Polman: ‘Há uma corrida entre os EUA e a China por terras raras, e o Brasil pode ser uma terceira força de equilíbrio’
Alexandre Rezende/Valor
O renomado líder empresarial Paul Polman acredita que o Brasil não deveria abrir novas frentes de petróleo na Foz do Amazonas.
Lembra que o país está dividido sobre a iniciativa, que se trata de um investimento significativo, é incompatível com a crise climática e corre o risco de se tornar um ativo que desvalorize rapidamente.
“É algo mais movido por tensão política do que por ciência ou bom senso”, diz.
“Pessoalmente, acho que o Brasil estaria melhor se pegasse esse dinheiro e acelerasse a conversão para energia verde em vez de colocá-lo em combustíveis fósseis.”
O executivo, que durante 10 anos foi CEO da Unilever e hoje atua na interseção entre o mundo dos negócios, governos e a sociedade civil com o objetivo de acelerar ações para enfrentar os desafios globais comuns - como a crise climática e as desigualdades sistêmicas -, cita o filósofo italiano Antonio Gramsci para falar da crise do multilateralismo.
“Gramsci diz que quando o sistema antigo está se desintegrando e o novo ainda não se formou, é a hora em que os monstros nascem”.
A transição energética, reconhece, não é fácil, é grande e esbarra em interesses.
“Isso nunca vai ser uma linha reta”.
Polman falou a mais de 50 CEOs da indústria de mineração na Exposibram, a exposição e o congresso brasileiro do setor, aberto ontem em Belo Horizonte.
É o principal palestrante do evento, hoje.
A seguir os principais pontos da entrevista ao Valor:
Valor: Como o senhor vê a crise do multilateralismo? O sistema da ONU continua sendo importante? Faz sentido a realização de todas essas COPs sem a participação dos EUA?
Paul Polman: Tendemos a ficar obcecados pelas más notícias porque vendem melhor e se espalham mais rápido.
Também tendemos a ter uma visão distorcida em relação a um determinado presidente de um país, que representa apenas 4% da população mundial e 10% das emissões globais.
Não há dúvida que existam contratempos.
No âmbito político, a situação ficou muito difícil.
Mas a realidade é que as coisas estão avançando, e cada vez mais rápido.
Às vezes, surgem efeitos colaterais em eventos indesejados que nos fazem avançar ainda mais rápido, como a situação no Estreito de Ormuz.
Valor: Já se sente o impacto na transição?
Polman: As pessoas agora estão se interessando muito pelos veículos elétricos.
A Argentina vendia 1% de veículos elétricos em 2025, agora, já vende 6%.
A exportação de produtos verdes pela China, desde o início da guerra, aumentou em 50%.
Paquistão, Zâmbia ou Malaui estão migrando rapidamente para a energia verde.
Valor: O mundo está se movendo, então, apesar de tudo.
Polman: Há algumas razões para isso.
O fator principal é a economia que sempre impulsiona essa mudança.
Mesmo nos EUA, 95% da expansão da energia verde que ocorreu nos últimos 10 anos foi impulsionada pela economia.
Estados como o Texas e o Wyoming, que são republicanos, têm se destacado.
Há Estados que estão avançando assim como cidades.
Portanto, os EUA estão avançando, só que não suficientemente rápido.
E o presidente, apesar de tentar desesperadamente manter as minas de carvão abertas ou estimular a perfuração em busca de combustíveis fósseis, não está conseguindo grande coisa nesse sentido.
Valor: E os outros fatores?
Polman: O segundo fator é a segurança energética.
A guerra no Estreito de Ormuz demonstrou que não se pode ser dependente, e 75% dos países dependem de energia proveniente de outros lugares - e, no entanto, possuem seis ou sete vezes mais energia solar ou eólica, e outras.
Esse é o fator político.
E o terceiro é que o custo das mudanças climáticas está ficando cada vez mais alto.
Por isso, as pessoas estão dizendo: “Não queremos arcar com esses custos”.
Atualmente, é mais barato e mais rápido implementar energia verde em muitos lugares.
