Brasil mantém cooperação energética com Cuba após ofensiva de Trump
O governo brasileiro avalia que sua principal frente de atuação para ajudar Cuba, no atual contexto, está concentrada na área de energia, ainda que de forma indireta e estrutural. Segundo um importante interlocutor que acompanha o tema em Brasília, o Brasil não tem condições de suprir combustíveis ou atuar como fornecedor direto de petróleo, mas busca contribuir por meio de cooperação técnica, regulatória e de planejamento energético, além da manutenção do comércio de alimentos e de projetos de cooperação em áreas consideradas essenciais, como agricultura, produção de sementes e capacitação profissional.
O país também figura entre os principais fornecedores de alimentos para Cuba, ao lado de Estados Unidos e Espanha, em bases comerciais. Apesar dessas iniciativas, o governo brasileiro reconhece que sua capacidade de atuação é limitada diante da profundidade do colapso econômico da ilha. “São problemas muito maiores, e o Brasil não tem como atuar como a Venezuela atuava no passado, com fornecimento de petróleo”, afirmou o interlocutor.
A situação crítica vivida por Cuba é resultado de fatores acumulados ao longo dos últimos anos: perda gradual de fontes externas de financiamento e de fornecimento de energia, impacto prolongado das sanções americanas, queda da produção venezuelana e dificuldades internas de investimento e modernização da infraestrutura.
O quadro ganhou nova dimensão no domingo, quando o presidente Donald Trump afirmou publicamente que não permitiria mais o envio de petróleo ou recursos da Venezuela para Cuba, elevando o grau de incerteza sobre o abastecimento energético da ilha. Embora o alcance prático das declarações ainda seja incerto, a retórica causou apreensão em Havana.
Nesse cenário, a cooperação brasileira na área energética se concentra no apoio à modernização dos marcos regulatórios do setor elétrico cubano, com o objetivo de torná-lo mais atrativo a investimentos estrangeiros. O diálogo inclui troca de experiências sobre planejamento energético, organização do setor e mecanismos que permitam ampliar a participação de capital externo. Também há conversas prospectivas sobre bioenergia e biocombustíveis, área em que o Brasil é referência, mas cujo avanço depende de reformas regulatórias internas em Cuba.
A questão energética é apontada como a principal preocupação concreta a curto prazo. Cuba enfrenta uma crise severa de geração elétrica, produzindo atualmente menos de 50% da energia necessária para atender à demanda nacional. Embora o governo tenha acelerado a transição para fontes solares, o petróleo continua sendo essencial para o funcionamento das termoelétricas que sustentam a base do sistema elétrico do país.
O fornecimento de petróleo da Venezuela permanece crucial, embora tenha caído de cerca de 100 mil barris diários no auge da cooperação durante os governos de Chávez, para algo entre 20 mil e 30 mil barris atualmente, segundo dados extraoficiais. Qualquer nova redução agravaria de forma imediata a situação já crítica.
Além da energia, o Brasil mantém o envio de ajuda humanitária, medicamentos e vacinas, com esforços concentrados em ações essenciais, conforme experiências anteriores, como o envio de equipamentos de hemodiálise à Venezuela. Até o momento, não há registros de alertas graves na ilha caribenha, além das dificuldades recorrentes já conhecidas.
Apesar do endurecimento do discurso do governo americano, interlocutores ouvidos pelo GLOBO afirmam que, a despeito de o regime cubano estar sob risco com Trump, neste momento, faltam elementos clássicos para uma intervenção direta em Cuba, como oposição interna organizada ou fraturas visíveis nas estruturas de poder. O cenário considerado mais provável é o de recrudescimento das pressões econômicas, especialmente no campo energético.
Do ponto de vista político, não há sinais de ruptura da normalidade no cotidiano cubano, apesar do ambiente de forte tensão regional. O dia a dia segue sem alterações significativas, e o que se intensificou recentemente foram manifestações verbais, especulações internacionais e o acompanhamento atento dos desdobramentos após a intervenção ocorrida na Venezuela. A morte de cidadãos cubanos que atuavam na guarda presidencial venezuelana provocou comoção interna e recebeu ampla visibilidade na imprensa oficial, levando Havana a acompanhar com maior apreensão os movimentos no entorno regional.
Na avaliação de integrantes do governo brasileiro, o secretário de Estado americano, Marco Rubio, filho de imigrantes cubanos, demonstra uma obsessão por pressionar por mudanças no regime de Havana. Cuba está sob sanções econômicas dos EUA há mais de seis décadas, desde o início do embargo em 1962, que restringem comércio, crédito e investimentos externos, agravando dificuldades estruturais do país, como escassez de energia e combustíveis.
