Indígenas de Tacuru, a 423 quilômetros de Campo Grande, denunciam ameaças de envenenamento da água, além de manifestações de ódio e preconceito após o segundo turno das eleições presidenciais de 2026. Áudios que circulam nas redes sociais mostram homens fazendo declarações ofensivas contra os povos indígenas e mencionando a possibilidade de colocar veneno na água.
O caso foi denunciado pelo vereador e cacique da comunidade, Ivan Montie (PSDB), que afirma ter identificado os envolvidos e que tomará medidas nas esferas criminal e cível. Em um dos áudios, um homem reclama dos indígenas e utiliza expressões pejorativas para se referir à comunidade.
“Você vê como é esse nosso Tacuru velho. Pode morrer de ajudar esses capetas aí dentro do que tiver.
O homem se mata de ajudar um, ajudar outro, e esses cãos fazem isso aí. A própria população, o próprio município, é um demônio”, diz.
Em outro trecho, um dos homens chama os indígenas de “praga do car**” e afirma que a água deveria ser envenenada. “Já falei que tem que colocar veneno na água”, declara.
A autenticidade dos áudios e as circunstâncias em que as declarações foram feitas deverão ser apuradas pelas autoridades. Segundo Ivan Montiel, as gravações foram recebidas de terceiros e os envolvidos seriam servidores da Prefeitura de Tacuru.
“Recebi o áudio de dois servidores da prefeitura onde eles estão discriminando o ódio e o preconceito. Um pensamento colonial que não vem de agora.
Gostaria de dizer que não vamos aceitar esse tipo de preconceito contra as nossas comunidades. Ameaçando colocar veneno em água.
Vamos tomar as medidas cabíveis na esfera criminal e cível para que seja responsabilizado e não aconteça mais isso”, afirmou o vereador. Montiel também ressaltou que os indígenas têm o mesmo direito de qualquer cidadão de escolher seus candidatos e criticou a postura atribuída aos servidores públicos.
“Nós, povos indígenas, temos o direito de escolher, como qualquer cidadão, em quem vamos votar. Eles são servidores da prefeitura e estão sendo pagos para fazer aquilo que têm que fazer e não reclamar dos serviços.
Já identificamos as pessoas e estamos tomando as medidas cabíveis”, declarou. As denúncias surgem após o segundo turno das eleições presidenciais, realizado no domingo (25).
Tacuru foi o primeiro município de Mato Grosso do Sul a concluir a apuração, com 100% das 22 seções totalizadas às 18h40. O município registrou 5.234 votos, o equivalente a 74,74% de comparecimento entre os 7.003 eleitores aptos a votar.
Em Tacuru, na disputa pela Presidência da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi o candidato mais votado, com 62,19% dos votos válidos, ou 3.189 votos. Flávio Bolsonaro (PL) recebeu 37,81%, o equivalente a 1.939 votos.
Embora as denúncias tenham ocorrido após a votação, ainda não há, nas informações apresentadas, comprovação de que as ameaças tenham sido motivadas diretamente pelo resultado eleitoral ou pela escolha política dos indígenas. A Apib (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil) informou que, por meio de sua assessoria jurídica, acionou órgãos federais diante de denúncias de violência contra povos indígenas após o segundo turno das eleições presidenciais de 2026.
Além das ameaças de morte, manifestações racistas e relatos de ameaças de envenenamento da água de comunidades indígenas em Tacuru e Nioaque, a entidade menciona assassinatos em Naviraí e atropelamentos em Coronel Sapucaia. Diante da gravidade dos relatos, a Apib encaminhou ofício e representação criminal ao MPF (Ministério Público Federal), à PF (Polícia Federal) e a órgãos do Governo Federal.
Entre os destinatários, estão os ministérios da Justiça e Segurança Pública, dos Povos Indígenas e dos Direitos Humanos e da Cidadania. O encaminhamento busca mobilizar as autoridades competentes para apurar as denúncias e adotar as providências cabíveis.
O Jornal Midiamax entrou em contato com o prefeito de Tacuru, Rogério Torquetti (PSDB), mas ele não atendeu às ligações. O espaço permanece aberto para manifestação.
A Secretaria de Desenvolvimento Econômico do município informou à reportagem que tomou conhecimento das ameaças por meio da imprensa e das redes sociais. A pasta ressaltou que, no áudio, não há menção explícita de que as ameaças tenham sido direcionadas aos indígenas.
Afirmou ainda que a administração municipal está à disposição, mas aguarda o andamento dos procedimentos de investigação. O Jornal Midiamax também procurou o ministro dos Povos Indígenas, Eloy Terena, e a Funai (Fundação Nacional dos Povos Indígenas), mas não obteve resposta até o fechamento desta reportagem.
Em nota, foi dito: “O Ministério dos Povos Indígenas informa que tomou conhecimento das denúncias de violência e ameaças contra os indígenas Guarani e Kaiowá, em Mato Grosso do Sul, e acionou a Polícia Federal para que os fatos sejam investigados de forma célere e exemplar.
A pasta está em diálogo com as comunidades indígenas, por meio do Departamento de Mediação e Conciliação de Conflitos Fundiários Indígenas (Demed), e segue atuando para que os direitos dos indígenas sejam garantidos e assegurados.” O Cimi (Conselho Indigenista Missionário) informou que está verificando as informações para avaliar as medidas cabíveis.
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