Bombas não detonadas espalhadas por Gaza ameaçam a recuperação da região por décadas, alerta ONU

 

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Artefatos explosivos não detonados, desde bombas ou granadas até simples munições, tornaram-se uma visão comum na Faixa de Gaza, devastada pela guerra de dois anos entre Israel e Hamas. Essas armas, que frequentemente matam e mutilam pessoas, podem ameaçar os esforços de recuperação da região por décadas, afirmou a ONU nesta sexta-feira.

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O Serviço das Nações Unidas para a Ação contra Minas Terrestres (UNMAS) afirmou que, desde o início do conflito, em 7 de outubro de 2023, mais de 1.000 pessoas foram mortas em Gaza devido a "conflitos indiretos", causados ​​pelos resquícios da guerra. Julius Van der Walt, chefe do UNMAS no Território Palestino Ocupado, afirmou que metade das vítimas conhecidas eram crianças.

Comparado com a pequena extensão geográfica do enclave — considerando a altíssima densidade populacional —, isso significa que existe aproximadamente um artefato explosivo a cada 600 metros.

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Publicado no ano passado, um relatório da "Save the Children UK", uma instituição de caridade britânica que atua em mais de 100 países, constatou que, em 2024, o uso de armas explosivas em Gaza deixou cerca de 475 crianças por mês com deficiências potencialmente permanentes, incluindo amputações. De acordo com Narmina Strishenets, conselheira sênior para Políticas Humanitárias e de Conflitos da "Save the Children UK", Gaza tem "o maior grupo de crianças amputadas" do mundo.

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Omar Al-Qattaa / AFP

Van der Walt afirmou que a UNMAS ainda não conseguiu realizar um levantamento abrangente da extensão total do problema, mas "as evidências já sugerem uma alta densidade de contaminação por munições explosivas em toda a Faixa de Gaza".

— Ainda estamos apenas começando a entender o nível de contaminação — reconheceu ele.

Ele mencionou uma avaliação que indica que, na melhor das hipóteses, custará cerca de US$ 541 milhões (mais de R$ 2,7 bilhões, na cotação atual) para lidar com a ameaça de munições explosivas não detonadas. A contaminação, inclusive dentro de montanhas de destroços, é tão vasta e tão variada que provavelmente, segundo ele, continuará sendo um problema por décadas.

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Antes do conflito, Gaza já era um dos lugares mais densamente povoados da Terra, com cerca de 6 mil pessoas por quilômetro quadrado, disse Van der Walt, salientando que a guerra reduziu efetivamente o espaço disponível pela metade e dobrou a densidade populacional.

— Armas explosivas estão sendo usadas em todos os territórios, inclusive em campos de refugiados densamente povoados — acrescentou ele, apontando para um caso recente em que artefatos explosivos foram encontrados dentro de uma tenda onde pessoas estavam vivendo havia várias semanas.

Ao mesmo tempo, ainda de acordo com o chefe da UNMAS, "os comboios humanitários correm o risco de detonação ao percorrerem a Faixa de Gaza, e os esforços iniciais de recuperação ficam essencialmente paralisados ​​antes mesmo de começarem".