A derrota de Flávio Bolsonaro (PL) para Lula (PT), reeleito no último domingo (25), não significa o fim da força política do bolsonarismo, segundo os especialistas ouvidos pela Tribuna de Minas. Mayara Balestro e Luiz Ademir de Oliveira reconhecem a influência do movimento, mas apresentam perspectivas diferentes sobre sua continuidade e sobre o espaço de uma direita que não esteja vinculada à família Bolsonaro.
As diferenças entre a direita tradicional e o bolsonarismo vão além das propostas para a economia ou das posições sobre família e religião. Segundo os pesquisadores, elas também aparecem na maneira de lidar com as instituições democráticas, de disputar o poder e de interpretar o passado.
Compartilhar algumas pautas, portanto, não significa defender o mesmo projeto político. Mayara Balestro e Luiz Ademir de Oliveira analisam as diferenças entre direita e bolsonarismo (Fotos: Arquivos pessoais)
Para a doutora em História e pesquisadora associada ao Observatório da Extrema Direita (OED), Mayara Balestro, ainda existe uma direita identificada com a moderação e distante do bolsonarismo. A pesquisadora destaca, porém, que parte dessas lideranças perdeu espaço para grupos mais radicais.
Entender essa mudança exige observar tanto as ideias defendidas quanto o comportamento de quem pretende representar os eleitores de direita. O que mudou na disputa política
O jornalista e doutor em Ciência Política Luiz Ademir de Oliveira lembra que a centro-direita, representada pelo PSDB, e a centro-esquerda, simbolizada no exemplo dele pelo PT, mantinham pontos de aproximação, apesar da competição eleitoral. Embora defendesse privatizações, o PSDB também apoiava políticas sociais e compartilhava algumas propostas com o adversário.
Segundo ele, havia uma disputa pelo governo, mas a distância entre as ideias dos dois partidos era menor do que a observada na polarização com o bolsonarismo. Professor e pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ), Luiz Ademir associa essa mudança ao enfraquecimento do PSDB e à abertura de espaço para outras forças.
“Hoje a direita hegemônica é a bolsonarista”, afirma, em entrevista concedida antes do segundo turno, ao descrever o movimento como predominante nesse campo político. Ao longo do período de campanha, foi utilizado, em diferentes momentos e peças publicitárias, o argumento de que Flávio seria “o Bolsonaro moderado” (Foto: Charles Vieira / divulgação – assessoria)
Para Mayara, por sua vez, as diferenças também estão na maneira como as lideranças se relacionam com as instituições democráticas. Ao caracterizar o bolsonarismo, ela considera a combinação entre identificação pessoal com Jair Bolsonaro, conservadorismo moral, oposição ao PT e “a adoção de um comportamento político combativo e anti-institucional”.
Nessa leitura, não basta observar uma proposta isolada, mas também a forma como seus defensores atuam. A historiadora destaca, nesse contexto, a forma como Bolsonaro se refere à ditadura civil-militar brasileira.
“Jair Bolsonaro sempre falou abertamente sobre a volta da ditadura”, pontua. Segundo Mayara, essa postura mobiliza uma visão nostálgica e autoritária daquele período, associada à valorização da ordem, da autoridade e da repressão como respostas aos problemas atuais.
Essa referência ao passado, acrescenta, permanece entre a base mais fiel do movimento. Uma direita com caminhos diferentes
De acordo com Luiz Ademir, duas questões ajudam a compreender as posições de direita, esquerda e centro. Uma delas é o papel do Estado na economia e na oferta de serviços à população; a outra envolve os costumes e os direitos de grupos sociais.
Na leitura do professor, a direita tende a defender maior liberdade para o mercado, uma atuação mais limitada do Estado e posições conservadoras nos costumes. O centro, conforme explica o pesquisador, pode combinar propostas dos dois lados, apoiando a participação do poder público em determinadas áreas e adotando posições diferentes conforme o assunto.
Isso permite, por exemplo, que uma liderança concorde com algumas pautas progressistas e mantenha posições conservadoras em outras questões. Mayara ressalta que o bolsonarismo tem forte ligação com a extrema direita, mas os termos não significam exatamente a mesma coisa.
