equipment Identity (Identidade Internacional de Equipamento Móvel, em tradução livre). Um número único que identifica o aparelho celular e funciona como uma espécie de “RG” do telefone. O governador Tarcísio de Freitas afirmou que, em alguns casos, o procedimento levava poucos minutos. — O celular é vendido, às vezes, em uma plataforma importante, e nem as pessoas da plataforma, nem as pessoas comprando sabem que aquele celular é produto de roubo. Porque ele ganhou uma nova identidade, ele ganhou um novo número de IMEI — disse. A alteração também afetava uma das principais ferramentas utilizadas pelas vítimas para tentar recuperar o aparelho. Mensagens ou alertas enviados ao celular poderiam deixar de chegar ao antigo proprietário porque o dispositivo já estava associado a outro IMEI. A comparação usada pelo governador foi com um automóvel que recebesse um novo número de chassi. — Era um pouco isso que estava acontecendo com essas quadrilhas, que são extremamente especializadas — afirmou. Para as autoridades, inclusive, o negócio ficou mais lucrativo que o desmonte de carros, devido ao valor das peças e a facilidade de transporte. Segundo o Ministério Público, componentes de celulares furtados ou roubados eram misturados a peças de aparelhos usados que chegavam às assistências técnicas por meios regulares. A falta de rastreabilidade permitia que componentes de diferentes origens fossem comercializados ou instalados em outros aparelhos. O Ministério Público afirmou ainda que foram pedidos bloqueios patrimoniais que chegam a R$ 475 milhões. A Secretaria da Fazenda informou que as inscrições estaduais das 18 empresas alvo da operação foram suspensas. O governo pretende iniciar os procedimentos para cassar os registros dessas empresas Ao todo, foram expedidos 84 mandados de busca e apreensão e sete de prisão. As sete prisões inicialmente determinadas pela Justiça foram cumpridas, segundo a Polícia Civil. Outros flagrantes e prisões de procurados elevaram para 15 o número de pessoas presas durante a operação.

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