Aviões militares dos EUA são detectados em base no Equador, de onde país lidera ofensiva contra o narcotráfico

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

Dezenas de voos militares das Forças Armadas dos Estados Unidos foram detectados desde junho na base aérea equatoriana de Taura, perto de Guayaquil, meses após Washington e Quito anunciarem uma nova etapa de cooperação no combate ao narcotráfico. Uma investigação da AFP, baseada em registros de tráfego aéreo, imagens de satélite, documentos militares e depoimentos, identificou cerca de 20 voos de aproximadamente dez aeronaves diferentes da Força Aérea e do Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA e obras de ampliação da instalação no Equador, que vem sendo preparada para receber tropas e equipamentos.

Combate ao narcotráfico: Mais de 300 soldados americanos chegarão à Colômbia para treinamento antidrogas Quer ler mais notícias de Mundo? Acompanhe o canal no WhatsApp

Quer morar fora? Veja guia interativo do GLOBO que reúne informações sobre 36 países A movimentação inclui aviões de transporte militar C-17 Globemaster e C-130 Hercules, aeronaves híbridas V-22 Osprey e helicópteros táticos leves Black Hawk.

Imagens de satélite também mostram a remoção de vegetação em vários hectares de duas áreas no nordeste da base, a instalação progressiva de dezenas de tendas e a construção de uma estrutura com dimensões e formato semelhantes aos de um hangar desmontável coberto por lona. Imagem de satélite, fornecida pela Planet Labs PBC e captada em 10 de outubro de 2026 — analisada pela AFP —, mostra algumas dezenas de estruturas cujas formas e dimensões são compatíveis com tendas modulares de rápida montagem, além de uma estrutura maior que se assemelha a um hangar retrátil para manutenção de aeronaves, na base aérea militar equatoriana de Taura, perto de Guayaquil, no Equador

2026 PLANET LABS PBC / AFP A expansão ocorre em meio à ofensiva antidrogas promovida pelo governo do presidente americano, Donald Trump, na América Latina e no Caribe e menos de um ano depois de os equatorianos rejeitarem, em referendo, a possibilidade de instalação de bases militares estrangeiras no país.

A presença americana em Taura levantou questionamentos sobre o marco legal para receber soldados dos EUA sem violar a Constituição equatoriana. Voos e obras de ampliação

A análise de centenas de horas de voo registradas pelas plataformas de monitoramento do tráfego aéreo AirNav Radar e Flightradar24 identificou deslocamentos de aeronaves militares americanas entre Taura e instalações nos EUA. Entre os destinos e pontos de conexão estão a base do Corpo de Fuzileiros Navais em Cherry Point, na Carolina do Norte, o Aeroporto Internacional de Raleigh-Durham e a base aérea de Dover, no estado de Delaware.

Também foram identificadas escalas em Porto Rico e no Panamá. Dois helicópteros Black Hawk foram detectados na base em meados de julho e no início de setembro.

Em agosto, o ministro da Defesa do Equador havia anunciado que os EUA enviariam três aeronaves desse modelo como parte da cooperação bilateral. As imagens de satélite analisadas pela AFP mostram mudanças na instalação pelo menos desde agosto, possivelmente iniciadas em julho.

Entre o fim de junho e meados de agosto, a vegetação foi removida de áreas próximas à pista principal e às vias de acesso e circulação, uma alteração que não aparece no mesmo período dos anos anteriores. Imagem de satélite, fornecida pela Planet Labs PBC e captada em 10 de outubro de 2026 — analisada pela AFP —, mostra várias dezenas de estruturas cujas formas e dimensões são compatíveis com tendas modulares de montagem rápida.

Também é possível observar uma estrutura maior, semelhante a um hangar retrátil para manutenção de aeronaves (no canto superior esquerdo), bem como uma área onde, nos últimos meses, foram realizados trabalhos de nivelamento do solo (na parte central inferior), tudo isso na base aérea militar equatoriana de Taura, próxima a Guayaquil, no Equador

2026 PLANET LABS PBC / AFP Entre o fim de junho e meados de outubro, também foram instaladas dezenas de estruturas cujas dimensões correspondem às de barracas, frequentemente utilizadas para armazenamento, apoio logístico ou acomodação de tropas.

Uma estrutura maior, com cerca de 40 metros de comprimento por 20 metros de largura, também foi erguida e pode servir para a manutenção de aeronaves. Contexto: EUA anunciam escritório antinarcóticos no Paraguai para coordenar operações no Cone Sul

A AFP observou ainda a entrada e a saída de caminhões de construção nas proximidades da base, que é vigiada por militares. Localizada a cerca de uma hora de Guayaquil, a instalação tem mais de 70 anos de história e é a única base aérea do Equador destinada exclusivamente ao uso militar.

Sua pista tem mais de 3 mil metros de comprimento, extensão superior à do aeroporto da cidade portuária, de onde sai a maior parte das drogas destinadas aos EUA. Presença americana

A ampliação de Taura ocorre em um momento de aproximação entre os governos do presidente equatoriano, Daniel Noboa, e de Donald Trump. Em setembro, Noboa afirmou que trabalhava com os EUA, o Brasil e a União Europeia para concentrar em Taura "qualquer tipo de cooperação" internacional.

