Ao anunciar cirurgia, Leão XIV amplia transparência sobre saúde dos papas e contrasta com histórico de sigilo do Vaticano

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

Diante de centenas de fiéis reunidos na Praça de São Pedro, o Papa Leão XIV surpreendeu ao anunciar, no domingo, que seus médicos haviam identificado um pequeno nódulo pulmonar em estágio “muito inicial”. Após recitar a oração do Angelus, o Pontífice afirmou que foi orientado a passar por uma cirurgia “nos próximos dias” para removê-lo. Leão foi internado nesta terça-feira no Hospital Gemelli, em Roma, onde passou pelo procedimento, e pessoas ao seu redor relataram que ele demonstrou “tranquilidade”. A divulgação antecipada do diagnóstico, no entanto, representa uma mudança significativa em relação à maneira como historicamente o Vaticano administrou as informações sobre a saúde dos papas. — O que acho que foi interessante dessa situação é que, pelo que entendemos, ninguém estava sabendo. Nem a Cúria Romana, nem o aparato do Vaticano estavam prontos para receber essa informação. O Papa viveu esse processo de forma muito reservada e tinha pouquíssima gente que sabia da situação de saúde dele — disse ao GLOBO Filipe Domingues, jornalista e analista do Vaticano. — Ao mesmo tempo, a mensagem que ele transmitiu foi de serenidade.

Contexto: Papa Leão XIV é internado em hospital de Roma para cirurgia de remoção de nódulo no pulmão; veja o que se sabe Quer ler mais notícias de Mundo? Acompanhe o canal no WhatsApp Durante décadas, detalhes de internações, cirurgias e doenças foram tratados com reserva, e a gravidade de determinados quadros médicos nem sempre foi comunicada integralmente. Embora a Santa Sé tenha começado a adotar uma postura mais aberta durante o pontificado de Francisco, anúncios pessoais como o de Leão continuam sendo raros. A última vez que um Pontífice anunciou pessoalmente que iria a um hospital foi há mais de 30 anos, em 1992, quando São João Paulo II fez um breve anúncio durante a oração do Angelus: — Gostaria agora de lhes confidenciar algo. Esta noite, irei ao Hospital Gemelli para realizar exames diagnósticos — disse ele em polonês, o que significou que a maioria dos jornalistas não conseguiu traduzi-lo e precisou aguardar a cópia da transcrição em italiano.

Histórico de anúncios João Paulo II enfrentou sucessivos problemas de saúde e foi hospitalizado diversas vezes, sendo a primeira após sofrer um atentado a tiros, em 1981. Apesar disso, o que acontecia durante as internações frequentemente não era divulgado por completo, e a gravidade das situações era sempre minimizada. No último ano de sua vida, em 2005, o então porta-voz da Santa Sé, Joaquín Navarro-Valls, foi criticado por isso, especialmente quando afirmou que o Papa estava comendo biscoitos logo após passar por uma traqueostomia eletiva. Quer morar fora? Veja guia interativo que reúne informações sobre 36 países Antes disso, em 1967, Paulo VI saudou e agradeceu publicamente, também durante o Angelus, pela preocupação dos fiéis com sua saúde. O discurso foi feito três dias antes de ele passar por uma cirurgia de próstata para tratar uma lesão benigna, mas o Pontífice não mencionou diretamente o procedimento durante a oração.

Depois, em 2013, Bento XVI trouxe a questão da fragilidade física para o centro de sua renúncia. Em sua Declaratio, escrita em latim, o Pontífice explicou que suas forças, em razão da idade avançada, já não eram adequadas à missão que lhe havia sido confiada. Aos 85 anos, ele não anunciou um diagnóstico ou cirurgia, mas afirmou que o governo da Igreja e a proclamação do Evangelho exigiam “o vigor do corpo”.

Foi somente durante o pontificado de Francisco que o Vaticano passou a divulgar informações mais detalhadas sobre os tratamentos médicos do líder da Igreja Católica. Ainda assim, a Santa Sé só anunciou sua internação no Gemelli, em 2021, no próprio dia em que ele foi hospitalizado. Uma semana depois, o argentino rezou o Angelus da varanda do hospital e defendeu uma “boa assistência à saúde, acessível a todos”. Ao lado de crianças internadas, destacou a importância da escuta, atenção e ternura no cuidado com enfermos.

