Sucesso na Coreia do Sul, a autora Lee Hong estreou no Brasil pelo livro A dama de Gangnam (2026), um thriller psicológico que se passa no luxuoso distrito da capital do país, Gangnam, onde cresceu. Em entrevista à Quem, a escritora reflete sobre o consumo entre K-pop, doramas e literatura sul-coreana no Brasil e como foi o processo de abrir mão de uma vida de elite no país para viver com autenticidade, processo que inspirou seu novo lançamento. Enquanto esteve no Brasil em setembro deste ano, Lee Hong conta que viu, por meio do BTS, um estímulo para que mais pessoas tivessem interesse na literatura sul-coreana, mostrando a complementariedade entre as produções culturais da Coreia do Sul. "Pude sentir de maneira muito direta o carinho dos brasileiros pelo K-pop. Durante um dos eventos, tive a oportunidade de conhecer a organizadora de um clube de leitura, e achei muito interessante e inusitado descobrir que o grupo escolhia suas leituras a partir dos livros que o BTS lia", conta. Essa influência não é restrita apenas ao Brasil. "Por outro lado, em um evento de conversa sobre livros que realizei na França, conheci leitores que disseram ler literatura coreana para compreender melhor o BTS", fala.
BTS completa 13 anos: relembre os momentos que consolidaram o grupo como o maior do mundo Reprodução/Instagram Lee Hong ainda mencionou que conheceu leitores de A Vegetariana (2007), de Han Kang, que ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 2024. "A partir daí, [essas pessoas] passaram a se interessar não apenas por outras obras da literatura coreana, mas também por K-dramas e filmes coreanos", diz. 'A Vegetariana ' de Han Kang Divulgação A escritora também atua como agente literária e afirmou que recebe contato de empresas estrangeiras de produção audiovisual interessadas em novas histórias do país. "Algumas produtoras da América do Sul, por exemplo, entram em contato para consultar sobre os direitos de adaptação audiovisual de romances coreanos que ainda não foram publicados na América do Sul, mas que já foram publicados em países de língua inglesa ou na Europa", expõe. Para comentar sobre a relação entre K-pop, doramas e literatura sul-coreana, Lee Hong menciona o termo Hallyu, que caracteriza a influência a partir da produção cultural que a Coreia do Sul possui em outros países como uma espécie de "onda". O movimento começou de forma orgânica na internet por meio do engajamento dos fãs e, ao longo dos anos, foi impulsionado pela presença de empresários que se voltaram ao setor ao ver o seu poder de lucratividade. "No início da expansão internacional da Hallyu, o interesse estava muito ligado a 'conhecer a cultura coreana'. Mais recentemente, porém, temos visto crescer o desejo de 'conhecer profundamente a cultura coreana'. Acredito que a literatura coreana será um conteúdo capaz de proporcionar esse ponto de transição", preve. Para Lee Hong, os livros podem ser uma forma de aprofundamento na realidade do seu país. "À medida que mais pessoas leem literatura coreana, parece estar se formando uma percepção mais complexa, ampla e equilibrada da sociedade e da cultura do país", diz. "Mais do que uma idealização extrema ou uma visão excessivamente crítica, acredito que, quando diferentes perspectivas se acumulam, as pessoas podem não apenas ter acesso a informações mais ricas e qualificadas sobre a cultura coreana, mas também desenvolver um afeto mais profundo por ela", fala a autora. Lee Hong Gabriela Cuerba/LC – Agência de Comunicação Nessa perspectiva de utilizar a literatura para conhecer novos países, Lee Hong conta que o mesmo aconteceu com ela em relação ao Brasil. "Quando eu era criança, conheci o Brasil pela primeira vez ao ler O Meu Pé de Laranja Lima, traduzido e publicado em coreano. Naquela época, eu não conhecia o Brasil de maneira concreta; imaginava o país por meio de Zezé, personagem do romance", detalha. "Por isso, é muito especial e precioso para mim que meu romance seja publicado no Brasil, um país que durante tanto tempo imaginei por meio da literatura", afirma. 'O Meu Pé de Laranja Lima' Divulgação 'A dama de Gangnam' O livro de Lee Hong aborda a história de uma apresentadora de televisão famosa que passa a receber ameaças por um stalking misterioso que se torna tão intenso que faz com que a protagonista passe a desconfiar das pessoas ao seu redor. A autora frisa que, apesar de ser uma história conter elementos de sua experiência e visão de vida, "todos os personagens, relações e acontecimentos da história são fictícios". "Questões características da sociedade coreana retratadas no romance, como a cultura excessiva da educação extracurricular privada, o culto à aparência, o casamento tratado como uma espécie de negociação e a competição incessante, nasceram das minhas próprias experiências e das reflexões que elas despertaram em mim", diz. "Na época em que comecei a conceber este romance, sofri um acidente de trânsito. Até aquele momento, eu acreditava que estava levando uma vida bem-sucedida. Meu marido na época, que hoje é meu ex-marido, vinha de uma família ligada ao antigo Hankook Ilbo Group [jornal diário sul-coreano muito famoso no país]", detalha. "Por isso, desde que me casei, aos vinte e poucos anos, tive acesso a benefícios econômicos que seriam difíceis de imaginar para alguém da minha idade. Também me tornei mãe em meio a um ambiente de grande prosperidade", conta. ''A dama de Gangnam'' de Lee Hong Divulgação Neste cenário, Lee Hong conquistou um Today's Writer Award, um importante prêmio literário sul-coreano, com seu romance de estreia, Girlfriends, que foi adaptado aos cinemas em 2009, e foi finalista do Korea Times Literary Award. "Esse reconhecimento marcou minha entrada oficial no mundo literário como romancista, algo com que eu sonhava desde os nove anos de idade, ao mesmo tempo em que conciliava diversas atividades criativas e aparições na mídia", resgata. "Para administrar bem todos esses papéis, passei alguns anos dormindo apenas três ou quatro horas por dia. Foi então que, enquanto dirigia, cochilei por um instante e sofri um acidente de trânsito. O acidente aconteceu na Estrada 50 [via expressa importante no país], um trecho que aparece também como cenário do romance, envolto na escuridão", fala. Lee Hong Gabriela Cuerba/LC – Agência de Comunicação Lee Hong conta que esse episódio foi um divisor de águas em sua carreira. "Depois desse acidente, comecei a olhar para minha vida de outra maneira. Percebi que meu desejo por sucesso social não era necessariamente um desejo que havia nascido de mim mesma, mas algo que eu havia aprendido e internalizado desde a infância", reflete. "Foi nesse processo de repensar o que significava o sucesso e quais eram os critérios que eu usava para defini-lo que encontrei a inspiração para este romance", completa. Sua história de vida até foi primordial para suas personagens femininas, que passaram a questionar normas sociais como o casamento e a maternidade. Segundo Lee Hong, suas personagens "podem proporcionar uma oportunidade para refletir sobre a posição das mulheres dentro dos valores e das convenções da sociedade contemporânea". Em sua visão, isso pode guiar as leitoras para uma reflexão sobre até que ponto os seus desejos são delas mesmo. "Por outro lado, se há um pequeno desejo que eu, como autora deste livro, gostaria de transmitir aos leitores, é que as mulheres que lerem A Dama de Gangnam tenham um momento para olhar para si mesmas e refletir sobre a origem dos próprios desejos", fala. Lee Hong Gabriela Cuerba/LC – Agência de Comunicação
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