Augusto Boal volta a ocupar a cena carioca em setembro com duas montagens e uma exposição que recuperam diferentes momentos da trajetória do dramaturgo, diretor, ensaísta e criador do Teatro do Oprimido. Falecido em 2009, ele foi um dos principais nomes da construção de um teatro genuinamente brasileiro e latino-americano. Na Gávea, “Hamlet 16x8” revisita sua vida a partir da autobiografia “Hamlet e o filho do padeiro: memórias imaginadas”. Em Botafogo, “Revolução na América do Sul”, escrita há cerca de 60 anos, retoma a história de um trabalhador em busca de comida e encontra, na montagem atual, ecos de questões que permanecem presentes no país. No Planetário, fotografias e cartazes ajudam a recuperar a dimensão de uma trajetória que ultrapassou as fronteiras brasileiras. Polícia investiga: Creche para cães em Botafogo é denunciada por suspeita de maus-tratos; polícia investiga Avistar Rio: Evento gratuito reúne observadores de aves A programação ocorre em diferentes espaços, mas tem uma origem comum, o Instituto Augusto Boal, sediado na casa em Ipanema onde o dramaturgo viveu durante anos com Cecília Boal. Psicanalista e atriz, ela conheceu Boal na Argentina há 60 anos. Os dois foram companheiros por 43 anos e dividiram também a vida artística. Hoje, ela preside o instituto dedicado à preservação e à difusão do legado do dramaturgo. Para Cecília, uma característica da obra do marido ajuda a explicar por que ela continua encontrando espaço no palco: a combinação entre política e humor. — Creio que o que continua atual, na obra de Augusto Boal, são as temáticas, como a questão política, sempre muito forte no engajamento, e também o humor. As peças dele têm elementos de humor muito fortes — afirma. Augusto Boal. A foto do dramaturgo dirigindo “La malasangre”, em 1984, na Alemanha, está na mostra no Planetário Divulgação/Claus Felix Cecília acha que, se Boal pudesse escrever uma nova peça hoje, certamente falaria da situação política do país. — Naturalmente seria sobre este tema. Como a situação está particularmente complicada, certamente ele abordaria a situação atual — afirma. Rio Gastronomia: Evento terá estreia de restaurantes premiados, retorno de veteranos e espaço para bares históricos A trajetória de Boal começou no Teatro de Arena de São Paulo e passou por diferentes experiências até a criação e difusão do Teatro do Oprimido, método que o tornou conhecido internacionalmente. A preocupação que atravessou sua carreira era encontrar formas de fazer teatro capazes de dialogar com a realidade social e política. Ao longo desse percurso, escreveu peças, dirigiu espetáculos, desenvolveu técnicas teatrais e trabalhou na formação de artistas e grupos em diferentes países. Entre a memória e o presente É justamente essa dimensão múltipla que a exposição montada no Teatro Municipal Domingos Oliveira, no Planetário, procura apresentar. A curadora Daniela Camargo, que divide o trabalho com Cecília Boal, selecionou fotografias e cartazes pertencentes ao acervo do Instituto Augusto Boal para mostrar principalmente sua passagem pelo Teatro de Arena, sua atuação como educador e sua influência no teatro mundial. — O teatro é uma arte efêmera por natureza. A exposição possibilita mostrar os registros materiais da atuação artística de uma geração fundamental do teatro brasileiro — explica Daniela. O conjunto também procura revelar um aspecto que vai além da produção de espetáculos: o papel de Boal como formador de diferentes gerações de artistas brasileiros e estrangeiros. — Augusto Boal mostrou o Brasil para os brasileiros por meio de sua arte e de sua atuação política — resume a curadora. “Hamlet 16x8”. Rogério Bandeira protagoniza o espetáculo no Planetário Divulgação/Pio Figueiroa Cerâmica, pilates, ioga, desenho: Crescem opções de atividades para quem quer desacelerar O acervo ajuda a contar essa memória. A historiadora Célia Costa foi responsável pelo tratamento do material e pela digitalização e organização dos documentos em um arquivo digital codificado. O conteúdo pode ser consultado no site do Instituto Augusto Boal. Parte do acervo físico, com fotografias e documentos, está no Museu Lasar Segall, em São Paulo. As cartas estão nos arquivos do Instituto Moreira Salles, no Rio, enquanto outras permanecem na casa de Cecília, em Ipanema. Foi dessa memória que surgiu “Hamlet 16x8”, solo protagonizado por Rogério Bandeira e dirigido por Marco Antonio Rodrigues. Em cartaz desde ontem no Teatro Municipal Domingos Oliveira, no Planetário, onde faz temporada até 27 de setembro, o espetáculo parte da autobiografia “Hamlet e o filho do padeiro: memórias imaginadas”. Para Rodrigues, o interesse em revisitar Boal não está apenas na importância histórica de sua obra, mas também na maneira como o dramaturgo encarava a própria vida. — O Augusto Boal era um cara que tinha uma convicção profunda na humanidade. Tinha tesão pela vida e pelo teatro e sabia dar nó em pingo d’água. Isso é sempre um aprendizado para a vida — diz o diretor. O espetáculo não se limita, segundo Rodrigues, a uma transposição da autobiografia. A montagem cruza diferentes trajetórias ligadas à história de Boal e à de Iberê Bandeira de Melo, pai de Bandeira e advogado de presos políticos durante a ditadura militar. Para o ator, que idealizou o espetáculo e também está em cena, um dos aspectos mais marcantes da autobiografia está no momento em que Boal decide interromper uma trajetória de sucesso do Teatro de Arena para buscar outro contato com o público. O grupo estava em um período de grande repercussão, com espetáculos lotados e forte