Bono e The Edge, do U2, falam de política, fé e fake news: ‘Estamos na era da pós-verdade’

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

Cinquenta anos depois de quatro adolescentes se reunirem para tocar numa cozinha em Dublin, na Irlanda, o U2 continua convencido de que ainda tem algo a dizer — e a contestar. A banda irlandesa acaba de celebrar o cinquentenário com apresentações-surpresa na cidade natal, incluindo um show na varanda de um antigo clube de rock, diante de milhares de pessoas, e se prepara para lançar "Carnaval de luz", seu primeiro álbum de inéditas em quase uma década. Em março de 2027, Bono, The Edge, Adam Clayton e Larry Mullen Jr. voltam ao Brasil para dois shows em São Paulo, nos dias 10 e 12. Em entrevista ao The New York Times, Bono e The Edge revisitam os primeiros anos do grupo e falam sobre o disco de inclinação política, a fé, a desinformação e os desafios de manter viva uma parceria de cinco décadas. A seguir, os principais momentos da conversa com o jornalista David Marchese. O grupo U2 em show no colégio Mount Temple Comprehensive, em Dublin Divulgação/Rich Fury A alegria como forma de resistência O título "Carnaval de luz" dá pistas sobre a proposta do novo álbum. Em meio à ansiedade, à polarização e às reações impulsivas que marcam o mundo atual, a banda quis criar um disco que funcionasse como contraponto ao clima da época: uma celebração capaz de reunir pessoas em torno de aspirações comuns. Bono recorre uma frase do jornalista Dan Savage sobre a época em que ele era um ativista na luta contra a AIDS em São Francisco, em meio àquela crise.

— Ele disse: 'De manhã, enterrávamos nossos amigos. À tarde, saíamos para protestar, para que tivéssemos menos pessoas para enterrar. E, à noite, saíamos para dançar — porque a dança era, justamente, aquilo pelo que estávamos lutando'. Adorei isso.

É dessa ideia, segundo os dois, que nasce o conceito de defiant joy, ou alegria desafiadora: não ignorar a realidade nem se render à melancolia, mas sim de um ato de desafio, de encarar a escuridão e ainda assim escolher a alegria. The Edge vê nessa postura uma resposta à sensação de impotência alimentada pelas redes sociais e pelos algoritmos, que aprisionam as pessoas em bolhas.

— Somos muito mais capazes do que nos levam a acreditar. É justamente esse o aspecto positivo dos shows e festivais de rock ’n’ roll: eles devolvem às pessoas a sensação de que elas têm poder de ação, e de fazer parte de algo grandioso — acredita o guitarrista. Bono acrescenta que a raiva também tem seu papel: sentir indignação é natural; o perigo está em se entregar à desesperança. Da esquerda para a direita: The Edge, Adam Clayton, Bono and Larry Mullen Jr., os integrantes do U2 Todd Heisler / The New York Times Um álbum de protesto sem nomes próprios A política está no centro do novo álbum, embora a banda tenha optado por não mencionar diretamente seus alvos nas canções. Bono explica que, enquanto o EP "Days of ash", lançado neste ano, cita pessoas e acontecimentos específicos — “American obituary”, a primeira faixa, é dedicada a Renee Good, americana mãe de três filhos morta por agentes do ICE —, o novo disco procura tratar de questões mais amplas, como a natureza do mal, a manipulação das sociedades e sua capacidade de resistir à opressão. O cantor faz duras críticas ao governo de Donald Trump e àquilo que considera um ataque à democracia americana, que descreve como “o maior assalto da história do mundo”. Ao mesmo tempo, evita tratar os eleitores conservadores como adversários indistintos.

