Gettyimages Com a piora significativa dos ativos financeiros após a vitória do presidente Lula nas eleições de outubro, e a correspondente deterioração das expectativas de inflação, o Banco Central (BC) perdeu espaço para sua política de “calibração” que pressupunha cortes modestos e cautelosos da taxa de juros.
Mesmo com o nível da Selic altamente contracionista, o Copom decidiu pôr fim aos cortes de juros. Diante de um cenário “desafiador para a política monetária”, o comunicado aponta que o objetivo agora é “manter a restrição adequada de forma a assegurar a convergência da inflação à meta”.
Tanto a inflação como a média das medidas subjacentes se aceleraram, mesmo com uma “moderação mais acentuada da atividade econômica” e sinais de “desaquecimento na margem” do mercado de trabalho. Utilizando no cenário de referência as taxas projetadas pelo boletim Focus, o BC viu a inflação ao fim do segundo trimestre de 2028, o horizonte relevante para a política monetária, aumentar de 3,2% para 3,5%, distanciando-se mais da meta para a qual antes convergia.
Para 2026 e 2027, as expectativas de inflação para 2026 e 2027 se deterioraram, respectivamente de 5,2% e 3,9% antes para 5 ,6% e 4,7% agora. Há vários motivos que corroboram sua decisão.
As expectativas inflacionárias, que nunca deixaram de estar desancoradas, voltaram a se afastar da meta de inflação de 3%, e os investidores passaram a projetar queda menor da taxa Selic. Manteve-se em 13,5% no ano corrente, mas aumentou em 2027, de 12% para 12,5%, e em 2028, de 10,5% para 11%.
Ainda assim, no cenário de referência, a inflação não se aproxima da meta, um sinal de que um aumento dos juros pode ocorrer no futuro. Não houve boas notícias no front da inflação entre uma e outra reunião do Copom.
O Banco Central já esperava um repique no último trimestre do ano, com o IPCA ultrapassando em todos os meses o teto da meta, de 4,5%, no acumulado em 12 meses, como está acontecendo. A inflação de serviços seguiu a um ritmo de 6%, também nessa base de comparação, com elevação mais acentuada nos serviços intensivos em mão de obra.
Os preços dos alimentos voltaram a subir, o que ainda pode ser potencializado pelos efeitos de um El Niño forte. Os preços do petróleo subiram nada menos que 15,7% em outubro.
Ainda que gasolina, diesel e etanol estejam sendo subsidiados, com menor influência no IPCA, os custos dos combustíveis pesam na composição dos preços de milhares de bens e serviços. Se não recuarem significativamente no curto prazo, em algum momento os preços domésticos deixarão de ser represados pelo alto custo das subvenções, de R$ 12,1 bilhões ao mês.
Seu peso não chega a ser destrutivo porque as receitas com exportações de petróleo batem recordes, assim como os níveis de produção. Mesmo com corte gradual dos incentivos, haverá algum impacto na inflação em 2027.
As cotações das commodities, por seu lado, também apontaram para cima. As de energia aumentaram 31,7% no ano, enquanto o conjunto delas (metais e agrícolas) evoluiu 13,73% em dólar.
Grande exportador de petróleo e commodities, as fortes vendas externas contribuem para estabilidade ou desvalorização do dólar em relação ao real, mas em uma semana após a vitória do presidente Lula a cotação atingiu seu maior valor do ano (R$ 5,49) e a maior elevação em sete dias desde o início da grande crise financeira em 2008, de 9%.
O deslizamento significativo do dólar pode ou não ser duradouro. Na sua origem, ele não reflete grandes fluxos negativos da moeda americana.
Tem relação com o negacionismo fiscal do governo de Lula, que resiste a cortar despesas depois de ter empilhado uma porção de novas, de cunho eleitoreiro, na reta final da campanha. Se não houver nenhum esforço fiscal que possa mudar a percepção dos investidores, o dólar pode subir de patamar e aumentar sua volatilidade, ao sabor das reviravoltas de um cenário externo muito instável.
A alta do dólar piora o cenário inflacionário em um momento já desfavorável, e instila uma instabilidade que decorre de uma variável sobre a qual o BC não tem nenhum controle, o déficit fiscal. O governo não fez movimentos assertivos nessa área e é possível que não os faça, sabotando suas próprias intenções de fazer a economia crescer.
A economia seguiu em desaceleração no terceiro trimestre; o BC reduziu sua projeção para o PIB do ano corrente de 2% para 1,8%, e a de 2027 prevê 1,4%. Analistas privados estão mais pessimistas: 1,76% para a evolução do PIB em 2026 e 1,2% em 2027, ambas com viés de baixa.
O governo também vive um dilema. Ele poderá ter de enfrentar uma economia com o menor crescimento da década, excluído o ano da pandemia, inflação resistente e juros altos, que provocou inadimplência recorde de pessoas físicas e de milhares de empresas.
Não é certamente isso que o presidente Lula tem na cabeça para o encerramento de uma carreira política ímpar. Em algum momento terá de encarar corte de gastos, tarefa que pode ser gradual e eficaz, desde que sério e persistente, sem desmanchar os programas sociais que tanto preza.
Valor