— Depois desse período, vimos uma mudança no estilo das comunicações que vinham por escrito. Eram muito detalhados os boletins de saúde que saíam do Papa Francisco, [com detalhes] de condições médicas que não eram comuns de a gente saber — disse Domingues.

Papa Francisco caminha em direção a um avião no Aeroporto Internacional John F. Kennedy, após visita a Nova York, em 26 de setembro de 2015 Sam Hodgson/The New York Times Em outra ocasião, em 2025, Francisco passou 38 dias no hospital, e o Vaticano chegou a informar que seu estado de saúde era “crítico”. Mesmo com a postura mais aberta, a gravidade completa do quadro só se tornou conhecida posteriormente, quando o cirurgião Sergio Alfieri revelou, em entrevista após a alta, que a equipe médica havia considerado interromper o tratamento para permitir que o Pontífice morresse em paz.

Desafios e dilemas Por anos, o histórico de informações incompletas alimentou críticas de quem, por um lado, considera o tratamento dado à saúde dos pontífices um exemplo de uma cultura institucional mais ampla de sigilo. Em alguns casos, essa postura já abriu espaço para especulações: em 1978, após a morte de João Paulo I, rumores se espalharam diante da escassez de informações oficiais e persistem até hoje. Teorias amplamente citadas vão desde negligência médica até envenenamento e assassinato como forma de impedir investigações sobre um escândalo de corrupção.

— Quando [Leão] fala abertamente sobre sua saúde, ele transmite tranquilidade, e isso interrompe especulações sobre o que ele sabe, o que não sabe, se estão filtrando alguma coisa ou não — disse Domingues. — Não houve vazamento da informação, ninguém sabia, e ele passou uma serenidade muito grande. Essa foi uma grande diferença. [Além disso,] até então só víamos o Papa enérgico, que, aos 71 anos, ainda é esportista e ativo. Ao falar da saúde abertamente, nós vemos que todo mundo tem o lado da fragilidade humana.

Papa Leão XIV é internado em hospital de Roma para cirurgia de remoção de nódulo no pulmão Por outro lado, a maior transparência também apresenta desafios para a comunicação da Santa Sé. No domingo, pouco antes de anunciar a cirurgia, Leão XIV fez um apelo para que as partes envolvidas na guerra na Ucrânia permitissem o transporte seguro de grãos pelo Mar Negro, ressaltando o impacto do conflito sobre países pobres dependentes de importações. A manifestação, porém, recebeu pouca atenção diante da repercussão sobre sua saúde. Saiba: Como é o hospital onde o Papa Leão XIV será operado nesta terça-feira O mesmo dilema deverá se estender a outros compromissos da Igreja. Presidentes de conferências episcopais de diferentes países discutem o documento Amoris Laetitia (Alegria do Amor), publicado por Francisco há uma década, incluindo questões relacionadas ao divórcio e às famílias. Leão também tem participação prevista no 40º encontro inter-religioso anual pela paz, em 27 de outubro. A cirurgia, no entanto, poderá fazer com que a atenção se concentre em sua recuperação, em eventuais ausências e em sua aparência.

— Acho que a Igreja sempre tratou a saúde do Papa com muita reserva para não criar alarde, preocupação e comoção sem precisar — afirmou o analista. — Mas a saúde do Papa é um tema pessoal, e é ele quem deve decidir como quer falar disso. Muitos preferem tratar isso de forma reservada, enquanto outros, como Francisco, que apareceu de cadeira de rodas, e agora o Papa Leão, tratam a questão de forma muito serena. Acho que compreendem um pouco melhor a nossa sociedade; a cultura do celular e da informação. É difícil esconder algo.

Na tarde desta terça, o Vaticano informou que Leão foi submetido à cirurgia para remover o nódulo no pulmão, acrescentando que a operação, que teve início enquanto a equipe médica recitava o Rosário, foi concluída “com sucesso, dentro do prazo e conforme o planejado”. O Pontífice retornou ao seu quarto após a cirurgia, disse o comunicado, prometendo trazer mais informações posteriormente.

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