Bernie Taupin, parceiro histórico de Elton John, lança primeiro disco solo em 40 anos

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

Há trinta anos, Bernie Taupin entrou no mar em uma praia no México e por pouco não conseguiu sair. “Fui pego por uma corrente e, infelizmente, a praia estava deserta”, relembrou.

“Tentei nadar contra a corrente e comecei a ficar sem fôlego, engolindo água. De repente, um pescador apareceu caminhando pela praia, carregando uma corda no ombro.

Ele apontou para as rochas à minha direita e gritou: ‘Nade de lado!’. Comecei a fazer isso, então ele jogou a corda e me puxou para as rochas — onde acabei sofrendo cortes profundos no peito.

Mas ele salvou a minha vida. “Até hoje”, diz Taupin, “ainda tenho pesadelos com isso.”

A lembrança se mostrou tão persistente que acabou inspirando a faixa-título do novo álbum solo de Taupin, “The sea has no mercy”, um projeto que destoa bastante de tudo o que ele, aos 76 anos, já havia feito anteriormente. O compositor conta que utilizou a imagem do mar como metáfora para sua própria vida, pois “aquilo que me aterroriza também me fascina”.

Taupin alcançou fama mundial ao unir suas letras vívidas e surpreendentes às composições de Elton John — em sucessos que vão desde as declarações mais sinceras, como “Your song”, até as mais ácidas, como “The bitch is back”. No entanto, já se passaram quase 40 anos desde seu último álbum solo.

Este novo trabalho marca a primeira vez em que Taupin compôs tanto a música quanto a letra de um álbum inteiramente por conta própria. Além disso, ele canta em todas as faixas.

“Foi uma experiência maravilhosa finalmente contar a minha própria história, sem precisar incorporar os sentimentos de mais ninguém naquilo que eu estava escrevendo”, disse Taupin durante uma entrevista em vídeo, realizada de sua casa no Vale de Santa Ynez, ao norte de Santa Bárbara, na Califórnia.

“Eu não estava escrevendo uma música para alguém. Não estava escrevendo uma música com alguém.

Tudo o que eu escrevia era para mim mesmo. É um ato completamente egoísta, da maneira mais acertada possível.”

Bernie Taupin em Londres, em outubro de 2026 SAM DEARDEN / The New York Times

As canções refletem emoções e perspectivas com as quais qualquer pessoa de uma certa idade consegue se identificar. “É, de fato, um álbum de uma fase mais madura da vida”, comentou ele.

“Eu queria que fosse algo reflexivo, que mostrasse como eu via as coisas naquela época, como as vejo agora e como encaro o futuro.” Taupin não esperava produzir um álbum como este, especialmente considerando as frustrações que teve com seus trabalhos solo anteriores — o último deles, “Tribe”, foi lançado durante a presidência de Ronald Reagan.

“Sempre senti que, em tudo o que fiz antes, havia o desejo da gravadora de que eu criasse algo comercialmente viável. Desta vez, não houve nada disso.”

Essa sensação de liberdade transpareceu em sua postura ao longo de uma entrevista de 90 minutos. Taupin não desviou o olhar nem por um segundo, mantendo uma expressão sincera e entusiasmada.

“Estou vivendo o melhor momento da minha vida!”, disse ele. O impulso para o álbum surgiu a partir de dois outros projetos nos quais Taupin esteve envolvido na última década.

O primeiro foi sua autobiografia de 2023, intitulada “Scattershot: Life, Music, Elton and Me”. Apesar do subtítulo, a obra evita as repetições típicas de memórias convencionais, dando lugar a relatos inusitados de seus encontros com artistas como Salvador Dalí — a quem Taupin considerava uma espécie de charlatão — e o compositor francês Serge Gainsbourg, cuja aparência, segundo escreveu de forma memorável, dava a impressão de que ele havia sido “mergulhado em gordura vegetal e rolado em pelos pubianos”.

Na sequência, Taupin filmou um documentário sobre sua vida, com lançamento previsto para o início de 2027. Esses projetos de reflexão o levaram a “querer ir além”, disse ele.

“Este álbum é, de certa forma, uma versão vocalizada das minhas memórias.” Mesmo aqueles que já ouviram a voz de Taupin em seus álbuns solo anteriores — ou nos dois discos que gravou com sua banda de americana, Farm Dogs, nos anos 90 — ficarão surpresos com a sonoridade de sua voz hoje.

Ela apresenta uma textura mais rouca e um tom mais grave, evidenciando o passar dos anos, como se fosse um “lifting” facial às avessas. “Eu tinha preocupações em relação à minha voz”, comentou Taupin.

“Mas prefiro muito mais a minha voz como ela está agora do que como era antes. Ela traz muito mais honestidade.”

Na canção “Old Church Road”, sua voz treme com a sabedoria vivida de um Willie Nelson, enquanto em “Joker” ele evoca o rosnado visceral de Howlin’ Wolf. Tanto para a música quanto para a letra, Taupin buscou inspiração em diversas fontes: desde os devaneios profundos de Leonard Cohen e as histórias astutas de John Prine até a sonoridade rústica e peculiar de Tom Waits.

O tom geral é solene, com uma produção que remete à atmosfera etérea presente no trabalho do produtor Daniel Lanois no álbum “Wrecking Ball”, de Emmylou Harris. A habilidade de Taupin com a melodia pode surpreender muitos, já que ele afirma nunca ter contribuído — nem mesmo sem crédito — com a parte musical de uma gravação anteriormente.

“Sempre escrevi letras usando um violão. É como o Linus com seu cobertor”, disse ele, referindo-se ao personagem de “Peanuts”.

“Antes, eu usava o instrumento apenas para criar padrões rítmicos para as letras. Esta abordagem foi uma extensão natural disso.”

Embora as letras que Taupin uniu às melodias sejam as mais pessoais de sua carreira, elas raramente são literais, valendo-se, em vez disso, de metáforas elaboradas. A metáfora do mar, presente no título, também aparece na faixa de abertura, “The Fisherman”, que aborda a questão da fé ao fazer referência a um antigo termo hebraico para Deus.

Em certos momentos, suas letras criticam a escassez de modelos a serem seguidos na vida contemporânea. “Simplesmente não temos mais os heróis que tínhamos no passado”, diz ele.

“Fico perplexo com a estupidez da vida atual.” Se isso soa um pouco como as observações rabugentas de alguém de uma geração mais antiga, Taupin não se importa.

“Quando você chega à minha idade, tem o direito de ser rabugento”, diz ele, rindo. Ainda assim, ele fez questão de encerrar o álbum com uma mensagem de esperança para suas duas filhas — a mais nova delas, Georgey, de 18 anos, canta com ele na faixa “One Hundred Ways”.

Nela, ele assegura às filhas que, mesmo depois de sua partida, “as árvores continuarão a crescer / a grama estará sob seus pés / e haverá sementes na terra”.

Publicação Original O Globo oglobo.globo.com
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