Segundo ela, a extrema direita reúne um conjunto mais amplo de ideias e movimentos, enquanto o bolsonarismo aproxima grupos diferentes em torno de discursos, práticas e referências políticas compartilhadas. Conforme apontado pela historiadora, a ascensão de Bolsonaro reuniu e reorganizou setores que já existiam, entre defensores de ampla liberdade de mercado, conservadores, religiosos, militares e movimentos radicais.
Igrejas, programas de rádio e televisão, influenciadores e grupos de WhatsApp contribuíram para divulgar ideias e mobilizar apoiadores. Essa diversidade, segundo Mayara, exige cuidado ao classificar as pessoas que se aproximam do movimento.
Nem todo eleitor de Bolsonaro compartilha todas as ideias da extrema direita, assim como uma liderança de direita não necessariamente adere ao conjunto de posições bolsonaristas. Para distinguir essas situações, ela defende observar os discursos, as decisões e as formas de atuação de cada político.
Luiz Ademir também aponta que o predomínio do bolsonarismo não encerrou as disputas dentro da direita. Ele cita Renan Santos, do Missão, como exemplo de uma liderança desse campo que contesta o movimento.
Na avaliação do professor, a busca por espaço e influência pode produzir novos conflitos entre esses grupos nos próximos anos. A força do movimento depois das urnas
Para Mayara, uma aliança precisa ser examinada a partir do que cada liderança defende e dos objetivos que pretende alcançar. “O apoio a Bolsonaro pode ocorrer por afinidade ideológica, conveniência eleitoral ou aliança estratégica, sem significar necessariamente uma adesão integral ao bolsonarismo”, afirma.
Essas motivações podem coexistir, segundo ela, pois um político pode concordar com determinadas pautas e também buscar acesso à base de eleitores do movimento. Durante o segundo turno, Flávio reuniu o apoio de diferentes forças políticas na disputa contra Lula.
Além do PL, União Brasil e PP, integrantes da Federação União Progressista, Republicanos, Novo e Podemos anunciaram adesão à candidatura. Ao avaliar a derrota, Luiz Ademir considera que o resultado revelou a resistência de uma parcela expressiva da população ao projeto bolsonarista, apesar da força conquistada pelo partido no Legislativo.
Segundo o professor, a mobilização de movimentos sociais e estudantis nas ruas e a atuação dos apoiadores de Lula nas redes sociais foram fundamentais para a vitória. Mayara complementa, atribuindo também importância à participação dos trabalhadores, da juventude e da militância digital no resultado eleitoral.
Na avaliação de Luiz Ademir, o bolsonarismo mantém uma parcela considerável de apoiadores, mas encontra limites para ampliar seu poder. O professor associa essa dificuldade à concentração do movimento em torno da família Bolsonaro, em vez de um projeto mais amplo de direita, e considera que, “ao longo do tempo, tende a ser um projeto que vai se esvaziar”.
Eduardo está nos Estados Unidos desde março de 2025, Carlos é senador eleito por Santa Catarina, Jair Bolsonaro cumpre prisão domiciliar após ser condenado no STF por tentativa de golpe de Estado, enquanto Flávio está nos últimos meses do mandato de senador (Foto: PL / divulgação – assessoria)
Para o pesquisador, a eleição reforça o desafio de construir lideranças e propostas que ultrapassem figuras individuais. Ele defende que a direita busque nomes sem ligação direta com a família Bolsonaro, assim como a centro-esquerda precisa se preparar para não depender de Lula.
Segundo Luiz Ademir, o presidente reeleito também terá de ampliar o diálogo com setores do centro, da direita e do empresariado para garantir condições de governar. Mayara, por sua vez, dá mais ênfase à permanência da força do movimento após a derrota.
“O bolsonarismo segue vivo e forte”, afirma. Para a historiadora, o resultado mostra que a extrema direita pode ser abalada, mas não significa que tenha deixado de ser uma força política no Brasil e no mundo.
Diante desse cenário, ela defende a importância da recuperação do espaço da direita tradicional. *Estagiário sob supervisão do editor Arthur Raposo Gomes.
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