Bactérias invisíveis movimentam R$ 2,21 bilhões no agronegócio brasileiro e ajudam a proteger plantações, com aplicações equivalentes a 37 milhões de hectares

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Um mercado de R$ 2,21 bilhões se formou em torno de seres vivos que ninguém enxerga a olho nu. Em cinco anos, produtos agrícolas à base de bactérias do gênero Bacillus passaram de 7,5 milhões para 37,2 milhões de hectares de área potencialmente tratada no Brasil.

A expansão de aproximadamente 391% reúne aplicações destinadas a proteger raízes, sementes e folhas contra doenças que podem comprometer colheitas inteiras. Os números são de 2025 e aparecem em um estudo científico publicado em setembro de 2026 por pesquisadores da Embrapa Meio Ambiente, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e da Kynetec Brasil.

O trabalho, divulgado pela Embrapa em 27 de outubro, identificou 297 produtos comerciais, 126 cepas bacterianas e registros de 42 empresas. Por trás das cifras, há uma mudança concreta na maneira como fazendas tentam preservar a produção de alimentos.

Em 2020, as vendas de produtos à base de Bacillus somavam US$ 114,31 milhões, aproximadamente R$ 628,7 milhões na conversão apresentada pelos pesquisadores. Em 2025, chegaram a US$ 403,17 milhões, equivalentes a cerca de R$ 2,21 bilhões.

O aumento acumulado do faturamento foi de 252%. Na safra 2024/2025, todo o mercado brasileiro de produtos contendo agentes de controle biológico faturou US$ 855,68 milhões.

As formulações com Bacillus responderam por 47% desse valor. Em número de aplicações potenciais, a participação foi de 43%.

O estudo foi publicado na revista Brazilian Journal of Microbiology, com dados de registros comerciais e entrevistas realizadas em diferentes regiões produtoras. O ritmo mais recente também impressiona.

Entre 2024 e 2025, a área potencialmente tratada com esses produtos saltou de 25,99 milhões para 37,19 milhões de hectares, avanço de 35% em apenas uma safra. O crescimento envolve produtores que incorporam microrganismos aos programas de defesa vegetal, com usos e resultados distintos conforme a cultura e a formulação.

O segredo do Bacillus está em diferentes formas de ataque e proteção. Certas cepas produzem moléculas capazes de prejudicar fungos que provocam doenças.

Outras ocupam o espaço ao redor das raízes e das folhas, disputando os nutrientes de que organismos patogênicos precisam para se instalar. Também existem bactérias que estimulam respostas de defesa da própria planta.

Um exemplo são os lipopeptídeos, compostos produzidos por determinadas cepas que podem alterar membranas de microrganismos indesejados. Algumas espécies liberam enzimas que afetam estruturas de fungos e nematoides.

Os pesquisadores também descrevem a interferência na comunicação química entre microrganismos, mecanismo chamado de quorum quenching, que pode dificultar processos associados às infecções. Outra característica ajuda a explicar a presença dessas bactérias nas prateleiras de insumos agrícolas: muitas formam endósporos, estruturas resistentes que favorecem a sobrevivência em condições desfavoráveis e permitem desenvolver produtos com maior estabilidade.

Cada cepa tem propriedades próprias; a eficiência depende do alvo biológico, da aplicação e do manejo adotado na fazenda. Uma parte desses produtos é aplicada às sementes antes do plantio.

Outras formulações seguem no sulco aberto pela semeadora, são distribuídas no solo ou pulverizadas sobre as folhas. O objetivo varia: enfrentar organismos que atacam as raízes, dificultar o desenvolvimento de fungos nas partes aéreas ou fortalecer o estabelecimento da planta nos estágios iniciais.

Entre os problemas agrícolas associados às indicações comerciais listadas pelos pesquisadores estão mofo-branco, antracnose, oídio, mancha-alvo e nematoides, vermes microscópicos que prejudicam as raízes. Produtos com espécies do gênero também são empregados em sistemas que cultivam soja, milho, cana-de-açúcar, café, algodão e outros vegetais de importância econômica.

