Bullying no esporte não é só coisa de escola: adultos também sofrem

Bullying no esporte não é só coisa de escola: adultos também sofrem - Foto
Fonte da notícia: Olimpiada Todo Dia Olimpiada Todo Dia

Quando se fala em bullying, é comum pensar imediatamente no ambiente escolar e em crianças ou adolescentes. Mas o problema não desaparece quando a pessoa chega à vida adulta. Clubes, equipes, academias e outros ambientes esportivos também podem reproduzir comportamentos de humilhação, exclusão e intimidação.

SIGA O OTD NO WHATSAPP, YOUTUBE, TWITTER, INSTAGRAM, TIK TOK E FACEBOOK

Um levantamento realizado pelo DCU Anti-Bullying Centre, na Europa, ajuda a dimensionar a questão. Entre 156 jogadores adultos e 312 treinadores entrevistados na Suécia, Irlanda, Espanha e Alemanha, 31,4% dos jogadores e 20,2% dos treinadores disseram já ter sofrido bullying no esporte. A pesquisa envolveu participantes com mais de 18 anos e diferentes modalidades.

O dado não representa a realidade de todos os praticantes nem permite estimar a situação no Brasil. Mas mostra que o bullying também pode fazer parte da experiência esportiva de adultos.

Mais sobre treinoBem-Estar Todo DiaSão Silvestre 2026: como se preparar para os 15 kmBem-Estar Todo DiaAgachamento na parede: como fazer e benefícios do exercícioBem-Estar Todo DiaÁlcool e treino: como a bebida pode atrapalhar sua recuperaçãoBem-Estar Todo DiaPor que o calor faz seu treino parecer muito mais difícil?

O bullying pode aparecer de várias formas

No levantamento, os jogadores adultos relataram principalmente situações como receber apelidos ofensivos, ser alvo de rumores e ser excluído do grupo. Entre os episódios atribuídos a treinadores apareceram especialmente a exclusão proposital e o uso de nomes ou termos ofensivos.

O problema também pode acontecer com os próprios treinadores. Eles relataram situações de exclusão e rumores espalhados por outros treinadores, além de episódios envolvendo pais, atletas e adversários.

Outro dado chama atenção: entre os participantes que sofreram bullying, 37,5% dos jogadores e 24% dos treinadores não contaram a ninguém o que havia acontecido.

Isso ajuda a explicar por que determinados comportamentos podem permanecer escondidos durante muito tempo.

Quando a “brincadeira” deixa de ser brincadeira?

Nem toda provocação no esporte é bullying.

Uma piada isolada entre amigos, uma crítica técnica ou uma cobrança relacionada ao desempenho não devem ser automaticamente classificadas dessa maneira.

A legislação brasileira define bullying como um ato de violência física ou psicológica intencional e repetitivo, praticado por uma pessoa ou grupo com objetivo de intimidar ou agredir e que provoque humilhação, dor ou angústia em uma relação de desequilíbrio de poder.

Por isso, alguns sinais merecem atenção:

a situação se repete;

uma pessoa é escolhida como alvo;

existe tentativa de isolá-la do grupo;

apelidos ou comentários ofensivos se tornam frequentes;

há humilhação relacionada ao corpo ou à aparência;

erros esportivos são usados para ridicularizar alguém;

existe diferença de poder entre quem pratica e quem sofre a agressão;

a pessoa começa a evitar treinos, jogos ou o próprio ambiente esportivo.

O contexto é fundamental.

O corpo também pode virar alvo

O levantamento europeu encontrou tipo e peso corporal como os motivos mais citados para fazer participantes se sentirem excluídos, desconfortáveis ou inseguros dentro do clube: 22,3% entre jogadores e 17% entre treinadores.

Entre os jogadores, também foram relatados comentários de outros atletas relacionados à imagem corporal e à orientação sexual. Já comentários negativos feitos por treinadores ou outros adultos estavam frequentemente relacionados ao desempenho, ao peso e à identidade de gênero.

Esse tipo de comportamento pode ser especialmente problemático em ambientes nos quais aparência e desempenho já recebem muita atenção.

A crítica esportiva pode fazer parte da atividade. Humilhar uma pessoa, porém, é outra coisa.

O problema pode afastar o adulto do esporte

Um dos aspectos mais preocupantes é que a experiência negativa pode atingir justamente uma das razões pelas quais muitas pessoas procuram o esporte: o desejo de se movimentar, conviver e fazer algo prazeroso.