— Não quero afastar pessoas boas que votam no Partido Republicano, por diversos motivos que são perfeitamente aceitáveis. O partido delas foi sequestrado — trata-se de uma tomada de controle agressiva — diz Bono, que também condena os cortes promovidos pelo Departamento de Eficiência Governamental (DOGE), associado a Elon Musk, e alerta para as consequências humanas da redução de recursos destinados à ajuda internacional, tema ao qual se dedica há décadas. Capa do álbum 'Carnaval de luz', do U2 Reprodução Instagram The Edge explica que a banda não quer simplesmente apontar o dedo ou dizer ao público o que não fazer. A intenção é apresentar uma alternativa, um caminho melhor.

— O que queremos é chamar a atenção para algo que sirva como um antídoto. Acredito que é assim que as pessoas funcionam: se você diz a alguém que não deve fazer algo, a tendência é haver resistência. Mas, se você mostra um caminho melhor, as pessoas tendem a segui-lo. Fé, mal e a ideia de amar os inimigos A espiritualidade sempre esteve presente nas letras do U2, mas Bono admite que compreender o mal foi mais difícil para ele do que acreditar em Deus — ou na ideia de que Deus é amor. A contradição entre fé e violência, compaixão e intolerância, atravessa tanto suas reflexões pessoais quanto as canções. O cantor também defende a ideia cristã de amar os inimigos, inclusive aqueles cujas ações considera inaceitáveis. Não se trata, segundo ele, de ignorar a gravidade dos acontecimentos, mas de não reduzir o mundo a uma disputa entre pessoas que pensam de maneiras diferentes. The Edge descreve uma relação menos linear com a religião: — Eu diria que, durante metade da semana, sou agnóstico; já no restante, tenho uma fé incrivelmente forte. Mas é algo que está sempre mudando, pronto para ser atualizado. U2 Divulgação Para ele, a dúvida é parte essencial dessa busca. Sem questionamento, a crença corre o risco de se transformar em dogma.Os dois também defendem que temas espirituais não precisam ficar confinados à música religiosa. O gospel, com sua força emocional e sua dimensão coletiva, é uma das referências que ajudaram a moldar a sonoridade do U2. A dupla também revisita o desconforto que a presença de temas religiosos pode provocar no rock. Bono lembra a força do gospel e da música das igrejas negras americanas, onde encontrou uma expressão de fé que combina fervor, emoção e liberdade. Para ele, essas ideias não deveriam ficar restritas a nichos: podem, e devem, ocupar o centro da cultura pop. A era da pós-verdade e os políticos como artistas Ao discutir o futuro dos shows, The Edge revela que a banda está interessada na fronteira entre o espetáculo e o xamanismo, e enxerga paralelos entre a força de um show de rock e o poder de sedução da política. Ambos podem mobilizar multidões, criar uma experiência coletiva e transportar o público para outro lugar, mas assim como podem aproximar as pessoas, podem ser usado para manipulá-las. — Todos os grandes artistas de palco precisam, de certa forma, realizar um truque de mágica — algo que remete a um campo misterioso. E isso funciona nos dois sentidos: os grandes políticos da atualidade — que, infelizmente, em muitos casos, são extremamente perigosos — possuem um caráter bastante xamânico. Eles deslumbram as pessoas por meio de uma encenação; é a lógica do charlatão que vende "soluções milagrosas".