O levantamento identificou 31 cepas comercializadas de Bacillus subtilis, 27 de Bacillus amyloliquefaciens e 25 de Bacillus velezensis. A espécie B.

amyloliquefaciens respondeu por aproximadamente 13,87 milhões de hectares de área potencial tratada em 2025. Já B.

thuringiensis, mais conhecida por aplicações no controle de insetos, atingiu cerca de 4,2 milhões de hectares potenciais. A expressão usada na pesquisa é área potencialmente tratada.

Ela considera a soma das aplicações estimadas dos produtos ao longo do período, segundo recomendações de uso e práticas declaradas por produtores. Um mesmo talhão pode receber mais de um tratamento, em momentos diferentes, e entrar novamente na contagem.

Os 37,2 milhões de hectares, portanto, medem a escala estimada de utilização dos bioinsumos, não uma área física exclusiva de 37,2 milhões de hectares. No conjunto de todos os agentes de controle biológico, o total chegou a 86,9 milhões de hectares potenciais em 2025.

Distinguir esses números permite compreender a intensidade das aplicações sem transformar estimativas comerciais em expansão de área cultivada. Para formar as estimativas, a Kynetec realizou entrevistas presenciais com agricultores e gestores rurais.

Foram 15.708 entrevistas na safra 2024/2025, abrangendo culturas, tamanhos de propriedades e regiões diferentes. Os pesquisadores cruzaram esses levantamentos com informações sobre registros, cepas e indicações dos produtos presentes no mercado brasileiro.

As próximas formulações não dependem apenas de encontrar uma bactéria isolada. O estudo registra o avanço de produtos que reúnem espécies diferentes de Bacillus ou combinam essas bactérias com fungos usados no controle biológico, como Trichoderma.

Os consórcios formados exclusivamente por espécies de Bacillus alcançaram 5,57 milhões de hectares de área potencial tratada em 2025. As misturas são investigadas porque organismos diferentes podem ocupar partes distintas da planta ou atuar por mecanismos complementares.

A pesquisa também aponta caminhos para selecionar cepas mais apropriadas a doenças, culturas e condições ambientais específicas, utilizando informações genéticas e sobre as substâncias que cada microrganismo produz. Já existem estudos sobre a contribuição de determinadas cepas para a absorção de nutrientes e a tolerância a períodos de seca ou calor.

Esses efeitos precisam ser avaliados para cada formulação e situação agrícola, especialmente porque campo, laboratório e estufa apresentam condições de temperatura, umidade e pressão de doenças muito diferentes. O avanço comercial ocorre em um ambiente regulatório que também mudou.

A Lei nº 15.070, de dezembro de 2024, estabeleceu normas específicas para produção, registro, comércio e uso de bioinsumos. O Ministério da Agricultura apresentou em 2026 uma proposta de regulamentação, enquanto a avaliação ambiental integra os processos de registro previstos para esses produtos.

Para o produtor, a identificação correta da cepa, a concentração de microrganismos viáveis, a indicação de uso e as condições de armazenamento podem determinar o resultado de uma aplicação. A própria Embrapa publicou métodos para examinar qualidade e conformidade de formulações à base de Bacillus.

Escolher um produto depende da doença a controlar e de orientação agronômica, e não apenas da palavra “biológico” na embalagem. O estudo situa essas soluções dentro do manejo integrado, que também inclui monitoramento de doenças, escolha de variedades resistentes, rotação de culturas e, quando necessário, defensivos convencionais.

A consulta ao Catálogo Nacional de Bioinsumos ajuda a localizar informações sobre produtos registrados e suas aplicações. Proteger uma plantação contra doenças pode evitar perdas agrícolas e preservar a oferta de matérias-primas utilizadas em alimentos, rações e produtos industrializados.

A expansão do controle biológico entra nessa equação como uma ferramenta de produção. O estudo não mediu uma redução direta nos preços dos supermercados; os efeitos econômicos dependem da produtividade, dos custos, do clima e da situação de cada mercado.

O dado mais concreto já está nas fazendas: em cinco anos, a área potencial das aplicações com Bacillus quase quintuplicou e o mercado ultrapassou R$ 2 bilhões. O avanço seguinte será determinado por testes de eficácia, qualidade das formulações e capacidade de combinar esses microrganismos com as necessidades reais das lavouras.

Publicação Original Clickl Petroleoegas clickpetroleoegas.com.br
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