Avançam negociações entre EUA e Dinamarca para abrir novas bases militares na Groenlândia após crise provocada por Trump

 

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Os Estados Unidos negociam com a Dinamarca e a Groenlândia a abertura de até três novas bases militares na ilha ártica, afirmou nesta terça-feira o primeiro-ministro groenlandês, Jens-Frederik Nielsen, ao dizer que as conversas entre os três governos “deram alguns passos na direção certa”, embora ainda não haja acordo fechado. As negociações, reveladas pela BBC, ocorrem de forma reservada desde janeiro e avançaram nos últimos meses, após o presidente americano, Donald Trump, provocar uma crise diplomática ao afirmar que a ilha deveria passar ao controle dos EUA.

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O plano prevê a instalação de novas estruturas militares no sul da Groenlândia, território autônomo ligado à Dinamarca, com foco no monitoramento de atividades marítimas russas e chinesas no Atlântico Norte.

A região considerada prioritária pelos EUA inclui o chamado GIUK Gap, corredor marítimo situado entre Groenlândia, Islândia e Reino Unido, historicamente visto como estratégico para operações militares e movimentação naval no Atlântico.

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Uma das bases em discussão poderá ser instalada em Narsarsuaq, local que já abrigou uma instalação militar americana durante a Guerra Fria e possui infraestrutura aeroportuária. Outras possíveis unidades também devem aproveitar estruturas já existentes, como portos e pistas de pouso, reduzindo custos de construção.

Segundo fontes familiarizadas com as negociações, representantes americanos chegaram a discutir a possibilidade de que as futuras bases fossem classificadas formalmente como território soberano dos EUA. Até o momento, porém, nenhum acordo foi fechado, e o número final de instalações ainda pode mudar.

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Apesar das declarações de Trump no início do ano sugerindo que os EUA poderiam assumir o controle da Groenlândia “do jeito fácil ou do jeito difícil”, autoridades americanas não teriam levantado, nas negociações atuais, qualquer hipótese de anexação do território — cenário rejeitado publicamente pela Dinamarca e pela Otan.

Nos bastidores, o governo americano tenta transformar o impasse diplomático em um acordo de segurança negociado dentro da estrutura de defesa já existente entre EUA e Dinamarca. As conversas são lideradas por Michael Needham, alto funcionário do Departamento de Estado encarregado de conduzir as tratativas com representantes dinamarqueses e groenlandeses.

As equipes se reuniram ao menos cinco vezes desde meados de janeiro, segundo fontes ligadas às discussões. Participam das negociações integrantes do Departamento de Estado, do Conselho de Segurança Nacional dos EUA e diplomatas da Dinamarca e da Groenlândia.

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Segundo Nielsen, o grupo de trabalho criado entre Washington, Copenhague e Nuuk foi estabelecido para discutir principalmente preocupações americanas na área de Defesa, após as declarações de Trump sobre assumir o controle da ilha.

— Estamos negociando, mas não temos um acordo neste momento — afirmou o premier groenlandês durante a Copenhagen Democracy Summit.

O líder da Groenlândia disse ainda que o território está disposto a ampliar sua cooperação em segurança internacional, mas voltou a exigir respeito à soberania da ilha.

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— Dissemos que estávamos dispostos a fazer mais e assumir maiores responsabilidades em matéria de segurança nacional e internacional. Nossa única exigência é respeito — declarou. — Não seremos tomados. Não estamos à venda.

Atualmente, os EUA mantêm apenas uma base militar ativa na Groenlândia, a Base Espacial de Pituffik, no noroeste da ilha. Durante a Guerra Fria, os americanos chegaram a operar cerca de 17 instalações militares no território.

O acordo de defesa firmado entre EUA e Dinamarca em 1951 — atualizado em 2004 — já oferece ampla margem para expansão da presença militar americana na Groenlândia, desde que as autoridades dinamarquesas sejam previamente informadas. Especialistas em segurança no Ártico afirmam que Copenhague historicamente nunca rejeitou pedidos americanos para ampliar operações militares no território.

O interesse renovado de Trump pela Groenlândia reacendeu tensões dentro da Otan e expôs o valor estratégico crescente do Ártico em meio à disputa geopolítica entre EUA, Rússia e China. Nos bastidores, porém, Washington passou a priorizar a via diplomática para ampliar sua presença militar na região sem aprofundar o desgaste com um aliado histórico da aliança militar ocidental.

(Com AFP)