No estudo europeu, 5,9% dos jogadores e 3,1% dos treinadores que participaram da pesquisa disseram ter faltado a sessões de treinamento para evitar situações de bullying.

Entre atletas profissionais, uma pesquisa com 708 participantes encontrou associação entre experiências de bullying e menor satisfação de necessidades psicológicas básicas relacionadas à autonomia, competência e pertencimento.

Isso é relevante porque o esporte pode deixar de ser percebido como um espaço em que a pessoa se sente capaz e parte de um grupo.

Em vez de pensar:

“Vou ao treino porque gosto.”

ela pode começar a pensar:

“Preciso ir ao treino e enfrentar aquelas pessoas.”

O silêncio também é parte do problema

Mesmo quando alguém percebe que está sendo alvo, denunciar pode ser difícil.

No levantamento europeu, apenas 14,2% dos jogadores disseram ter comunicado a própria experiência de bullying a um treinador, responsável ou integrante do clube. Entre os treinadores, 39,5% relataram seus episódios à administração.

O receio pode estar relacionado ao próprio ambiente esportivo.

Um atleta pode depender daquele grupo para competir. Um praticante recreativo pode ter medo de ficar isolado. Um treinador pode não querer entrar em conflito com colegas ou dirigentes.

Além disso, existe uma cultura esportiva em alguns ambientes que trata humilhações como parte da formação ou entende que uma pessoa precisa “aguentar pressão” para provar que é forte.

Mas uma crítica construtiva e uma agressão repetida não são a mesma coisa.

O que a lei brasileira diz?

Desde julho de 2024, o combate ao bullying passou a fazer parte expressamente da Lei Geral do Esporte.

A Lei 14.911 alterou o artigo 9º da Lei Geral do Esporte para determinar que, em todos os níveis e serviços da prática esportiva, sejam adotadas medidas de conscientização, prevenção e combate ao bullying. A norma também estabelece uma definição legal para a prática.

O Ministério do Esporte destacou, na época da sanção, que a medida alcança o esporte em diferentes níveis e prevê ações educativas e de conscientização.

Isso significa que o assunto não deve ser tratado apenas como um problema individual entre duas pessoas.

Clubes, equipes, academias e outras organizações esportivas também têm responsabilidade na criação de ambientes seguros e respeitosos.

O que fazer quando isso acontece?

O primeiro passo pode ser reconhecer que não é necessário aceitar uma situação de humilhação repetida como parte obrigatória do esporte.

Se for seguro fazer isso, a pessoa pode registrar os episódios e procurar alguém responsável pelo ambiente esportivo: treinador, coordenador, direção, comissão técnica ou outro canal formal existente na organização.

Também pode ser importante conversar com alguém de confiança fora daquele ambiente.

Se o comportamento envolver ameaça, agressão física ou outra situação de violência, a prioridade deve ser a segurança e a busca de ajuda adequada.

Para quem presencia o bullying, o silêncio também pode contribuir para que o comportamento continue. O estudo europeu mostrou que metade dos treinadores participantes havia presenciado algum episódio de bullying envolvendo treinadores, pais ou jogadores.

Interromper a situação de maneira segura, apoiar a pessoa atingida e comunicar o caso pelos canais disponíveis são atitudes que podem ajudar.

Esporte deve ser espaço de pertencimento

O esporte pode proporcionar movimento, lazer, amizade e sensação de pertencimento. Mas esses benefícios dependem também do ambiente em que a atividade acontece.

O bullying pode atingir crianças, adolescentes e adultos, atletas profissionais e praticantes recreativos, jogadores e treinadores.

Por isso, chegar à vida adulta não significa deixar esse problema para trás.

A diferença é que, no caso dos adultos, a solução também passa por reconhecer que ninguém precisa aceitar humilhação, exclusão ou intimidação como preço para fazer parte de uma equipe.

Um treino pode ser difícil.

Uma competição pode ser exigente.

Uma crítica pode ser necessária.

Mas o ambiente esportivo não precisa ser hostil para ser competitivo.

E, quando a prática deixa de ser um lugar de saúde, lazer e convivência para se transformar em fonte constante de medo ou humilhação, o problema não está na pessoa que decidiu procurar o esporte.

Está no ambiente que deixou de cumprir seu papel.

O post Bullying no esporte não é só coisa de escola: adultos também sofrem apareceu primeiro em Olimpíada Todo Dia.

Compartilhar: WhatsApp Facebook Telegram X

Deseja ler a íntegra original na fonte jornalística?

Acessar matéria no site Olimpiada Todo Dia