Brasília deu 70% a Bolsonaro em 2018 e resistiu a Lula em 2026

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Fonte da notícia: Cafezinho Cafezinho

Flávio Bolsonaro (PL) venceu no Distrito Federal com 54,28% dos votos válidos no segundo turno, contra 45,72% de Lula (PT). É a capital mais bolsonarista do país — e, ao mesmo tempo, a que registrou um dos maiores avanços do PT em três eleições: o partido passou de 30,01% em 2018 para 45,72% em 2026.

No primeiro turno, a distância era bem maior. Flávio teve 51,31% (909.616 votos) contra 38,11% (675.627) de Lula, uma frente de 233.989 votos — 13,20 pontos.

Entre um turno e outro, Lula cresceu 7,61 pontos na capital, enquanto Flávio avançou 2,97. A redução da margem não impediu a vitória do candidato do PL, mas mudou o tamanho do reduto.

Brasília tem cerca de 2,8 milhões de habitantes e 2,25 milhões de eleitores — o 20º maior colégio do país. É a única capital sem prefeito: o Distrito Federal é administrado pelo governador, e não há eleição municipal.

Quem governa hoje é Celina Leão (Progressistas), reeleita no segundo turno com 57,18% (987.142 votos) contra Leandro Grass (PT), que teve 42,82% (739.130). Ela é a primeira mulher eleita diretamente para o governo do DF.

A vice é Gustavo Rocha (Republicanos). Celina assumiu o Palácio do Buriti em março de 2026, quando Ibaneis Rocha (MDB) renunciou para disputar o Senado.

Ibaneis desistiu da candidatura em julho, no rastro da crise da compra do Banco Master pelo BRB, e a governadora se afastou dele durante a campanha. No primeiro turno, ela ficou a 1.089 votos de vencer sem segundo turno.

Do 70% de 2018 ao avanço de 15 pontos A série histórica do Distrito Federal é a mais dramática do país.

Em 2018, Jair Bolsonaro venceu ali com 69,99% (1.080.411 votos) contra 30,01% de Fernando Haddad (463.340) — um massacre de 40 pontos. Em 2022, a margem caiu para 17,6 pontos: Bolsonaro 58,8% (1.041.331) contra 41,1% de Lula (729.295).

Em 2026, ficou em 8,6 pontos. A Esplanada dos Ministérios à noite: a capital concentra o funcionalismo, o Congresso e o TSE.

Foto: Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0. O dado curioso é que o avanço petista no DF foi o maior do país entre 2018 e 2022, e continuou em 2026.

Lula chegou a 45,72%, o melhor desempenho da esquerda na capital desde 2010, quando Dilma Rousseff teve 47,19%. Em votos absolutos, o PT saltou de 463 mil para 729 mil e, agora, para mais de 800 mil na capital.

A explicação está no perfil da cidade. Brasília concentra o funcionalismo público federal, que historicamente vota à esquerda em parte dos setores, e um entorno com cidades-satélites de renda mais baixa e forte presença evangélica e conservadora.

O PT cresce nos servidores e nos bairros de classe média do Plano Piloto; o bolsonarismo domina as satélites e a classe média alta do Lago Sul e do Sudoeste. Um dado pouco notado ajuda a explicar o resultado.

Os dois candidatos perderam votos em relação a 2022 na comparação entre primeiros turnos: Flávio teve 909.616 em 2026, contra 1.041.331 de Jair Bolsonaro no segundo turno de 2022 — 131 mil a menos. Lula caiu de 729.295 para 675.627, uma perda de 53 mil.

Como o eleitorado do PT perdeu menos e a abstenção recorde de 19% no primeiro turno atingiu mais os redutos bolsonaristas, o percentual petista subiu mesmo com menos votos absolutos. As 21 zonas: Asa Norte e Asa Sul contra o resto

No primeiro turno, Lula venceu em apenas duas das 21 zonas eleitorais do DF: Asa Norte, com 49,85%, e Asa Sul, com 45,86%. Flávio ganhou as outras 19.

O melhor resultado absoluto do candidato do PL veio de Águas Claras, com 70.382 votos e 51,29%. A abstenção no primeiro turno foi a maior da história do DF, 19% — e caiu no segundo, sinal de que a disputa polarizada levou mais gente às urnas.

No segundo turno, esse movimento se completou: Lula cresceu 7,61 pontos, quase o triplo do avanço de Flávio (2,97), e a diferença caiu de 13,2 para 8,6 pontos. Não foi o suficiente para virar o DF, mas mudou a geografia do voto na capital — o PT passou a disputar zonas do Gama, de Taguatinga e de Ceilândia que, em 2018, eram território de vitória folgada do bolsonarismo.

A capital é também o centro da política que decide o país. Foi em Brasília que Flávio protocolou a ação de cassação da chapa eleita no Tribunal Superior Eleitoral, e é no Congresso que o PL articula a bancada de oposição ao novo mandato.

A cidade que deu 70% a Bolsonaro em 2018 continua sendo o quartel-general do bolsonarismo — mas, eleição após eleição, vê a vantagem encolher. Há uma curiosidade institucional que ajuda a ler o mapa: o Distrito Federal é a única unidade da federação sem municípios, dividido em 21 zonas eleitorais que agrupam o Plano Piloto e as cidades-satélites.

Isso faz da capital um laboratório eleitoral do país: ela concentra, em 5,8 mil quilômetros quadrados, o funcionalismo de renda média, a periferia das satélites e a classe alta do Lago Sul — três eleitorados que votam de formas distintas e que, juntos, antecipam o resultado nacional.

O Congresso Nacional, onde o PL articula a bancada de oposição ao quarto mandato de Lula. Foto: Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0.

Na noite da apuração, Brasília foi o centro dos acontecimentos: governadores aliados de Flávio, como Tarcísio de Freitas e Ricardo Nunes, acompanharam a contagem na capital, e foi dali que o candidato do PL saiu para anunciar que contestaria o resultado. A cidade que abriga o TSE e o Congresso virou o palco seguinte da disputa — primeiro com o pedido de cassação da chapa, depois com a articulação da bancada de oposição no Legislativo.

O contraste com o resultado nacional é o retrato do país dividido: Lula venceu em 13 estados e no exterior, perdeu no DF e nas capitais do Centro-Oeste, mas reduziu a diferença em todas. Brasília é o símbolo mais claro desse movimento — um reduto que resiste, mas já não é inexpugnável.

Publicação Original Cafezinho ocafezinho.com
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