Valor: Onde o senhor estava durante a onda de calor na Europa?
Polman: A onda de calor na Europa ainda está acontecendo.
Só em junho, 20 mil europeus perderam a vida.
Nunca vimos isso.
São sempre os mais velhos e os mais vulneráveis que são as primeiras vítimas.
Meio milhão de hectares de florestas queimou.
Eu estava na Itália, e a menos de um quilômetro da minha casa a floresta estava queimando, a gente podia sentir o cheiro do fogo.
Foi assustador.
Tivemos grandes incêndios na França, na Espanha, na Grécia.
Esse agora é o novo normal.
E isso custa muito dinheiro.
O prefeito de Londres, Sadiq Khan estima que até 2035 esses impactos significarão 35 bilhões de libras de custo extra para a cidade.
Eu estava em Londres na onda de calor.
Não se consegue entrar no metrô.
Os trens não funcionam.
As pessoas não conseguem ir ao trabalho.
Isso muda completamente a economia.
Transição energética não é fácil e é grande.
Isso nunca será uma linha reta”
Valor: O efeito disso é tornar as pessoas mais conscientes da crise do clima?
Polman: Sim, há uma conscientização significativa.
A Europa é uma das áreas do mundo mais afetadas pela mudança climática.
As pessoas agora perceberam que precisamos ser muito mais agressivos em conversão energética, eletrificação, descarbonização, circularidade, mudança dos nossos sistemas alimentares.
Também perceberam que teremos que gastar muito mais dinheiro em adaptação: plantar mais árvores nas cidades, construir casas de maneira diferente.
Só 20% dos europeus têm ar-condicionado.
Acho que foi um chamado de despertar para a Europa.
O problema da Europa é que tudo é conduzido por consenso, e agora as prioridades são a Ucrânia, depois o Estreito de Ormuz, depois os “terroristas” com Trump.
Então sempre tem algo que distrai e sempre há um país que não quer avançar.
Valor: Na Europa, mas também na América Latina, eleitores estão elegendo políticos de extrema direita, em alguns casos, e que negam a crise climática.
Como mudar isso?
Polman: Deveríamos separar a realidade da retórica política.
A realidade é que a ciência nos diz que há aquecimento global, que é induzido pelo homem, que sete dos nove limites planetários que definem a saúde do planeta e a humana estão fora dos limites aceitáveis.
Nem todo mundo precisa falar com Carlos Nobre para descobrir que a floresta tropical, a Amazônia, está perto de um ponto de inflexão negativo.
Estamos em uma situação muito delicada agora, e os cientistas deixam isso claro.
E a maioria das pessoas acredita na ciência.
Até as empresas de petróleo acreditam na ciência agora, só têm uma estratégia diferente.
Dizem: “Ainda precisamos de petróleo para a transição”, mas não estão ajudando a acelerar a transição.
Mas é fácil para um político populista vender às pessoas a ideia de custo extra ou de perda de liberdade, mas nada poderia estar mais distante da verdade.
Ser independente em energia também significa independência geopolítica.
Na maioria dos lugares do mundo, isso significa um custo de energia mais baixo.
Agricultura sustentável significa segurança alimentar, não insegurança alimentar.
Então precisamos falar mais com as pessoas sobre liberdade: não se trata de abrir mão de coisas, mas de ganhar coisas.
Todo mundo adoraria ter ar que se possa respirar, adoraria ter melhor saúde e longevidade, adoraria ter empregos melhores que a economia verde está criando.
Valor: Mas...
Polman: Mas muitos dos nossos políticos têm ciclos eleitorais que são mais curtos do que os ciclos de transição da energia verde, e há investimentos que precisam ser feitos.
Então é melhor para esses políticos jogarem no curto prazo do que realmente fazer o que é certo para o longo prazo.
Acho que, com o tempo, esses países se tornam menos competitivos, mas já são minoria.
A maioria dos países está avançando: todo o Sudeste Asiático, a China, a Índia, a África, a Europa.
