Os indicadores do mercado financeiro registraram um dia positivo, apesar do mar revolto no exterior. A Bolsa voltou a firmar alta nesta terça-feira, encerrando em avanço preliminar de 1,2%, aos 187.366 pontos. É o maior nível para o índice desde o início de maio. Para analistas, o acirramento nas pesquisas eleitorais, o retorno do investidor estrangeiro após as companhias brasileiras estarem com preços “descontados” e a recomendação do Bank of America para comprar ações do país contribuíram com a valorização desta terça-feira. A compra de reais com o apetite gringo somada à exposição da moeda ao petróleo fizeram o dólar fechar em queda de 0,86%, aos R$ 5,08, no menor patamar em um mês. Entenda, em pontos, o movimento do mercado hoje: 'Trade' eleitoral Pesquisas eleitorais — como a Quaest, na segunda-feira — mostrando acirramento entre Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) em eventual segundo turno faz o mercado financeiro revisar a expectativa de algumas semanas atrás, quando as sondagens mostravam vantagem clara do petista à reeleição. — O mercado estava numa certeza de que o Flávio não teria condição de ganhar do Lula desde maio, com o caso Dark Horse. E isso começou a se inverter de um mês para cá — diz Felipe Tavares, economista-chefe da BGC Liquidez. — Sem especificar detalhe ou tamanho da reforma, há sinalização na oposição de que teremos reforma, de botar um freio de arrumação — ele diz, afirmando que a relação entre a dívida pública e o PIB cresceu em dez pontos percentuais desde 2023, para os atuais 82,5%.
Quanto mais alta essa relação, mais juros os investidores pedem para refinanciar a dívida soberana. Juros mais altos tendem a arrefecer a economia, o que é ruim para os resultados das companhias da Bolsa. Recomendação do Bank of America para ações brasileiras O Bank Of America elevou a recomendação das ações brasileiras para compra. A avaliação da instituição americana é que a “a desaceleração da atividade econômica e a redução dos riscos inflacionários podem permitir um ciclo de flexibilização monetária mais profundo”, isto é, uma queda de juros maior do que a prevista anteriormente. A previsão do banco, agora, é de que a Selic termine 2027 a 11,25%, ante previsão de 12,75% em junho. Para o BofA, “o impacto de uma política monetária mais expansionista provavelmente levará as avaliações das ações para níveis menos deprimidos, superando os riscos de revisões negativas nas projeções de lucros, desaceleração da demanda e, em alguma medida, até mesmo a incerteza eleitoral”. O banco afirma que as ações brasileiras possuem um desconto de 10% em relação à média histórica. Redução à exposição de big techs nos EUA Para Gilberto Nagai, superintendente de renda variável na SulAmérica Investimentos, a perspectiva de que o Fed (Federal Reserve, o banco central americano) suba os juros na reunião da quarta-feira que vem (16) faz com que os investidores retirem parte das aplicações de empresas americanas ligadas à inteligência artificial e voltem as apostas para empresas ligadas à economia real, como commodities e papéis de instituições financeiras: — Nem todas as big techs geram caixa. E, se você não gera caixa, as condições financeiras vão piorar com juros altos. Por isso o estrangeiro realoca parte para outras geografias, tirando dinheiro de tecnologia — avalia. O relatório do Bank of America, diz Nagai, também contribui com o movimento de alta nesta terça-feira. O investidor estrangeiro, ele diz, confia mais em instituições internacionais. Como é o investidor internacional que tem dado a tônica no movimento local, o apetite acaba refletindo a indicação. Avaliações baratas Em relatório, Fábio Fonseca, sócio e gestor dos fundos de ações da JGP, afirma que a desvalorização firme das ações brasileiras no mês passado abriu espaço para “baratear” as ações, o que tornou o ambiente atraente aos olhos do investidor internacional. “A combinação entre preços deprimidos e distorções técnicas passou a oferecer uma relação entre risco e retorno significativamente mais favorável”, diz trecho da análise. Petróleo em alta Para além do apetite do investidor internacional sobre as companhias brasileiras, o que contribuiu com o ingresso do capital internacional, o petróleo — que encerrou o dia no maior valor desde julho, aos US$ 97,92 — também teve parte no desempenho do real na sessão, avalia Tavares, da BGC.
Ainda que pormenor, ele diz, a relação da entrada do consumidor estrangeiro pode ter contribuído com o desempenho da divisa hoje. O DXY , que mede o ímpeto da moeda americana frente seis divisas de países emergentes, oscilava perto da estabilidade próximo do fechamento do mercado de câmbio no Brasil, às 17h.
Tesouro aproveita cenário e faz mega leilão Aproveitando a queda firme nos juros futuros nesta terça-feira, o Tesouro Nacional conseguiu vender um lote relevante de NTNB-s (Títulos atrelados à inflação). Diante das incertezas relacionadas à condução dos gastos públicos, o gestor da dívida vinha apresentando dificuldades para captar recursos através deste papel nos últimos meses. Foram emitidos 2,15 milhões destes títulos, com vencimentos para 2029, 2033 e 2055. Foram captados R$ 9,673 bilhões. Segundo Sergio Goldenstein, sócio da da Eytse Estratégia e ex-diretor do Departamento de Mercado Aberto do Banco Central, foi o maior leilão para este título no ano: — As condições no mercado de juros se tornaram mais favoráveis devido à queda do prêmio de risco com a melhora da perspectiva eleitoral da oposição nas eleições presidenciais e à visão de que o ciclo de queda da Selic deve prosseguir após a reunião de setembro — disse.
O Globo