É nesse ponto que entra a desinformação. Para o guitarrista, vivemos uma era de pós-verdade, na qual a facilidade de disseminar narrativas falsas permite explorar fragilidades humanas, sobretudo quando o medo é usado como arma. Ele também chama atenção para o silêncio imposto pelo receio de punição, exclusão ou perseguição. A canção “Silencio”, do repertório recente da banda, aborda justamente essa ambiguidade: existe o silêncio contemplativo, que pode ser belo, e aquele provocado pela intimidação, que representa uma ameaça à liberdade de expressão. Imagem do clipe de 'Silencio', nova música do griupo irlandês U2 Reprodução Os nomes que inventaram e os primeiros anos A história começou em 1976, quando Larry Mullen Jr., então com 14 anos, colocou um aviso no mural da escola Mount Temple, em Dublin, procurando músicos para formar uma banda. A resposta reuniu os quatro integrantes que seguem juntos até hoje: Larry na bateria, Adam Clayton no baixo, The Edge na guitarra e Bono nos vocais. A princípio, porém, eles estavam longe de ser músicos experientes. Bono brinca que ele e Adam estavam blefando, enquanto The Edge e Larry já sabiam tocar. Os dois primeiros acabaram encontrando suas funções: um assumiu o microfone; o outro, o baixo e, mais tarde, responsabilidades de gestão. Os apelidos também ajudaram os adolescentes a inventar novas identidades e escapar da vida suburbana. Antes de se tornar Bono, Paul Hewson chegou a ser chamado de Steinrich Van Haitian Bang Bang Bang. The Edge passou um período como Inchicore; Adam Clayton era conhecido como Mrs. Byrnes; e Larry Mullen Jr. ganhou o apelido de Jam Jar. A inspiração vinha, entre outras coisas, do humor nonsense do Monty Python. — Nós ríamos muito naquela época. Ríamos uns dos outros e de nós mesmos; era assim que funcionava. Por isso, os nomes não foram criados, necessariamente, pensando em um aspecto heroico — conta The Edge. —Trata-se de inventar quem você quer ser, em vez de aceitar a identidade que lhe foi atribuída no momento, no lugar e na época em que você nasceu — completa Bono. A banda U2 com o empresário Paul McGuiness Patrick Brocklebank O erro do iTunes e a disposição para arriscar Nem todas as grandes ideias da banda foram bem recebidas. Em 2014, o U2 lançou "Songs of innocence" gratuitamente nas bibliotecas de usuários do iTunes, em parceria com a Apple, sem que eles precisassem pedir o álbum. A iniciativa provocou uma reação negativa de parte do público, que não gostou de encontrar o disco automaticamente em seus dispositivos. Na entrevista, Bono assume a responsabilidade pelo episódio.

— Estávamos experimentando. Queríamos ver se conseguiríamos fazer com que a Apple ou outra empresa pagasse pela nossa música e, na sequência, a distribuísse. E veja bem, será preciso um pouco de experimentação para consertar o [setor da] música. É impressionante — e assustador — o quão pouco outros músicos recebem. Mas, enfim, a responsabilidade por tudo isso foi minha. O cantor reconhece que exagerou na iniciativa, enquanto The Edge defende que correr riscos faz parte do trabalho.

— Às vezes, você fracassa, leva um tombo feio. Faz parte do show. Ainda há algo a provar Aos 60 e tantos anos, os integrantes do U2 não pretendem tratar a longevidade como um motivo para desacelerar. The Edge diz que a banda ainda acredita ser capaz de compor sua melhor música ou fazer seu melhor show. Para ele, o grupo continua sendo o lugar a que pertence: se fosse montar uma carreira solo, acabaria escolhendo Bono como vocalista e Adam e Larry como seção rítmica. A promessa que fizeram uns aos outros quando ainda eram adolescentes também permanece de pé: nunca subir ao palco sem dar tudo de si. A banda já enfrentou conflitos dentro e fora dos shows, mas, segundo Bono, nunca quebrou esse compromisso. A ideia de que a música deve significar algo além do entretenimento continua sendo central para os dois. A urgência política e a dimensão ideológica de grupos como Clash, Buzzcocks, The Jam e Talking Heads, que viram no início da carreira, ajudaram a definir essa visão. Meio século depois, a ambição permanece: fazer música que divirta, provoque, reúna pessoas e tenha significado para além do palco. — Quando você está imerso nesse tipo de senso de urgência e nesse aspecto ideológico, é como se não desse para encarar essas coisas de forma leviana. É muito mais do que apenas entretenimento — diz The Edge. — É aquilo que dizem sobre o futebol: não é uma questão de vida ou morte. É algo muito mais sério do que isso — finaliza Bono.

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