Gostaríamos que todos avançassem mais rápido.
Saindo da COP30, em Belém, tivemos a Conferência de Santa Marta com 57 países, 30% da economia global, todos concordando em permanecer dentro do Acordo de Paris e com planos de descarbonização profunda.
Tivemos US$ 2,1 trilhões de investimentos em energia verde saindo de Belém e o setor privado avançando.
O que está muito claro é que alguns países ganham os holofotes por causa de políticos populistas, mas não são a maioria.
Há um segundo ponto.
Valor: Qual?
Polman: Esses acordos globais não funcionam mais tão bem.
Neste mundo em tensão, conseguir que todos os países concordem com algo é impossível, ou é o menor denominador comum, que também não queremos.
E há interesses instalados.
Em Belém, havia 1.600 pessoas da indústria de combustíveis fósseis fazendo lobby.
Precisamos passar da unanimidade para a maioria, o que é difícil.
Precisamos combinar as agendas de clima, biodiversidade e desertificação.
Precisamos garantir que investimos em ciência para que tudo isso não seja baseado em emoção ou em política.
Valor: E a crise do multilateralismo?
Polman: O filósofo italiano Antonio Gramsci disse que, quando o sistema antigo está se desintegrando e o novo sistema ainda não se formou, é quando os monstros nascem.
A transição não é fácil, e é grande.
Precisamos mudar nossos sistemas alimentares, de energia, de saúde.
Isso nunca vai ser uma linha reta.
Há desconfortos nessas erupções, mas cada vez mais vemos alianças globais que não existiam antes.
Valor: Como o senhor vê a indústria da mineração?
Polman: Sou positivo.
É uma indústria muito importante.
Representa 4,5% do PIB neste país, mas com todos os produtos, talvez esteja perto de 25% ou 30% da economia.
E só vai crescer porque o Brasil é abençoado com lítio, terras raras, minerais estratégicos.
Enquanto há uma corrida entre os EUA e a China por terras raras, o Brasil pode ser uma terceira força de equilíbrio.
O mundo precisa disso para a transição energética.
A demanda está aí, a indústria está animada, é lucrativa, cresce.
Mas precisamos levá-la ao próximo nível.
Valor: Qual?
Polman: Ainda é um setor que precisa ganhar mais a confiança da sociedade.
Como lidam com a destruição de biodiversidade, com direitos humanos, com povos indígenas? O setor tem uma oportunidade única de se unir e estabelecer um padrão para ser mais eficiente, mais bem visto, mais “nature positive” e também para ser muito competitivo para o resto do mundo.
É um grande momento para a indústria, mas precisam trabalhar juntos nas grandes questões do setor.
Se o setor for capaz de fazer isso, é uma indústria com um futuro brilhante.
Poderia até ser uma indústria positiva para a natureza.
As comunidades precisam se beneficiar.
Os povos indígenas precisam se beneficiar.
Não pode ser um setor em que haja mineração ilegal, que joga custos na sociedade, e outra parte mais responsável da indústria se tornando não competitiva.
Isso não funciona.
Empresas que são mais responsáveis têm valor mais alto no mercado.
Valor: Países como o Brasil estão perfurando novos poços de petróleo, sendo que a ciência está dizendo que não se deve abrir novos campos.
Como vê isso?
Polman: Não há dúvida de que não há necessidade de perfurar mais.
O país está dividido sobre a abertura na Amazônia, que é um investimento significativo.
Ao mesmo tempo estamos em um ciclo eleitoral.
O argumento de meios de subsistência e criação de empregos é importante para os políticos.
É algo mais movido por tensão política do que por ciência ou bom senso.
Pessoalmente acho que o Brasil estaria melhor se pegasse esse dinheiro e acelerasse a conversão para energia verde, em vez de colocá-lo em combustíveis fósseis.
Perfurar mais é incompatível com a agenda climática; há opções melhores, além de se correr o risco de se ter um ativo desvalorizado rapidamente.
Brasil deveria acelerar conversão para energia verde e não investir em fósseis, diz Polman
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