Bilionários impulsionam gastos recordes nas eleições, mas impacto será limitado

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Fonte da notícia: Valor Valor

Manifestante usa representações do candidato republicano ao Senado pelo Texas, Ken Paxton, e de Musk em Austin Eric Gay/AP

A eleição de meio de mandato dos EUA se encaminha para ser a mais cara da história do país, marcada por doações bilionárias e pela crescente influência de megadoadores, especialmente ligados ao Partido Republicano. O volume reacende preocupações sobre a concentração de poder econômico e a transparência do financiamento eleitoral.

Mas analistas apontam que a vantagem financeira republicana não necessariamente se traduzirá em ganhos sobre os democratas. Os dois partidos gastaram uma quantia recorde de US$ 11,87 bilhões em anúncios neste ciclo eleitoral de 2025-2026, superando os US$ 11,2 bilhões registrados na eleição presidencial de 2024 e os US$ 8,97 bilhões do ciclo eleitoral de meio de mandato de 2021-2022, segundo a AdImpact, empresa que monitora o setor publicitário nos Estados Unidos.

“A cada eleição, parece que o preço do poder político bate um novo recorde”, diz Henrik Schatzinger, professor de Ciência Política no Ripon College e especialista em financiamento de campanhas. “Gastos recordes se tornaram a nova normalidade, com campanhas e grupos externos elevando constantemente as apostas.”

Grande parte desse dinheiro vem de doações milionárias feitas por indivíduos que querem influenciar qual partido controlará o Congresso. O maior doador é o empresário bilionário Elon Musk, que gastou US$ 446 milhões apoiando os republicanos, tornando-se o maior doador individual em um único ciclo eleitoral na história moderna do país.

“Basicamente, temos uma corrida armamentista entre bilionários: apenas dez grandes doadores e duplas de doadores contribuíram com mais de US$ 1,2 bilhão para as eleições de meio de mandato de 2026”, afirma Schatzinger. Já os 40 maiores doadores contribuíram com mais de US$ 2,4 bilhões até meados de outubro, segundo análise do instituto Brennan Center for Justice.

Considerando a inflação, esse valor é aproximadamente oito vezes maior do que as contribuições feitas pelo mesmo grupo no mesmo período das eleições de meio de mandato de 2014. Os republicanos têm uma vantagem considerável quando se trata dos maiores doadores.

Do total destinado pelos 40 maiores doadores, cerca de US$ 1,5 bilhão foi direcionado ao partido do presidente Donald Trump, quase três vezes mais do que os US$ 496 milhões destinados aos democratas. Além da participação de Musk, as outras doações refletem o interesse crescente de setores como tecnologia, criptomoedas, inteligência artificial e apostas esportivas no financiamento eleitoral.

Grupos ligados a criptomoedas, por exemplo, teriam gastado aproximadamente US$ 176 milhões em mais de cem disputas eleitorais neste ciclo americano. George Soros é um dos poucos entre os 40 maiores doadores individuais que contribuem principalmente para o Partido Democrata.

O investidor bilionário e fundador da Open Society Foundations destinou US$ 102 milhões às eleições, valor significativamente inferior ao desembolsado por Musk. Segundo especialistas, o volume recorde de dinheiro é possível porque grande parte dos recursos é direcionada aos chamados super PACs, comitês de ação política que podem receber doações de valores ilimitados e gastar quantias sem teto para apoiar ou se opor a candidatos.

“Os super PACs podem aceitar doações de qualquer valor e também gastar quantias ilimitadas, desde que façam isso separadamente das campanhas dos candidatos”, diz Jen Heerwig, professora associada de sociologia na Universidade de Stony Brook, que pesquisa as contribuições políticas das elites corporativas americanas.

“Esses grupos receberam centenas de milhões de dólares em doações de pessoas extremamente ricas nos EUA.” Os gastos dos super PACs atingiram US$ 2 bilhões no fim de setembro, um aumento de 51% em relação ao último ciclo eleitoral de meio de mandato, em valores ajustados pela inflação, segundo o Brennan Center.

No centro dessa onda de gastos estão as disputas mais competitivas, especialmente para o Senado. Estados como Texas, Ohio, Michigan e Maine estão entre os principais focos de investimento.

No Texas, por exemplo, mais de meio bilhão de dólares foi gasto na disputa entre o democrata James Talarico e o republicano Ken Paxton, segundo a OpenSecrets. Musk, por sua vez, já investiu mais de US$ 150 milhões em comitês de ação política que apoiam Paxton no Estado.

“O dinheiro tem importância especialmente nas eleições muito disputadas. Mesmo uma pequena mudança no apoio dos eleitores pode fazer a diferença entre ganhar e perder”, diz Schatzinger.