presença do movimento estudantil. Mesmo assim, Boal entendia que precisava sair daquele circuito. A decisão levou o grupo ao Nordeste, onde encontrou uma realidade marcada por conflitos agrários, pelas experiências de alfabetização de Paulo Freire e pelas ligas camponesas. O contato com aquela realidade provocou uma mudança na maneira como Boal enxergava o próprio fazer teatral. É essa travessia que Bandeira considera fundamental para compreender o dramaturgo. — Boal é história do teatro brasileiro e mundial. Boal é muitos porquês — afirma o ator. “Revolução na América do Sul”. Peça é idealizada por Julian Boal, filho do dramaturgo Divulgação/Mário Canelas Para ele, há também uma razão contemporânea para recuperar essa obra. Em uma época marcada por redes sociais, celulares e relações mediadas pela tecnologia, Bandeira identifica uma tensão entre conexão e isolamento. — A tecnologia hoje propõe muita solidão. O Instagram, a relação com os celulares e as próprias relações entre as pessoas trazem uma certa solidão, um individualismo muito grande — diz. Em contraponto, ele vê na obra de Boal uma defesa permanente do coletivo: — O Boal, na obra, fala que é um homem coletivo: “Eu sou de grupo, eu sou do coletivo, eu sou peixe de cardume, eu sou cardume”. Para o diretor, outro aspecto fundamental está na capacidade de Boal de rever a própria produção. Ao revisitar suas experiências, técnicas e convicções, ele não tratava sua obra como algo acabado. — Ele vai revendo a sua obra durante todo o tempo, as suas técnicas, as suas convicções, e vai sempre aprimorando-as, de forma que elas se tornem um patrimônio público — explica. Festival Canta: Evento volta a reunir grandes atrações no Caminho Niemeyer, em Niterói, após três anos Enquanto “Hamlet 16x8” olha para a trajetória de Boal, “Revolução na América do Sul” tem no centro da trama um personagem criado pelo dramaturgo nos anos 1960. A peça acompanha José da Silva, trabalhador que tenta encontrar uma saída para a fome. A nova montagem, dirigida por Wellington Fagner, estreia no Teatro Poeirinha, em Botafogo, na próxima terça ( dia 8) e segue em cartaz até 21 de outubro. Julian Boal, filho de Boal e um dos idealizadores da temporada, defende que a permanência da peça está justamente na distância entre ter um trabalho e conseguir, por meio dele, garantir condições dignas de vida. — É um pouco o processo do Zé da Silva, que é trabalhador mas o fato de trabalhar não garante que ele tenha acesso a nada — avalia. O filho de Boal relaciona essa situação ao cenário de endividamento e à precarização do trabalho. Segundo ele, a ameaça da fome pode estar menos visível do que em outros momentos, mas continua presente. A montagem também atualiza o personagem ao colocá-lo em contato com um trabalhador uberizado. Para Cássio Duque, que integra o elenco, esse encontro cria uma das imagens mais fortes da relação entre a peça escrita no passado e o Brasil atual. — É uma fotografia sensível e ao mesmo tempo potente. O retrato de uma evolução às avessas diante de nós — define o ator. A peça também passa por outras situações que, para Duque, ganham força em um ano eleitoral. Entre elas estão uma cena ambientada na Câmara dos Deputados e uma propaganda eleitoral protagonizada por um antigo patrão de José da Silva. O resultado, na avaliação do elenco e da direção, não pretende transformar a obra em uma simples reprodução do passado. A ideia é justamente usar a estrutura criada por Boal para fazer o público reconhecer problemas contemporâneos. O diretor acredita que o trabalhador retratado na montagem encontra paralelo na realidade de quem vive hoje entre aplicativos, precarização e falta de direitos. — O espetáculo reflete a realidade do trabalhador de hoje, precarizado, endividado e preso à ilusão da “autonomia” das plataformas de aplicativo — diz Fagner. O diretor também destaca que a intenção não é oferecer uma solução pronta ao público: — Nós não queremos que o público saia do teatro passivo. O que queremos provocar é uma indignação ativa e lúcida, mas temperada pelo humor e pela comédia trágica. É justamente o humor que, na visão de Julian, diferencia a maneira como “Revolução na América do Sul” trata a política. Em vez de apresentar uma lição sobre o que fazer, a peça acompanha um anti-herói diante de situações para as quais não há respostas simples. A combinação entre tragédia e comédia produz, segundo ele, um efeito particular: o público pode rir diante de situações difíceis sem que o riso elimine o incômodo. — É comédia a partir de algo trágico. Não oferece soluções fáceis e, ainda assim, pede a ação — destaca o filho de Boal. O solo, a nova montagem e a exposição apresentam Boal por ângulos diferentes. Uma recupera sua trajetória pessoal; outra revisita um texto escrito em um período de profundas transformações políticas e sociais; a terceira reúne vestígios materiais de uma carreira construída no Brasil e ampliada para o mundo. Juntas, elas também ajudam a entender por que sua obra permanece em circulação. Para Cecília, a resposta passa pela própria essência do trabalho do dramaturgo. Dentro de casa, porém, ela lembra de outro Boal. O homem que conheceu na Argentina há seis décadas era, segundo ela, alegre e bem-humorado. — Augusto era uma pessoa de excelente humor, sempre estava de bem com a vida, muito alegre — recorda.
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Augusto Boal revisitado: exposição e duas peças, na Gávea e em Botafogo, homenageiam o dramaturgo, criador do Teatro do Oprimido
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