Bipolaridade e trabalho: quando a busca por alta performance vira um desafio

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Trabalhar até tarde, dormir pouco, assumir vários projetos ao mesmo tempo e estar disponível praticamente o dia inteiro ainda são comportamentos frequentemente associados à ideia de alta performance. No ambiente profissional, a disposição constante pode ser confundida com comprometimento, enquanto o cansaço costuma ser tratado como algo a ser superado. Para quem tem transtorno bipolar, porém, esse modelo de trabalho pode trazer desafios específicos, principalmente quando envolve privação de sono, excesso de demandas e pouca previsibilidade. Uma rotina de trabalho intensa pode afetar a saúde? Veja os sinais de que é hora de desacelerar Mente sobrecarregada? 8 hábitos simples para aliviar o estresse e recuperar o equilíbrio Saúde emocional da mulher: dicas para lidar com sobrecarga e estresse diário A condição não se resume às oscilações de humor que fazem parte da vida cotidiana. Durante episódios depressivos, podem surgir queda de energia, dificuldade de concentração e perda de interesse. Já em fases de mania ou hipomania, é possível haver aumento de energia, aceleração do pensamento, redução da necessidade de sono e comportamentos impulsivos. Isso não significa, porém, que qualquer mudança de disposição esteja relacionada ao transtorno. A psiquiatra e palestrante Maria Isabel Nestarez chama atenção para a importância de observar o conjunto de sintomas, além da duração e da intensidade dessas alterações. "Ter dias de maior disposição e outros de cansaço ou desânimo faz parte da experiência humana. No transtorno bipolar, estamos falando de episódios com um conjunto de sintomas, duração e intensidade capazes de provocar mudanças relevantes no funcionamento daquela pessoa. O diagnóstico precisa ser feito por um profissional e nunca a partir de uma característica isolada", explica. Como isso aparece no trabalho No ambiente profissional, mudanças significativas de comportamento podem ser interpretadas de diferentes maneiras. Uma alteração persistente pode ser confundida com traços de personalidade, falta de interesse ou até queda de desempenho, enquanto períodos de energia acima do habitual podem ser vistos apenas como dedicação excepcional. A psicóloga, neuropsicóloga e psicanalista Cristiane Belmonte Ribeiro, diretora da Belmonte Saúde, destaca que o principal ponto de atenção está na diferença em relação ao padrão habitual daquele indivíduo e na duração da mudança. "O que merece atenção não é uma mudança pontual de humor, todo mundo tem um dia ruim ou um dia mais empolgado, e sim um padrão que foge do jeito habitual daquela pessoa e que se mantém por um tempo, afetando de forma consistente o funcionamento dela", afirma. Dormir pouco não é sinônimo de alta performance Entre os diferentes aspectos que podem interferir no equilíbrio de quem tem transtorno bipolar, o sono merece atenção. Jornadas extensas, cobrança por resultados e horários irregulares podem dificultar a manutenção de hábitos consistentes. "Para quem tem transtorno bipolar, preservar a regularidade do sono e da rotina pode ser especialmente importante. A cultura de trabalhar até tarde, dormir pouco e permanecer disponível o tempo inteiro não deveria ser romantizada como sinônimo de comprometimento profissional", ressalta Maria Isabel. A psicóloga, escritora e especialista em saúde mental organizacional Daisy Cangussú também chama atenção para uma associação comum no mercado de trabalho: a ideia de que estar constantemente ocupado significa necessariamente produzir mais. "É importante diferenciar estar muito ativo de estar funcionalmente produtivo. Produtividade não é apenas fazer mais coisas: envolve conseguir estabelecer prioridades, manter o foco, avaliar consequências, tomar decisões e sustentar uma rotina de trabalho ao longo do tempo", avalia. Nesse contexto, períodos de atividade intensa não devem ser automaticamente interpretados como sinal de desempenho excepcional. A avaliação passa também pela capacidade de manter concentração, organização e tomada de decisões de forma consistente. Diagnóstico não significa incapacidade Ter transtorno bipolar não impede alguém de construir uma carreira ou ocupar posições de responsabilidade. Dependendo das necessidades individuais, algumas condições podem favorecer uma experiência profissional mais sustentável, como horários previsíveis, períodos adequados de descanso, prioridades bem definidas e flexibilidade em determinadas fases. O cuidado também envolve evitar que o diagnóstico passe a determinar a forma como todo comportamento é interpretado. Para Cristiane, transformar qualquer reação em possível sinal de uma crise pode aumentar o estigma e fazer com que o profissional se sinta permanentemente observado. "A pessoa com transtorno bipolar tem os mesmos dias bons e ruins que qualquer outra, e ficar monitorando ou rotulando cada reação como ‘crise’ só aumenta o peso do estigma e faz a pessoa se sentir vigiada", pondera. Daisy acrescenta que oferecer acolhimento não significa acompanhar ou controlar cada mudança de comportamento. O objetivo, segundo ela, é criar um espaço em que questões de saúde possam ser tratadas sem que o diagnóstico seja associado automaticamente à falta de competência. "Um ambiente de trabalho verdadeiramente inclusivo é aquele em que a pessoa pode reconhecer que não está bem e buscar ajuda sem receio de ser imediatamente considerada instável, incapaz ou menos competente", destaca. Mais do que adaptar uma carreira a um diagnóstico, a discussão passa por construir condições que permitam conciliar trabalho e cuidado em saúde. Maria Isabel reforça que a condição não deve ser usada como medida da capacidade profissional. "O diagnóstico não define a competência profissional de ninguém. O mais importante é que a pessoa tenha tratamento adequado, consiga reconhecer seus sinais de alerta e encontre condições para exercer seu trabalho sem precisar sacrificar a própria estabilidade para provar produtividade", conclui.

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