“O dinheiro pode ajudar a determinar quem recebe atenção e quem é visto como um concorrente relevante.” Nesse cenário, os republicanos apostam que a vantagem junto aos megadoadores ajude a compensar o desgaste político dos últimos meses, incluindo a impopular guerra com o Irã e os altos preços ao consumidor.

Especialistas, porém, apontam limites para o efeito desse dinheiro. “Gosto de destacar que o dinheiro pode comprar um megafone, mas não necessariamente consegue comprar o sentimento do país.

E esse sentimento é amplamente moldado pelo custo de vida”, diz o professor do Ripon College. “Isso cria um ambiente difícil para o partido do presidente.

A inflação e o emprego são problemas que os gastos de campanha, por si só, não conseguem superar.” Heerwig também destaca que, quando se considera apenas o financiamento direto das campanhas, sem os recursos que passam pelas super PACs, os candidatos democratas estão arrecadando mais recursos diretamente dos eleitores do que os republicanos nas disputas mais competitivas para o Senado.

Esse dinheiro tem maior poder de alcance do que os recursos dos super PACs, porque os candidatos têm acesso a tarifas mais baixas para anúncios publicitários e mais controle da sua mensagem. “Alguns candidatos estão recebendo muitas doações de pequenos valores.

São muitas pessoas diferentes doando talvez US$ 5, US$ 10 ou US$ 15”, diz a professora. “Isso sugere que as pessoas estão entusiasmadas, prontas para sair e votar, e empolgadas com esses candidatos.

Enquanto isso, os números de arrecadação dos candidatos republicanos são bastante fracos.” Ainda que a influência no resultado seja limitada, pesquisas mostram que crescem as preocupações sobre a transparência e corrupção relacionada aos volumes cada vez maiores de recursos nas campanhas.

Segundo o Pew Research Center, 74% dos americanos consideram a presença do dinheiro na política um problema muito grave. “Se você perguntar às pessoas, elas vão dizer, independentemente do partido, que concordam que a quantidade de dinheiro nas eleições é um problema.

Ela favorece a corrupção e as pessoas não gostam disso”, diz Heerwig. “Acho que os eleitores americanos estão atentos às enormes quantias de dinheiro direcionadas a essas disputas.

Especialmente nesta eleição de meio de mandato, em que a diferença entre o que os candidatos estão fazendo e o que os super PACs estão fazendo ficou tão evidente”, acrescenta. Segundo a professora, a expansão dos gastos eleitorais por meio dos super PACs está relacionada a decisões da Suprema Corte dos Estados Unidos em 2010, que alteraram as regras de financiamento de campanhas.

No caso Citizens United v. FEC, a corte permitiu que empresas e sindicatos realizassem gastos independentes para influenciar eleições.

Meses depois, a decisão SpeechNow.org v. FEC abriu caminho para a criação dos super PACs, que podem arrecadar e gastar quantias ilimitadas, desde que não coordenem suas atividades com candidatos ou campanhas.

“Estamos em um mundo muito diferente daquele de dez anos atrás, por causa dos super PACs e dessa divisão entre o dinheiro dos candidatos e o dinheiro externo que surgiu nas eleições”, diz Heerwig. “Antes da Citizens United e da decisão SpeechNow, tínhamos um conjunto de leis de financiamento de campanhas mais atualizado.

Sob essas leis, havia poucos gastos externos e menos opções para que bilionários realizassem esse tipo de despesa.” Na prática, porém, a separação entre campanhas e grupos externos é cada vez mais questionada.

Candidatos e super PACs frequentemente atuam em ambientes políticos próximos, embora a coordenação direta seja proibida. Em um dos exemplos mais evidentes, Trump se referiu repetidamente às centenas de milhões de dólares arrecadados por seu super PAC, o Maga Inc., como “seu” dinheiro, sem esconder a influência sobre o grupo.

A fiscalização dessas regras também enfrenta dificuldades. Durante grande parte deste ciclo eleitoral, a Comissão Eleitoral Federal (FEC, na sigla em inglês), responsável por supervisionar o financiamento das campanhas, operou sem quórum, o que limitou a capacidade de conduzir investigações, impor sanções e aprovar novas regulamentações.

“Atualmente, esse órgão tem apenas dois membros, de um total de seis necessários. A comissão deveria ter seis integrantes em exercício, mas conta apenas com dois”, diz Heerwig.

“O presidente não demonstrou muito interesse em nomear mais comissários para a FEC.” Nesse cenário, a combinação entre regras que permitem a circulação de quantias cada vez maiores de dinheiro e dificuldades na fiscalização alimenta a expectativa de que os gastos eleitorais continuem crescendo nos próximos ciclos.

“Esse é o paradoxo da democracia americana hoje: os eleitores estão profundamente preocupados com a influência do dinheiro na política, mas, eleição após eleição, os recursos continuam entrando em volumes cada vez maiores”, afirma Schatzinger.

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