Segundo ele, o objetivo era "melhorar as pistas de pouso para realizar operações conjuntas". — Acho que é muito mais apropriado transferir tudo para Taura, (onde a base não compartilha operações com um aeroporto civil, mas está localizada na região com) a maior taxa de criminalidade e homicídios — defendeu durante uma entrevista televisionada em inglês.

Entenda: EUA estão enviando centenas de soldados para a América Latina, dizem autoridades militares americanas A presença de militares estrangeiros, no entanto, suscitou questionamentos dentro das próprias Forças Armadas equatorianas.

Em uma carta datada do início de setembro e obtida pela AFP, o então comandante da Força Aérea, Mauricio Salazar, solicitou esclarecimentos sobre o marco legal para receber militares estrangeiros sem infringir a Constituição. O general foi afastado do cargo e designado para outra função de menor patente.

A sequência dos acontecimentos não esclarece, por si só, se o afastamento teve relação direta com o questionamento jurídico. Procurado pela AFP, o Pentágono orientou que as perguntas fossem encaminhadas ao Comando Sul dos EUA, que não havia respondido imediatamente.

A Força Aérea equatoriana também não havia se pronunciado até a publicação do material. Veja também: Ex-candidata à Presidência do Equador, opositora Luisa González é presa em investigação sobre lavagem de dinheiro

O Equador integra o Escudo das Américas, a nova aliança de segurança e combate ao narcotráfico promovida pelo governo Trump e formada por cerca de 20 países da região. Em agosto, foi anunciado o envio de três helicópteros Black Hawk ao país pelos EUA.

No mês seguinte, Noboa afirmou que o Equador colocaria em operação dois drones MQ-9 Reaper, utilizados pelos americanos em missões de vigilância e ataque. O presidente dos EUA, Donald Trump (à direita), e o presidente do Equador, Daniel Noboa, posam para uma foto no início da cúpula 'Escudo das Américas', no Trump National Doral, em Miami, Flórida, em 7 de março de 2026

SAUL LOEB / AFP Para o coronel reformado da Força Aérea equatoriana Roberto Marchán, a presença das aeronaves e as mudanças nas instalações indicam uma estrutura com potencial para sustentar operações de longo prazo.

Segundo ele, os aviões de transporte identificados permitem deslocar rapidamente tropas e equipamentos pela região andina, enquanto as novas estruturas podem oferecer apoio logístico e manutenção de aeronaves. — Há certo descontentamento entre as tropas, mas os militares guardam isso para si por respeito à instituição e por medo de perder oportunidades de promoção — acrescentou Marchán.

Ofensiva: Ataque ordenado pelo presidente da Colômbia contra acampamento guerrilheiro deixa quatro mortos Os Estados Unidos já mantiveram uma base no porto pesqueiro equatoriano de Manta por uma década, até 2009.

A instalação era um dos principais pontos de apoio americano no combate às drogas na região e abrigava centenas de militares. O acordo foi encerrado pelo governo equatoriano de esquerda que estava no poder na época, enquanto organizações de direitos humanos denunciavam abusos cometidos por militares americanos.

A retomada da cooperação ocorre em um contexto de intensificação da ofensiva de Washington contra cartéis e redes de narcotráfico no Pacífico. Trump ampliou o apoio militar a parceiros da região enquanto se aproximam as eleições legislativas americanas de 3 de novembro, que podem alterar o equilíbrio de forças no Congresso.

Moradores dividem opiniões A poucos quilômetros da base de Taura fica o povoado de mesmo nome, com mais de 9,4 mil habitantes e ruas estreitas de terra.

Sem acesso à água potável, seus moradores trabalham no campo ou em empresas exportadoras de camarão. — Ninguém vem por aqui.

As pessoas acham que é perigoso porque, às vezes, encontram corpos abandonados — relata Fidela Martínez, uma líder comunitária que mora ao lado de uma fazenda de criação de camarões. No ano passado, os corpos de quatro crianças torturadas, assassinadas e carbonizadas foram encontrados entre os arbustos do povoado.

O caso, que envolveu militares, abalou o país. Outros moradores perceberam efeitos mais imediatos decorrentes da ampliação da base.

Alma Goya, de 40 anos, tem um estabelecimento de comida. Ela lamenta que o centro médico localizado dentro da base militar não esteja mais aberto ao público.

— Disseram-nos que era por causa do estado de exceção — conta. Outros habitantes veem com bons olhos a chegada de militares estrangeiros.

— Vi um avião grande que estava pousando — lembra Tito Henríquez, de 68 anos. O proprietário de um pequeno restaurante considera "maravilhosa" a ideia de que militares estrangeiros cheguem ao país que, segundo dados obtidos pela AFP, registrou a maior taxa de homicídios da América do Sul no ano passado, com 51 mortes por 100 mil habitantes.

(Com AFP)

Publicação Original O Globo oglobo.globo.com
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