Alfredo Stroessner tomou o poder no Paraguai com um golpe de EstadoReprodução/Wikimedia Commons Em 2019, o então presidente Jair Bolsonaro homenageou publicamente o militar paraguaio Alfredo Stroessner durante uma cerimônia na usina de Itaipu, na fronteira entre Brasil e Paraguai.
Na ocasião, Bolsonaro chamou o ditador de "um estadista que sabia perfeitamente que o seu país, Paraguai, só poderia prosseguir, progredir se tivesse energia".Nessa semana, o país vizinho volta a passar por uma crise política envolvendo o mesmo Partido Colorado que historicamente esteve ligado ao regime de Stroessner.
O episódio mais recente tem como personagem o atual presidente Santiago Peña, que apresentou sua renúncia nesta quinta-feira (05), em meio a uma crise provocada por problemas financeiros no banco digital Ueno.O partido de Peña, assim como as Forças Armadas do Paraguai, foram responsáveis por apoiar o golpe que levou Stroessner ao poder e o manteve no poder por 35 anos.Quem foi Stroessner?Stroessner nasceu em 03 de novembro de 1912 e seguiu carreira no Exército paraguaio, país que governou entre 1954 e 1989, período marcado por uma das ditaduras mais repressivas da América Latina.
General das Forças Armadas, chegou ao poder após um golpe de Estado, em 04 de maio de 1954, que retirou Federico Chávez da Presidência.Logo após assumir o governo, Stroessner suspendeu garantias previstas na Constituição, perseguiu partidos políticos e implantou um regime que se apresentava como anticomunista.
Na política externa, adotou medidas alinhadas aos interesses dos Estados Unidos, que também apoiaram sua chegada ao poder.A ligação entre os militares e o partido era tão forte que, para entrar nas Forças Armadas, inclusive nas escolas de formação militar, era necessário ser filiado ao Colorado.
Além disso, militares que ainda estavam na ativa ocupavam cargos importantes no governo.Durante os 35 anos de ditadura, o regime promoveu 19.862 prisões, 18.772 pessoas torturadas, 459 desaparecimentos ou execuções e 20.814 pessoas forçadas ao exílio, segundo relatório da Comissão da Verdade e Justiça do Paraguai.O documento ainda registrou 236 menores de idade privados de liberdade e 17 crianças que nasceram na prisão.
Ao todo, foram identificadas 128.076 vítimas diretas e indiretas da repressão.Inauguração da Ponte da Amizade, entre Brasil e Paraguai, com os Presidentes Castelo Branco e Alfredo StroessnerReprodução/Arquivo Nacional CONFIRA: Entenda a crise que levou presidente do Paraguai a renunciarQueda de Stroessner e fim da ditaduraEm 1987, uma disputa interna no Partido Colorado ganhou força e acabou atingindo também as Forças Armadas.
O conflito envolvia os militantes, que apoiavam Stroessner, e os tradicionalistas, que eram contrários ao poder concentrado nas mãos dele.O general Andrés Rodríguez, que fazia parte do grupo tradicionalista e ocupava uma posição de destaque no governo, liderou a ação militar que derrubou o ditador.O golpe começou na noite de 02 para 03 de fevereiro de 1989 e ficou conhecido como Golpe da Candelária, por acontecer no dia dedicado a Nossa Senhora da Candelária.
Em menos de oito horas, Stroessner foi preso pelo então coronel Lino Oviedo, que era próximo de Rodríguez.Apesar da rapidez, aconteceram confrontos durante a operação, que provocaram a morte de militares de baixa patente. Após a derrubada do ditador, Rodríguez anunciou os motivos da ação em um pronunciamento transmitido pela Rádio 1º de Março.
Entre as justificativas apresentadas estavam a união do Partido Colorado, a abertura política no Paraguai e o respeito aos direitos humanos.Exílio no BrasilEm 05 de fevereiro de 1989, depois de deixar a Presidência, Stroessner foi para o exílio no Brasil, onde viveu até morrer, em 16 de agosto de 2006.Após a queda do ditador, Andrés Rodríguez assumiu a presidência.
Em 01 de maio de 1989, foi eleito com 74,4% dos votos. Apesar de ter feito parte do governo de Stroessner, começou o processo de abertura política no país.
A mudança também foi resultado da pressão de movimentos sociais, grupos políticos e cidadãos que defendiam a volta das liberdades e a realização de eleições democráticas.O isolamento internacional da ditadura tinha começado ainda em 1978. Naquele ano, foi criado o Acordo Nacional, que reuniu partidos e grupos contrários ao governo.
A pressão externa aumentou durante o governo do presidente estadunidense Jimmy Carter. Ao mesmo tempo, países vizinhos, como Argentina, Brasil e Uruguai, também passavam por processos de retomada da democracia.A transição política do Paraguai levou 19 anos.
Um dos principais marcos desse período foi a Constituição de 1992, que proibiu a reeleição presidencial e estabeleceu limites à participação de militares no poder.Mesmo após o fim da ditadura, o Partido Colorado continuou disputando eleições e permaneceu no comando do país até 2008, quando perdeu a Presidência."Arquivos do Terror"Parte das violações cometidas durante a ditadura foi documentada nos chamados "Arquivos do Terror", um conjunto de registros produzidos pela própria Polícia paraguaia durante o regime de Stroessner.Os documentos reuniam informações sobre pessoas detidas, como nome, filiação política, ideologia e dados familiares, além de registros sobre os motivos das prisões.
Esse material também revelou violações de direitos humanos praticadas por governos militares da Argentina, do Chile e do Uruguai durante a implementação do Plano Condor, uma articulação entre ditaduras sul-americanas para perseguir opositores políticos.Os arquivos foram descobertos em 22 de dezembro de 1992 e se tornaram provas importantes sobre a repressão política na América do Sul.
O material foi utilizado em dezenas de julgamentos de agentes responsáveis por crimes cometidos durante as ditaduras da região. Em junho de 2017, os documentos foram transferidos para o Arquivo Nacional de Assunção, para facilitar o acesso de pesquisadores e da população.
ultimos segundos IG