Mais de 46 mil pessoas foram expulsas de suas casas no Iêmen depois da escalada de conflito entre os rebeldes Houthis – aliados do Irã – e o governo local iniciada na semana passada e que culminou com a tomada da ilha de Perim e do estratégico Estreito de Bab el-Mandeb nesta sexta (11). A estimativa é da Organização Internacional para as Migrações, agência das Nações Unidas.
Pelo menos 14 civis, incluindo duas crianças, foram mortas ou feridas desde o início do mês, informou ainda o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários. Já a Organização Mundial de Saúde registrou 67 mortos e 288 feridos durante o perído de aumento das tensões de 6 a 24 de agosto, em sete províncias. Os números também aumentam a cada hora, alertou a OIM. "Famílias estão sendo forçadas a fugir pela segunda ou terceira vez neste conflito, com quase nada restando. À medida que o conflito se espalha, alcançar as pessoas com assistência que pode salvar vidas está se tornando mais difícil", alertou Amy Pope, diretora-geral da OIM, em comunicado. Houthis conquistam cidade estratégica e ilha no Iêmen Arte/ O GLOBO Vilarejos inteiros ficaram esvaziados em três distritos em Taiz: Maqbanah, Jabal Habashi e Al Ma’afer. Ainda segundo o órgão da ONU, a estrada que liga Mokha a Taiz, uma rota vital de abastecimento, foi interrompida e as famílias da região se veem sob cada vez mais pressão. Muitos desabrigados têm se dirigido às províncias de Lahj e Aden, embora já haja um fluxo rumo ao norte, em Ibb. A ONU fez um apelo a ambos os lados do conflito, de que garantam a passagem de agentes humanitários, socorristas e protejam civis, diante da crise. A situação na cidade portuária de Mokha preocupa a OIM. Não só muitos de seus moradores fugiram no meio da noite com poucos pertences para escapar da tomada da cidade pelos Houthis, como os rebeldes teriam ocupado um importante complexo humanitário nesta sexta, com todos os seus recursos.
Apesar de todos os funcionários da ONU que trabalhavam no local terem conseguido deixar o local antes da invasão dos Houthis, a organização destaca que este é um trabalho importante de assistência a pessoas vulneráveis – que não poderia ser interrompido especialmente durante conflito, quando mais precisam. EUA não estão interessados no Iêmen no momento Apesar de o Estreito de Bab el-Mandeb ser um importante corredor marítimo de comércio, similar a Ormuz, sua tomada pelos Houthis não parece preocupar muito Washington por enquanto. Com as posições insulares e o domínio dos principais portos iemenitas, os Houthis posicionaram-se de maneira mais incisiva para cumprir a promessa de bloquear Bab el-Mandeb no que diz respeito à passagem de petroleiros sauditas – aliados dos EUA. O grupo já vinha atacando navios vinculados a Riad com o auxílio de drones e outros projéteis, mas o domínio do terreno criou novas alternativas.
No entanto, em pronunciamento nesta sexta, uma liderança do grupo rejeitou um fechamento completo da rota, o que pode ter influenciado o gabinete de Trump. A Casa Branca ofereceu assistência "significativa" de inteligência e estratégia para a Arábia Saudita, mas não planeja lançar ataques militares diretos contra os Houthis, segundo dois oficiais do governo ouvidos pela ABC News nesta sexta (11). Imagem divulgada pelos Houthis em 7 de setembro mostra ataque com míssil contra caminhões que transportavam equipamentos militares da Arábia Saudita para o acampamento militar de al-Wadiah, no Iêmen ANSARULLAH MEDIA CENTRE / AFP Ambos ponderaram, contudo, que a posição do governo de Trump pode mudar, especialmente se a ameaça às rotas comerciais do Mar Vermelho aumentar. Ou seja, se o fechamento se tornar completo, Washington pode entrar no conflito. O Almirante Brad Cooper, comandante do Comando Central das Forças Armadas dos EUA, viajou à Arábia Saudita para reuniões na quinta, revelou ainda uma das fontes à ABC. No entanto, o príncipe herdeiro saudita, Mohammad bin Salman, teria conversado com Trump duas vezes no dia pedindo justamente aquilo que os EUA se recusaram a fazer até aqui: uma intervenção militar direta na região.
Apesar de bin Salman não ter, supostamente, indicado que a entrada dos EUA no conflito era essencial, o governo saudita comunicou aos americanos nos últimos dias que está disposto a lançar uma grande operação militar contra os Houthis – mesmo que sozinhos. A decisão final não foi tomada até o momento. Os EUA estariam monitorando a situação. Caso optem por atacar os Houthis, aliados do Irã, a guerra americana poderia se espalhar ainda mais pelo Oriente Médio, causando uma dor de cabeça para Trump – já que os estoques de armas e munições do Pentágono estariam baixos justamente porque a guerra rápida imaginada por Washington contra Teerã já se arrasta há sete meses.
O Globo