Atriz brasileira Melissa Vettore faz sucesso com montagem de 'Prima facie' na Itália

 

Fonte:


A primeira reação de Melissa Vettore ao ser apresentada à dramaturga australiana Suzie Miller foi citar as colegas Débora Falabella e Yara de Novaes. "Minhas amigas estão fazendo a sua peça no Brasil, e elas não param de ganhar prêmios", contou, empolgada. Natural de São Paulo, a atriz tem arrebatado plateias com a montagem italiana de "Prima facie", o mesmo texto que Débora, sob direção de Yara, interpreta há quase dois anos em solo tupiniquim — e com o qual conquistou praticamente todos os prêmios teatrais, entre os quais o Shell, o APCA e o APTR.

Prêmio inédito: Brasileiro vence concurso de ópera em Paris e defende 'renovação' do canto lírico no país

Desabafo: Claudia Leitte diz que evita olhar redes sociais em prol da saúde mental: 'Nessa loucura, é fácil se perder'

Está aí o maior case dramatúrgico da contemporaneidade. Desde que ganhou a primeira montagem, em 2019, em Sydney, na Austrália, a obra atrai o interesse de encenadores em todos os continentes. De lá pra cá, já foi levada ao palco em 48 países, praticamente de modo simultâneo. Na Itália, calhou de o monólogo ser defendido por uma brasileira — e alçado ao posto de um dos maiores fenômenos teatrais das últimas temporadas no país.

Galerias Relacionadas

Radicada há oito anos na Suíça — numa região no cantão do Ticino, onde o italiano é o idioma corrente e oficial —, Melissa vive de teatro há pouco mais de três décadas. Em 2018, a paulista, de 54 anos, tomou "coragem" de embarcar para Europa, como diz, a fim de preencher uma vaga na companhia suíça Finzi Pasca, que reúne mais ou menos 20 artistas de diferentes nacionalidades e à qual ela havia conhecido na juventude. Da relação no trabalho, a atriz acabou cultivando um romance com o diretor suíço Daniele Finzi Pasca, com quem se casou.

— Com 40 e poucos anos e dois filhos, fiz essa loucura de ir para a Itália. Quis experimentar, né? Mas sem saber muito bem onde é que isso ia dar — comenta Melissa, que fez participações em programas de TV, entre os quais a séries "Mothern" (2006), "Tapas & beijos" (2011-2015) e "Os dias eram assim" (2017).

Initial plugin text

"Prima facie" é o maior desafio na carreira da artista, e não se trata de clichê ou força de expressão. Melissa afirma que ficou "apavorada" ao ler, pela primeira vez, as 95 páginas da dramaturgia recheada por termos jurídicos em italiano. O espetáculo — que, no Reino Unido, ajudou a mudar leis relacionados a abuso sexual — acompanha os passos de uma advogada que defende acusados de violência sexual até ela mesma se tornar uma vítima de estupro.

A atriz brasileira Melissa Vettore em cena da montagem italiana da peça "Prima facie", que faz sucesso no país europeu

Nina Cangialosi/Divulgação

A montagem dá vazão à linguagem da trupe, que funde ao teatro elementos da dança, da ópera e do circo. Numa das cenas mais impactantes, Melissa surge presa a uma estrutura giratória — algo que simula uma gangorra — em brincadeira que rapidamente evolui para um ato de violência. "Para, para, para", a personagem pede, sem ser atendida pelo parceiro, no controle da situação abusiva.

— Tive que redecorar muitas partes do texto do ponto de vista físico, já que, em cena, me preciso me manter numa posição esdrúxula e continuar falando. Mas, apesar da dificuldade, fazer de um outro idioma a sua língua é um exercício que traz liberdade. É como se cantasse uma música que não faz parte da minha vida. Ou é como se tivesse que dizer palavras que, em meu sentimento, não ressoam muitos significados, sabe? — detalha ela, que não esconde o sotaque em cena. — Originalmente, a personagem vem de Liverpool, um bairro de trabalhadores na Inglaterra. Em nossa versão, ela vem de uma região de latinos.

Meses antes de estrear na Itália, em outubro do ano passado, Melissa esbarrou com Yara de Novaes no Brasil. Mas ficou tímida ao ser convidada para assistir à versão da peça da diretora — logo ela, que estava se preparando para fazer o mesmíssimo espetáculo em outro idioma. "Para de bobeira. Nós somos irmãs. É o mesmo texto, a mesma personagem. E temos que trocar entre a gente", insistiu Yara.

— Ela abriu um portal para mim, sabe? — relembra Melissa, ao citar Yara. — Por isso, fiz questão de falar dela e da Débora (Falabella) quando a autora foi assistir ao espetáculo que faço, em Roma. Sou brasileira, antes de qualquer coisa. E entendi que todas as peças, encenadas em 48 culturas diversas, estão se influenciando mutuamente. A interpretação da Débora (Falabella) deixou em mim um perfume, uma inspiração... E quero deixar algo parecido na próxima atriz que fará essa peça em outro outro lugar. É quase triste e feliz ao mesmo tempo que esta peça esteja ganhando o mundo. Mostra que a violência contra a mulher é algo forte em todos os lugares... Por outro lado, vejo que a peça está criando uma irmandade, de certa forma, entre um público vasto.