247 – O Brasil viveu uma das maiores tragédias sanitárias de sua história durante o governo de Jair Bolsonaro. Enquanto a Covid-19 avançava pelo país, provocando milhares de mortes, o então presidente minimizava a gravidade da doença, questionava medidas de proteção, demorava a fechar contratos para a aquisição de vacinas e chegou a imitar pessoas com dificuldades respiratórias. Nesse mesmo período, seu filho, o senador Flávio Bolsonaro (PL), participou de uma festa em uma lancha com garotas de programa, organizada por empresários interessados em fechar negócios com o governo federal, segundo reportagem publicada pela revista piauí.
A investigação da piauí revela que, em 17 de julho de 2020, Flávio Bolsonaro participou de um passeio no Lago Paranoá, em Brasília, acompanhado de três garotas de programa, do empresário Danilo Berndt Trento e de Alexandre Santini, amigo do senador. Trento era diretor institucional da Precisa Medicamentos, empresa envolvida nas negociações da vacina indiana Covaxin. Segundo a revista, ao final do encontro, o empresário presenteou Flávio com um relógio Rolex.
Naquele momento, o Brasil já havia registrado 76.822 mortes por Covid-19. Apenas em 16 de julho de 2020, véspera do passeio, foram contabilizados 1.299 óbitos. No dia da festa, o país registrou outras 1.110 mortes, segundo os dados do consórcio de veículos de imprensa citados pela publicação.
Festa na lancha em meio à pandemia
De acordo com a piauí, os empresários Danilo Trento e Francisco Maximiano, proprietário da Precisa Medicamentos, organizaram a viagem de São Paulo a Brasília em um jato executivo Embraer Phenom 300. A bordo estavam também o agente de viagens Raphael Barão e três garotas de programa.
O grupo chegou à capital federal na noite de 16 de julho de 2020. Na manhã seguinte, as mulheres e Danilo Trento embarcaram em uma lancha no Lago Paranoá, onde receberam Flávio Bolsonaro e Alexandre Santini.
A reportagem afirma que, durante o passeio, Flávio desceu à cabine da embarcação acompanhado de uma das mulheres e, posteriormente, de outra. A revista sustenta a reconstituição do episódio em depoimentos, registros de voos e documentos obtidos por comissões parlamentares de inquérito.
Ao final da festa, segundo a investigação, Danilo Trento retirou um relógio Rolex do próprio pulso e o colocou no braço do senador, que deixou a embarcação usando o presente.
O episódio ganha relevância pública pela relação dos organizadores com interesses comerciais junto ao governo federal, especialmente no setor de vacinas.
Governo Bolsonaro demorou a comprar vacinas
Enquanto encontros privados desse tipo aconteciam em Brasília, o Brasil enfrentava dificuldades para garantir o acesso antecipado a imunizantes contra a Covid-19.
A farmacêutica Pfizer apresentou propostas ao governo brasileiro a partir de agosto de 2020, mas o primeiro contrato com a empresa só foi assinado em março de 2021.
O governo também protagonizou uma disputa em torno da CoronaVac, desenvolvida pela farmacêutica chinesa Sinovac em parceria com o Instituto Butantan.
Em outubro de 2020, Jair Bolsonaro desautorizou publicamente a intenção do então ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, de adquirir doses do imunizante.
A vacinação no Brasil começou em janeiro de 2021, quando o país já havia perdido mais de 200 mil pessoas para a doença.
Bolsonaro imitou pacientes com falta de ar
A postura do então presidente diante do sofrimento provocado pela Covid-19 foi marcada por declarações que geraram forte controvérsia.
Em março de 2020, Bolsonaro classificou a doença como uma “gripezinha” e um “resfriadinho”. Em abril, questionado sobre o aumento das mortes, respondeu:
“E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê? Eu sou Messias, mas não faço milagre.”
Em março de 2021, durante uma transmissão ao vivo, Bolsonaro também imitou a respiração ofegante de pacientes com Covid-19 ao comentar o atendimento hospitalar.
O gesto provocou indignação em um momento no qual milhares de brasileiros enfrentavam insuficiência respiratória, internações em unidades de terapia intensiva e dificuldades de acesso a tratamento.
Brasil chegou a registrar mais de 4 mil mortes em um dia
A pandemia atingiu seu período mais letal no primeiro semestre de 2021, quando o Brasil registrou sucessivos recordes de mortes diárias.
Em 8 de abril daquele ano, foram contabilizadas 4.249 mortes por Covid-19 em 24 horas, segundo o consórcio de veículos de imprensa.
A crise sanitária também foi marcada pelo colapso do sistema de saúde em Manaus, onde a falta de oxigênio hospitalar, em janeiro de 2021, provocou mortes e expôs falhas na resposta das autoridades.
O Brasil ultrapassaria posteriormente a marca de 700 mil mortes pela doença.
Relações entre Flávio Bolsonaro e empresários da Covaxin foram investigadas
A CPI da Pandemia, instalada pelo Senado em 2021, investigou as negociações para aquisição da vacina Covaxin, intermediadas pela Precisa Medicamentos.
Durante os trabalhos da comissão, Flávio Bolsonaro saiu em defesa da empresa e elogiou publicamente uma de suas diretoras, Emanuela Medrades.
“Cabe aqui um parabéns também público, pelo fato de a senhora, ao representar o laboratório indiano, ter batalhado para que fosse economizado dinheiro público”, afirmou o senador.
O contrato da Covaxin previa a aquisição de doses por aproximadamente R$ 80 cada, valor superior ao de outras vacinas negociadas naquele período.
A piauí também relata que, em outubro de 2020, três meses depois da festa na lancha, Flávio Bolsonaro intermediou uma reunião entre Francisco Maximiano e o então presidente do BNDES, Gustavo Montezano, para discutir um projeto empresarial na área de telecomunicações.
Flávio reconheceu ter solicitado o encontro, mas negou manter relações comerciais ou financeiras com Maximiano. O BNDES informou que nenhum financiamento foi contratado.
O relatório final da CPI recomendou o indiciamento de Flávio Bolsonaro, Danilo Trento e Francisco Maximiano, entre outros investigados. A recomendação não constitui condenação judicial.
A revista piauí informou que procurou os envolvidos antes da publicação de sua reportagem. Flávio Bolsonaro não se manifestou até o fechamento, enquanto Trento interrompeu o contato após ser informado dos detalhes da investigação. Os representantes de Maximiano também não responderam dentro do prazo.
As revelações sobre o passeio de lancha acrescentam um novo elemento ao escrutínio das relações entre integrantes da família Bolsonaro e empresários interessados em negócios com o governo federal durante a pandemia. O contraste entre as festas privadas relatadas pela revista e a emergência sanitária enfrentada pela população brasileira é um dos aspectos centrais do episódio.
Brasil 247