BC diz que inflação segue pressionada por demanda e exige Selic elevada

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

O Banco Central afirmou, em ata do Comitê de Política Monetária (Copom), que há "influência relevante" de choques de oferta sobre a inflação, mas destacou que ainda há pressão relevante de demanda sobre a dinâmica de preços, exigindo que a taxa Selic continue restritiva, mesmo com a desaceleração em curso da atividade. Ou seja, para o BC, os juros têm de continuar em um patamar elevado o suficiente para seguir freando a atividade econômica. Na semana passada, o colegiado baixou a Selic em 0,25 ponto percentual pela quarta vez consecutiva, reduzindo os juros básicos de 14,25% para 14% ao ano.

"O Comitê avalia que as evidências de transmissão da política monetária contracionista para a atividade econômica têm se acumulado gradualmente. Embora a política monetária esteja contribuindo de forma determinante para o processo de desinflação, a inflação permanece pressionada pela demanda, exigindo que a política monetária mantenha caráter restritivo", disse, em uma ata mais enxuta que a anterior, em linha com o comunicada da última semana Ao longo do documento, o BC cita choques relacionados ao "petróleo e seus derivados", remetendo aos impactos do conflito no Oriente Médio, e aos efeitos climáticos sobre agricultura e custos de energia, em referência ao fenômeno El Niño.

Segundo a ata, o BC avalia que não deve reagir aos efeitos primários de choques de oferta, mas é necessário "monitorar com atenção" eventuais efeitos de segunda ordem, e reagir com firmeza caso esses efeitos se materializem. Nesse contexto, o BC continuou sem dar qualquer sinalização sobre seus planos para as próximas reuniões, repetindo que vai avaliar a evolução dos dados para decidir o tamanho do ciclo de "calibração" da Selic, para manter um nível de "restrição adequada".

"No contexto atual de incerteza em níveis historicamente elevados, com riscos assimétricos na direção altista para os preços, o Comitê reitera que a magnitude do ciclo de calibração será ajustada à luz da evolução do cenário, de forma a manter a restrição adequada para assegurar a convergência da inflação à meta", disse. Atualmente, o BC projeta que o IPCA - índice oficial de inflação - deve chegar a 3,2% no primeiro trimestre de 2028, período em que sua missão é alcançar a convergência para meta (o chamado horizonte relevante). A meta é de 3,0%, com intervalo de tolerância entre 1,5% e 4,5%. Para o fim deste ano, a expectativa atual é de 5,1%, o que descumpre o alvo, e para o término de 2027, de 3,8%.

Esse cenário calculado pelo BC considera a trajetória da Selic do Boletim Focus, cuja mediana é de 13,75% para o fim de 2026 e de 12% para encerramento do ano que vem. Além disso, a conta considera uma taxa de câmbio que começa em R$ 5,10, o aumento do petróleo de 2,0% nos próximos seis meses e bandeira amarela na conta de luz no final de 2026. O Copom ainda destaca que "continuará acompanhando os dados para calibrar e refinar os impactos das medidas de estímulo à demanda e dos choques de oferta".

As medidas de estímulo à demanda são uma referência as políticas recentes do governo de Luiz Inácio Lula da Silva, como os programas de crédito, e são uma das ameaças de alta para a inflação que o Copom considera em seu balanço de riscos. Os perigos para uma alta ainda maior da inflação também incluem os choques de oferta, uma resiliência maior dos preços de serviços e uma "conjunção de políticas internas e externas" que levem a uma depreciação mais persistente do câmbio. Para o BC, neste momento, os riscos de alta para a inflação são mais significativos que os de baixa.

Após ruídos de comunicação no Copom de junho, o BC divulgou uma ata bastante enxuta nesta terça-feira, adicionando poucas informações adicionais em relação ao comunicada da quarta-feira passada.

Dentre as novidades, o BC destacou que a trajetória de "moderação" da atividade doméstica já era antecipada pelo colegiado. Segundo o comitê, os indicadores correntes apontam para desaceleração na passagem do primeiro para o segundo trimestre de 2026, disseminada entre os componentes de oferta e demanda do produto agregado.

"Naturalmente, em momentos de inflexão no ciclo econômico, observam-se sinais mistos advindos de indicadores econômicos. O Comitê relembra que o arrefecimento da demanda agregada é um elemento essencial do processo de reequilíbrio entre oferta e demanda da economia e convergência da inflação à meta", reforçou.

Em relação ao mercado de trabalho, afirmou que a taxa de desemprego mantém-se em patamares historicamente baixos, mas ressaltou que o crescimento da taxa de ocupação vem apresentando desaceleração, assim como os rendimentos médios dos trabalhadores. Nesse último ponto, porém, ponderou que o crescimento da renda ainda cresce a uma taxa superior à produtitividade do trabalho em termos reais.

"O Comitê segue atento ao debate sobre as dimensões corrente e estrutural do mercado de trabalho, enfatizando a necessidade do aprofundamento dessa análise para a avaliação dos padrões de transmissão dos níveis de ocupação para os rendimentos do trabalho e, finalmente, para os preços dos diversos setores da economia." Quanto à inflação, o BC reforçou o comunicado ao avaliar que os índices que medem os preços para os consumidores desaceleraram nas leituras mais recentes, mas permanecem acima do teto da meta em 12 meses. As medidas de inflação subjacente, por sua vez, estão ligeiramente abaixo do limite de tolerância superior. Na ata, o colegiado acrescentou sua avaliação sobre a inflação ao produtor, que recuou recentemente.

"Ainda sob a mesma perspectiva das variações acumuladas em 12 meses nas divulgações mais recentes, os preços aos produtores recuaram, sob forte influência da indústria extrativa, ao passo que as medidas menos voláteis da transformação mostraram ligeira elevação."

Por outro lado, o Copom destacou que as expectativas de inflação, medidas por diferentes instrumentos e projetadas por diferentes agentes, permanecem acima da meta em todos os horizontes. Mais uma vez, o BC ressaltou que esse fator aumenta o custo do processo de desinflação sobre a atividade - ou seja, exige-se uma desaceleração econômica maior para chegar ao mesmo resultado de baixa sobre a inflação.

Nesse contexto, o Copom reforçou a mensagem do comunicado de que "monitora com atenção" a desancoragem adicional de expectativas para prazos mais longos e acrescentou que tem debatido as possíveis causas desse movimento. "O Comitê avalia que perseverança, firmeza e serenidade na condução da política monetária contribuirão para a reancoragem das expectativas, importante para a convergência da inflação à meta com menor custo. A principal conclusão obtida, e compartilhada por todos os membros do Comitê, foi a de que, em um ambiente de expectativas desancoradas, como é o caso do atual, exige-se uma restrição monetária maior e por mais tempo do que outrora seria apropriado."

Quanto à política fiscal, o BC repetiu que há um impacto de curto prazo, majoritariamente por meio de estímulo à demanda agregada, e uma dimensão mais estrutural, que tem potencial de afetar a percepção sobre a sustentabilidade da dívida e impactar o prêmio a termo da curva de juros.

"Uma política fiscal que atue de forma contracíclica e contribua para a redução do prêmio de risco favorece a convergência da inflação à meta."

Sobre o cenário externo, o BC acrescentou que a incerteza segue em níveis elevados, tanto devido aos desdobramentos das tensões geopolíticas quanto em razão das "incertezas com relação à política econômica dos Estados Unidos".

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