Funcionários da USP aceitam proposta da reitoria em assembleia e encerram greve

 

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Uma assembleia do Sindicato de Trabalhadores da Universidade de São Paulo (Sintusp) referendou hoje uma proposta feita pela reitoria em resposta a suas demandas e deliberou pelo encerramento da greve iniciada dez dias atrás. Os servidores técnico-administrativos reivindicavam o acesso a um benefício que só tinha sido concedido a professores.

A proposta da reitoria de criar uma bonificação similar foi aceita hoje com 82% dos votos da assembleia realizada online pela organização sindical. Uma parcela de 8,5% dos votantes foi contra o acordo, e 9,5% se abstiveram. A contagem de votos na assembleia presencial foi feita "por contraste", com apenas uma minoria rejeitando a proposta.

A greve teve início após a universidade ter uma gratificação para remunerar participantes de projetos de extensão fora da grade normal de atividades, mas que só valia para docentes contratados em tempo integral.

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A chamada Gratificação por Atividades Complementares Estratégicas (GACE), instituida em março, prevê um aporte mensal de até R$ 4.500 a professores que participam dos projetos. Numa reunião com representantes da reitoria ontem, diretores do Sintusp receberam da reitoria a proposta de criação de um outro benefício que se estenderia a servidores em outros cargos também.

Segundo memorando do encontro, representantes apresentaram resposta do reitor Aluísio Segurado demonstrando "a intenção de instituir um programa de gratificação" para os trabalhadores tecnico-administrativos "pelo mesmo período em que for paga a GACE aos docentes, dado o apoio de servidores e servidoras à realização das atividades."

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O valor do programa dos funcionários deve ser calculado pela divisão do mesmo montante de orçamento definido para a gratificação dos docentes, afirmou a reitoria.

A diretoria do sindicato avaliou em renunião que a reitoria também encaminhou o cumprimento de outra demandas dos funcionários: cancelar o desconto de salário pelos dias não trabalhados na ponte dos feriados de Natal e Ano Novo. O reitor assumiu o compromisso de "estudar e propor a formalização jurídica de mecanismo que permita o abono das horas não trabalhadas".

A última demanda do Sintusp era a oferta de transporte mais confiável para trabalhadores terceirizados poderem se mover dentro e fora dos campi da USP. A reitoria prometeu conceder a estes "condições de deslocamento análogas às atualmente oferecidas aos servidores da USP".

Na assembleia desta tarde, representantes sindicais de algumas unidades demonstraram desconforto por o acordo de fim de greve ter sido assinado sem a presença do reitor e com uma linguagem pouco concreta, mas a decisão terminou sendo aprovada.

Segundo Patrícia Galvão, uma das diretoras do Sintusp, o sindicato precisará cobrar ainda o cumprimento das medidas incluídas no acordo, mas a greve termina como uma vitória da categoria.

— A reitoria não queria dar nada, mas ela teve que reconhecer a demanda porque no dia 31 de março a gente desceu em peso ali na frente para falar que não íamos aceitar uma medida que feria a isonomia — afirmou. — Aquilo significava tratar os funcionários só como atividade-meio e não considerar a gente como parte da produção dessa universidade.

Demandas dos estudantes

Apesar de o acordo com a reitoria ter encerrado a greve de funcionários, alunos da Universidade de São Paulo seguem paralisados, afirmando que não foi atendida a pauta de reivindicação discente. Os estudantes fizeram ontem uma passeata, seguindo do campus da capital até a avenida Faria Lima, em Pinheiros, para expor suas demandas.

Entre as principais reivindicações formalizadas à reitoria pelo Diretório Central dos Estudantes (DCE) estão o aumento de bolsas de permanência para alunos de baixa renda e a melhoria da qualidade dos restaurantes coletivos, os "bandeijões", que se tornaram alvo de críticas nos campi depois de começarem a ser terceirizados. Os estudantes relatam casos de infecção alimentar em algumas unidades.

Clara Araújo, uma das diretoras do DCE, afirma que uma tentativa de diálogo com a reitoria falhou ontem, porque a reitoria só aceitou receber estudantes que atuam no conselho universitário, e não da agremiação estudantil que convocou a greve.

— Indo para essa reunião, na verdade, os representantes discentes chegaram lá e a reitoria simplesmente enrolou. Não chegaram sequer a entrar em uma sala de negociação. Ficaram numa antessala onde a reitoria apresentou uma proposta de quatro grupos de trabalho — disse. — Os representantes disseram que só iam aceitar qualquer coisa se fosse numa reunião de mesa de negociação com o comando de greve.

Até agora, a reitoria se manifestou apenas de forma escrita em relação às demaddas dos estudantes. Segurado afirma que já está buscando contemplar a demanda de bolsas para estudantes de baixa renda.

"O Programa de Apoio à Permanência e Formação Estudantil (PAPFE) é uma política estruturada e consolidada, figurando entre as maiores iniciativas do País na área, com crescimento contínuo de investimentos", afirma a universidade. "Em 2026, para o conjunto de programas, está previsto um aporte de aproximadamente R$ 461 milhões, o que representa aumento de 8,25% em relação ao ano anterior. Atualmente, 15.869 estudantes são beneficiados pelo programa."

O DCE, porém, reivindica um aumento maior, que eleve o valor da bolsa de R$ 880 para R$ 1.800, que é o valor do salário mínimo paulista, para que o valor esteja mais perto média de preços de aluguel cobrados em São Paulo.

Em relação aos restaurantes universitários a reitoria diz que as ocorrências de infecção informadas pelos estudantes ou pelos servidores nesses locais são "tratadas tecnicamente pelas nutricionistas da Pró-Reitoria de Inclusão e Pertencimento (PRIP)" e que tem "notificado e advertido as respectivas empresas" em questão.

Os estudantes afirmam que esperavam alguma nova resposta às suas demandas em uma reunião a ser realizada nesta tarde.