Os 11 países-membros do Brics, entre eles China, Rússia, Irã, Brasil e Índia, pediram calma no Oriente Médio em uma declaração conjunta divulgada neste sábado, no primeiro dia da cúpula do bloco de potências emergentes em Nova Délhi. Ao abrir a reunião, o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, anfitrião do evento, afirmou que o grupo havia atingido a maturidade e que era hora de traduzir sua unidade e consenso em resultados concretos no cenário global. "Expressamos nossa profunda preocupação com a escalada contínua das tensões no Oriente Médio/Ásia Ocidental e (...) pedimos a máxima prudência, além de evitar ações que possam agravar ainda mais a situação", afirma o comunicado. Contexto: Putin chega à Índia para cúpula do Brics marcada por tensões; Lula enviará Mauro Vieira Quer morar fora? Veja guia interativo com informações sobre 36 países Quer mais notícias de Mundo? Acompanhe o canal no WhatsApp Às margens do encontro, o presidente do Irã, Masud Pezeshkian, afirmou que a região "não precisa de um policial", em referência aos Estados Unidos, país que entrou em guerra com Teerã no último dia de fevereiro. Em retaliação, a República Islâmica bloqueou o Estreito de Ormuz, por onde, antes da guerra, transitava cerca de 20% do petróleo e do gás natural liquefeito consumidos no mundo. O controle da via tornou-se desde então um dos principais pontos de atrito do conflito.
— Não precisamos de um policial na região. A integridade territorial e a segurança regional só poderão ser garantidas por seus principais atores e pelos países que a integram — disse Pezeshkian, durante encontro com o primeiro-ministro da Malásia, Anwar Ibrahim. — Apesar de todas as injustiças sofridas por nosso povo, não desejamos a guerra nem seu prolongamento. A paz continua sendo nossa prioridade — acrescentou o presidente. Na cúpula, o presidente da China, Xi Jinping, disse que a guerra no Oriente Médio não atende aos "interesses comuns" da comunidade internacional. — À medida que a situação no Oriente Médio e no Golfo continua evoluindo, a guerra ali causou graves perdas aos povos da região. A presença do líder chinês é um dos destaques desta cúpula. Ele desembarcou na capital indiana neste sábado pela primeira vez desde 2019. A visita tem valor simbólico diante do histórico recente entre os dois países. Em 2020, soldados chineses e indianos se enfrentaram na disputada fronteira do Himalaia, em um confronto que deixou dezenas de mortos. Desde então, Pequim e Nova Délhi buscam reconstruir gradualmente o diálogo bilateral, embora o impasse territorial permaneça sem solução. Além deles, participam da cúpula o russo Vladimir Putin, entre outros líderes do bloco. Nova Délhi, que mantém fortes laços com os EUA, Rússia, Israel, Irã e os Estados árabes do Golfo, está envolvida em um delicado jogo de equilíbrio diplomático, com Modi pressionando o bloco a impulsionar a cooperação comercial, reduzir barreiras e expandir as oportunidades de negócios. — Ao mesmo tempo que fortalecemos o Brics, também devemos determinar a direção da reforma global — disse Modi antes da cúpula. — Hoje, o Sul Global está na linha de frente quando se trata de crises, mas na retaguarda quando se trata de tomada de decisões. Temos que transformar essa pirâmide e esse privilégio em uma plataforma de parceria, onde cada país tenha voz. Ouvidos pela agência Reuters, especialistas afirmaram que a cúpula, que busca superar as divisões entre o Irã e os Emirados Árabes Unidos sobre o conflito no Golfo, tem como desafio encontrar uma linguagem sobre a crise no Oriente Médio que seja aceitável tanto para Abu Dhabi quanto para Teerã.
Para eles, essa declaração conjunta provavelmente não vai influenciar o atual cenário geopolítico, mas demonstra a unidade de um grupo de nações emergentes contra políticas economicamente debilitantes, como as sanções ocidentais. Em maio, por exemplo, os membros do Brics não conseguiram emitir uma declaração conjunta, devido às divergências entre o Irã e os Emirados Árabes Unidos. Com AFP
O Globo